Embaixadores da luta contra a SIDA deploram descriminação de seropositivos em empregos e viagens

Muitos são os doentes afectados por HIV-SIDA que se vêm condicionados a viajar e ter acesso ao emprego, por causa da sua condição de saúde, segundo revelação de uma testemunha

Foi na voz de Carolina Pinto António, a primeira gestante a aceitar o teste, hoje conselheira dos seropositivos no especializado Hospital Esperança, que eclodiu o clamor do estigma, quase institucional, pelo qual passam as pessoas que convivem com VIH-SIDA. Aliás, falando na primeira pessoa, Carolina Pinto começou por questionar sobre as razões legais em que se baseiam os profissionais que exigem a ela e a outras pessoas com o vírus a apresentação de diagnósticos da sua condição.

“O Ministério do Trabalho que fique atento, existem pessoas a serem descriminadas, retiradas do trabalho pela condição serológica, há instituições do Estado que exigem fazer o teste de VIH-SIDA como condição da admissão”, queixou- se, tendo adiantando que não conhece nenhuma lei do país que recomende essa prática, com excepção das petrolíferas, onde a recomendação faz parte do controlo de saúde, para melhor acompanhar e ajudar o funcionário. Dirigiu a segunda recomendação aos embaixadores, revelando que há embaixadas que pedem o teste para fazer parte do processo de aquisição de visto.

Questionou, em seguida, o porquê de um país de destino ter de saber a condição serológica de um viajante se não lhe bvai conceder medicação. Carolina Pinto informou que a primeira coisa que o paciente com essa doença precisa é a aceitação da família e da sociedade, por não ser fácil conviver com a doença. Por esta razão se opõe a qualquer tipo de descriminação. O facto de haver ainda cenários de hospitais que obrigam alguns técnicos a atenderem três pessoas ao mesmo tempo preocupa a interlocutora de OPAÍS, que considera quebrados os direitos à privacidade e ao sigilo. “Como é possível testar três pessoas ao mesmo tempo? e toco nesse assunto porque esse exame exige delicadeza e isso se passa com a agravante de, às vezes, o espaço físico não permitir a preservação de alguns direitos”, questionou Carolina, tendo classificando esses actos, às vezes involuntários, como factores tendentes à promoção de estigma.

Responsabilização dos pais

Durante o seu ministério, muitas são as vezes que a conselheira do Hospital Esperança ouviu depoimentos de ausências propositadas das mulheres grávidas na testagem do VIH, para evitarem os custos, pois, a maior parte dos centros hospitalares ainda cobram esteserviço, e caro. Também se mostrou preocupada com os maridos que se recusam a fazer o teste, durante o acompanhamento às suas esposas nas consultas pré-natais, defendendo-se com fé nesta ou naquela confissão religiosa. Para si, a religião e a cultura ainda constituem um grande empecilho, razão pela qual agradece o facto de a Primeira-dama de Angola ter selecionado uma entidade religiosa entre os embaixadores. “Sinto muita dor pela falta de responsabilização dos pais, porque há mães que se furtam ou abandonam o tratamento, mesmo sabendo do seu estado serológico grave e do perigo que o filho corre”, detalhou, questionando-se sobre porquê elas não são responsabilizadas criminalmente.

Publicidades desesperadoras

Um dos traumas vividos pela entrevistada ainda na fase primária da descoberta do seu estado de saúde foi causado pelo impacto dos meios de comunicação que, na altura, segundo recordou, faziam passar uma publicidade que fazia referência de que a SIDA mata, e, como se não bastasse, o ícone da publicidade era um camião-cisterna de cor branca com furo de bala. “Nessa altura, eu dizia que a minha vida acabou, não tinha mais esperança de viver, porque não havia anti-retrovirais no país”, desabafou Carolina Pinto, adiantando que, com ajuda dos médicos, se conseguiu uma junta médica que desencalhou o seu processo de controlo e acompanhamento. A esperança da conselheira reavivou- se em 2001, quando chegou à África do Sul, com apenas 34 quilos. “Mal andava e não falava nenhuma palavra em inglês, tive de internar durante duas semanas, porque passei muito mal, entretanto, com bastante atenção, toda ligada a aparelhos”, detalhou, ressaltando que foi com esse tipo de tratamento e aceitação total da sua condição que lhe despertou a certeza de continuar a viver.

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