Marginais “enfrentam” Operação Resgate na Huíla

Agressões físicas gratuitas e recolher obrigatório depois das 18 horas, sob pena de serem assaltados, são algumas das situações que vivem os moradores de um dos bairros do Lubango

POR: João Katombela,

O sentimento de segurança que o Executivo pretende devolver aos cidadãos com a implementação da Operação Resgate, que decorre em todo país, ainda não reina entre os moradores do bairro da Caluva, na cidade do Lubango, província da Huíla. Durante uma ronda efectuada ao local, a nossa equipa de reportagem pôde constatar que a situação agrava-se com o mau estado das vias de acesso e a falta de iluminação pública. Um terreno baldio que há anos atrás albergava o antigo mercado informal do João de Almeida, transferido para a zona do rio Nangombe, transformou-se no principal esconderijo dos “amigos do alheio”.

Vezes há que, a partir dos escombros das barracas, os meliantes escolhem como alvos preferenciais mulheres, assaltando algumas e violando sexualmente outras. Na última Quinta-feira, segundo conta um morador do referido bairro, um individuo de 28 anos foi barbaramente espancado, estando, por esta altura, internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Central do Lubango. O nosso interlocutor, primo da vítima, com medo de sofrer represálias pediu o anonimato. Revelou que os agressores não residem no mesmo bairro e enveredam por actos delituosos depois de consumirem estupefacientes e bebidas alcoólicas. “Eles abordaram o meu primo no momento em que ele saía para comprar velas numa loja, por falta de energia no bairro, e pediram 100 Kwanzas.

Como ele não tinha, partiram logo para a agressão”, contou. Por seu turno, Conceição Teresa conta que o aumento da delinquência no bairro em que vive deve- se ao facto de existirem vários pontos de venda de cannabis, bem identificados e do conhecimento da Polícia. Conceição Teresa revelou que os delinquentes, na sua maioria adolescentes, consumem estupefacientes em plena luz do dia e depois atacam as suas vítimas com qualquer instrumento que tiverem à mão. Para se repor a tranquilidade, a moradora do referido bairro defende um policiamento de proximidade no local. “Nós estamos a sofrer com os bandidos, sobretudo a partir das 17 horas. Nós, que vendemos aqui no ex-mercado, somos as principais vítimas. Eles ficam mesmo numa ponte a esperar as mulheres”, informou.

Moto-taxistas entre as principais vítimas

Os meliantes que actuam no bairro da Caluva têm também os moto-taxistas como presas nas suas acções. Por vezes, para alcançar os seus intentos, fazem-se passar por clientes. Só na semana passada, de acordo com os depoimentos de mototaxistas, mais de cinco motorizadas de várias marcas foram roubadas no período que vai das 18 às 19 horas. Entre as vítimas dos roubos, nenhuma perdeu a vida. Alguns ficaram com ferimentos ligeiros em várias partes do corpo, como é o caso de Isaías Kayonga, de 46 anos de idade. Com cicatrizes indeléveis no rosto, o homem que tem na actividade de moto-taxista o sustento da sua família, conta que no seu dia-a-dia sai de casa sem esperança de voltar vivo. “Eu trabalho aqui há 5 anos. Todavia, só no princípio do mês passado roubaram-me uma mota, e na semana passada outra. Você denuncia à Polícia, mas eles não fazem nada. Hoje eu tenho cicatrizes causadas pelos bandidos”, revelou.

“Polícia assiste aos crimes impávida”

De tanto serem assaltados e obrigados a recolherem-se antes das 18 horas, os moradores do Bairro da Caluva, na cidade do Lubango, sentem-se abandonados pelas autoridades policiais. O jovem Evaristo Caluvi considera que no seu bairro o patrulhamento policial não se faz sentir, tendo em conta o elevado número de assaltos que se registam naquela parcela do Lubango. “Não há segurança aqui neste bairro, sobretudo a partir das 18 horas. As principais vítimas são as senhoras que vendem aqui no antigo mercado do João de Almeida”, afirmou. Em relação ao consumo de drogas, Evaristo Caluvi disse que é motivado pelo excessivo tempo livre a que os jovens do seu bairro “dispõem” e pela falta de espaços desportivos e culturais.

“Por isso estamos a pedir à Administração Municipal do Lubango que nos ceda pelo menos parte deste espaço baldio que era o antigo mercado do João de Almeida para fazer aqui uma quadra poli-desportiva”. Já Felix Tchongolola, coordenador do bairro, afirmou que o Comando Provincial da Polícia Nacional tem domínio do índice de criminalidade na Caluva, porém, não percebe por que razão, os delinquentes são sempre soltos depois de detidos. “A Polícia assiste impávida aos crimes que são cometidos aqui no nosso bairro”, frisou. Por outro lado, desmentiu a informação avançada pelos seus vizinhos, garantindo que os efectivos da Polícia Nacional têm respondido às solicitações dos aflitos a tempo, mas o que não entende é “como é possível que os mesmos jovens depois de detidos são logo soltos no dia seguinte, mesmo com provas. Que relação há entre alguns policiais e os marginais?”

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