Yuri Quixina: “A partir de hoje quem vai dirigir a nossa economia é o FMI ”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, afirma que o país perde a soberania da gestão económica no acordo com o FMI. Manter o preço médio do barril do petróleo no OGE a USD 68 é o primeiro sinal, no seu entender. Acompanhe a análise dos temas que marcaram a semana económica.

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O FMI anunciou a disponibilização de 3,7 mil milhões de dólares para Angola, no âmbito do acordo. Isso pressupõe luz verde ao Programa de Financiamento Ampliado?

Sim, claramente. Mas importa dizer que o valor de 3,7 mil milhões de dólares vem dar razão ao programa Economia Real, que o fundamental não era o financiamento, mas a ajuda técnica. A criação de capacidade de implementação do plano de consolidação orçamental, porque 3,7 é pouco, para amarrar-se ao acordo com o FMI.

Esperava-se 4,5 mil milhões!?

O FMI em nenhum momento disse que iria financiar com 4,5 mil milhões de dólares, foram apenas estimativas da mídia e do governo, em função das quotas de Angola. Há economistas que defendem que o acordo com o FMI vai trazer credibilidade ao mercado, junto dos investidores internacionais.

E não!?

O pior que se pode ganhar é a confiança e a credibilidade através dos outros. Isso devia vir de nós mesmos, mediante trabalho de casa que permitisse alterar comportamento, maior rigor orçamental e acabar com engenharias contabilísticas nas nossas contas.

A consolidação fiscal é o principal desafio. O que se pode esperar?

Consolidação fiscal no fundo é equilibrar as contas do governo. Tem muitas despesas e poucas receitas. O FMI irá incidir a sua acção sobre esses elementos, reduzir as despesas (pagamento de salários e outras despesas correntes) ou via receitas, que implicará fazer sofrer o povo a dobrar, com o aumento dos impostos.

O que é que a visita da directora-geral do FMI, Christine Lagarde, vem O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, afirma que o país perde a soberania da gestão económica no acordo com o FMI. Manter o preço médio do barril do petróleo no OGE a USD 68 é o primeiro sinal, no seu entender. Acompanhe a análise dos temas que marcaram a semana económica. acrescentar ao processo?

Sempre que os países-membros do FMI solicitam a ‘bazuca’, a directora- geral visita o país solicitante, para perceber as condições psicológicas dos políticos, porque as medidas serão muito duras. Já defendo aqui que a crise iria começar com a chegada do FMI. O ponto alto será a assinatura do acordo com o Presidente da República

E a vinda do FMI vai alterar o quê na vida das pessoas?

Altera a máquina do Estado, primeiro. O FMI vai mexer nos salários, nos subsídios e nos ministérios. Poderá ainda introduzir novos impostos e taxas. A OPEP corta produção, mas o mercado não reagiu tão positivamente. Quando a lógica é o corte para controlar o preço de forma artificial, as economias vão seguir a mesma trajectória de crescimento artificial. Apesar do corte, a OPEP perspectiva que haverá maior oferta. A previsão do preço futuro do barril de petróleo é de baixa.

Ainda assim o Governo insiste em manter o preço médio do barril do petróleo em 68 dólares, no OGE/2019. Como compreender isso?

A primeira razão é o FMI, que fez estimativas de preço médio, em 2019, de 72 dólares e obrigou a todos os países com os quais terá acordo a seguir essa trajectória. Depois de fazer o acordo, está tudo amarrado, tudo dependerá do FMI e não do Governo nem da equipa económica. O FMI acredita que em Janeiro os preços podem subir e não quer saber da poupança que o Governo de Angola tem que fazer. Hoje quem vai dirigir a nossa economia é o FMI, a soberania da gestão orçamental é do FMI.

Na Segunda-feira, Manuel Nunes Júnior afirmou que “não era recomendável fazer uma revisão do preço para já. Era preferível que se observasse o comportamento baixista para depois tomar-se uma decisão”.

Ele só replicou aquilo que o FMI defende, porque o FMI sabe que se mexer terá de mexer em todos os países e todas as variáveis vão alterar. Para mim, o FMI terá de fazer um novo Outlook em Janeiro. É muito provável que isso aconteça.

Um dos balanços recentes da ‘Operação Resgate’ destaca o aumento na legalização dos serviços comerciais. Essa notícia é boa?

O Governo está a atingir os seus objectivos, que é o aumento das receitas, porque formalizar a economia não é através do imposto nem da legalização. Devíamos estruturar e sistematizar a actividade informal.

error: Content is protected !!