População saqueia “riqueza” de Kalupeteka

Se não tivesse lá acontecido a morte de pessoas, nove polícias e 13 civis, a ida à fazenda de Kalupeteka, localizada no Monte Sumi, município da Caála, no Huambo, poderia ser um passeio agradável

Os familiares de José Julino Kalupeteka, líder da extinta seita “Igreja Cristã do Sétimo Dias a Luz do Mundo”, denunciaram, em exclusivo a OPAÍS, que os seus bens materiais que restaram do confronto do Monte Sumi estão a ser saqueados pelos seus vizinhos. A sua fazenda, de aproximadamente 600 hectares, ficara sob vigilância da Polícia depois do confronto entre fiéis da seita e agentes da ordem que resultou em mortes, ocorrido a 14 de Abril de 2015. As declarações foram prestadas por Julino Tito Katupe, filho do dirigente religioso que se encontra na cadeia do Cavaco, em Benguela, a cumprir pena de 28 anos de prisão maior decretada pelo Tribunal Provincial do Huambo.

Durante o período que as forças da Ordem mantiveram o local sob vigilância, estava interdita a entrada de pessoas não autorizadas pelas autoridades judicial ou criminal, incluindo os próprios membros da família de Kalupeteka. Com a retirada dos efectivos, o local ficou desguarnecido, pois, os membros desta família de camponeses não receberem qualquer informação das autoridades sobre se podem ou não cuidar das suas plantações. Julino Katupe contou que o “saque” teve início após ter sido posto a circular um boato, nas zonas circunvizinhas, dando conta de que o seu progenitor tinha morrido por doença numa das celas do estabelecimento penitenciário do Cavaco. De acordo com o nosso interlocutor, há duas semanas, Ana Ngueve, irmã de Kalupeteka, denunciou o sucedido ao soba da localidade, esperançosa de que a situação fosse resolvida, no entanto, não teve sucesso.

Para a sua surpresa, o líder tradicional considerou ser normal a população proceder deste modo, por se tratar um bem do Estado. “A tia questionou como é que diz ser do Estado se a lavra é nossa?” Contou. Insatisfeita, segundo katupe, a sua tia foi à esquadra de Polícia mais próxima denunciar a ocorrência, mas também não foi bem sucedida. Alega que a sua tia não terá sido atendida devidamente pelos agentes da Ordem por, alegadamente, ser família de Kalupeteka e o assunto estar relacionado a este. A acção dos invasores está a incidir sobre as plantações de bananeiras, mangueiras e laranjeiras que resistiram à destruição ocorrida na sequência do confronto que resultou na morte de nove polícias e 13 civis, segundo dados oficiais. Além das plantações, havia currais com gado bovino, caprino, suíno e diversas espécies de aves, como pombos e galinhas, que se dispersaram, e algumas foram mortas durante o “conflito”. “Estamos a contar com as laranjeiras para garantir o sustento da família e, principalmente, do pai, que carece de assistência médica especializada”, frisou Julino Tito Katupe. O jovem disse que alguns dos seus irmãos mais novos não se encontram inseridos no sistema de ensino por falta de condições financeiras.

Um lindo local banhado de sangue

Localizado há cinco quilómetros e meio do Quilometro 25, no município da Caála, no Huambo, o Monte Sumi fica entre uma cordilheira que compreende três montanhas. Se não tivesse lá acontecido a morte de pessoas, a ida ao local poderia ser um passeio agradável, conforme noticiou OPAÍS na edição de 24 de Abril de 2016. A picada tem poucos acidentes, a vegetação não era demasiado alta e permitia ir vendo o horizonte. Abaixo da encosta da terceira montanha há um vale com três represas e do outro lado do vale existe a encosta de uma outra cordilheira cultivada de limoeiros. Esta cordilheira compreende também três montanhas. Olhando para o cenário, percebe- se uma forma de concha com montanhas formando um semicírculo cuja abertura dá para a picada que leva à aldeia do Km 25, visível desde o acampamento, tal como a estrada que liga a Caála ao Cuima. À entrada, estão os escombros da antiga residência do líder e fundador da seita, José Kalupeteka.

Postos no antigo acampamento da seita “Igreja Cristã A Luz de Deus”, sobressaem à vista chapas de zinco queimadas que sinalizam o local onde estavam as casotas, no lado esquerdo, e, no lado direito, os escombros das antigas casas de adobe e as feitas com blocos de cimento (duas ou três). Todas as casas tinham, antes do incidente, a fachada principal virada para Oeste, ou seja, para a parte mais baixa do antigo acampamento, onde estava a moagem, uma represa (com peixes e um pequeno barco a remos), um gerador que alimentava o campo e os terrenos cultivados, estimados em 25 hectares. Viam-se também alguns currais. Ainda é visível o que restou do antigo sistema de postes que estendia uma linha de cabos que levavam a electricidade do gerador às casas definitivas (adobe e blocos).

No solo, restam alguns tubos do sistema de condutas que trazia água desde uma nascente localizada mais acima, na montanha. As casas, com excepção da principal (de Kalupeteka) que tinha até um alpendre que cobria o estacionamento de uma viatura pequena, têm apenas de um a dois compartimentos. Algumas tinham uma pequena cozinha e um galinheiro adjacentes. Quase nenhuma tinha latrinas, estas estavam um pouco mais afastadas. Antes da destruição do local, a uma equipa de reportagem do jornal OPAÍS, na manhã do dia 18 de Abril de 2015, dias depois do “confronto”, uma casa chamava também a atenção dos visitantes: tratava- se de um pequeno comboio com quatro portas sequenciadas e numeradas. Era o posto clínico da “aldeia”, nele ainda foram encontrados balões de soro, medicamentos diversos e instrumentos de trabalho.

Santuário atraiu milhares cidadãos ao Huambo

Na encosta de uma das três montanhas, está o local onde centenas de cidadãos provenientes de diversas partes do país se reuniam para adorar e clamar ao “Senhor”, sob orientação de José Kalupeteka. Nos vídeos a que tivemos acesso, é possível constatar que em determinados cultos a cifra de fiéis participantes chegava aos milhares, sem que o espaço aberto sofresse adaptações. Os peregrinos usavam pedras como bancos, durante tais actividades. Da encosta situada em frente ao acampamento (local de culto) vê-se pomares com citrinos e outras fruteiras. Naquilo que poderia ser a estrada principal da pequena aldeia, está estacionado o que restou de um buldózer de Kalupeteka. Num outro ponto está a carcaça de uma viatura incendiada. O local, que já foi lindo, transformou- se num local de um crime que dificilmente será esquecido pelos angolanos, em particular os habitantes da província do Huambo. Contam-se, segundo apurou OPAÍS, mais de 70 crianças que ficaram órfãos de pai, depois do assassinato dos nove efectivos da Polícia Nacional que tombaram no local.

Contactado por este jornal, o porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional no Huambo, Martinho Kavita, disse que o assunto é da alçada das autoridades administrativas da Caála e que nada tem a ver com a sua corporação. O oficial da Polícia também não soube precisar há quanto tempo os efectivos que tinham sido destacados para o local, com um “posto avançado” provisório, bateram em retirada. Já Francisco Jamba Kita, administrador da Caála, disse não terem recebido qualquer queixa verbal ou escrita, tanto na Administração Municipal, na comunal bem como na administração do sector do 25, relacionada a invasão de fazenda no Monte Sumi. Pelo que, recomenda aos familiares de José Kalupeteka a se dirigirem às instituições do Estado acima mencionadas para formalizar a queixa, a fim de que os órgãos afins possam tomar as medidas adequadas.

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