O sal do conflito entre produtores artesanais e o governo de Benguela

apesar de terem sido desmanteladas pelo governo, as salinas do Cassaí, comuna da Canata, cidade ferroportuária do Lobito, continuam a servir de sustento para centenas de famílias de produtores artesanais que vêem na exploração do “sal proibido” o ganha-pão. Especialistas falam em atentado à saúde pública

Por: Constantino Eduardo, em Benguela

Os produtores artesanais do também conhecido “ouro branco” no bairro do Cassaí, comuna da Canata, em Benguela, alegam que o espaço é uma herança deixada pelos seus pais e, antes mesmo de se pensar em retirá-los de lá, seria bom que o Governo acautelasse determinadas questões de ordem social, como a garantia de emprego, por exemplo.

Sustentam que o sal produzido é utilizado apenas para a salga de peixe e alimentação do gado. Contrariamente à posição dos especialistas e do Ministério das Pescas e do Mar, os micro-produtores garantem que o sal não faz mal à saúde, embora conscientes de que a prática, naquele espeçao, esteja à margem da decisão das instituições do Estado.

Acossados regularmente pelos fiscais da Administração do Lobito, os cidadãos lamentam o facto de, em determinadas circunstâncias, lhes serem apreendidas enormes quantidades de sal a pretexto de cumprimento de uma ordem governamental que interditou a zona, e pedem apenas que se lhes conceda uma moratória (sem precisar o tempo) para que consigam uma outra actividade que sirva de sustento para as suas famílias.

“Vocês são fiscais, não é?”, pergunta a senhora Ana Toya, que há 5 anos se dedica à exploração de sal no Cassai, à reportagem d´O PAÍS. Ela acha que não é justo que sejam retirados daquele sítio sem que tenham outro lugar para garantir a sustentabilidade da família.

Félix Calueyo, que trabalha na exploração do sal há 38 anos, refere que os compradores do sal produzido são maioritariamente cidadãos que se dedicam à actividade pesqueira. “O saco custa 2 mil Kz. Para nós, aqui é a fonte de sustento.

Nós somos os netos dos que aqui trabalharam com o colono português”, disse Calueyo, que não conseguiu precisar o número de canteiros existentes.

O técnico de Saúde António Carlos Aurélio não tem dúvidas de que o sal produzido no bairro do Cassai atenta contra a saúde pública, por ser um lugar que não reúne condições higieno-sanitárias sãs, qualificando-o de “extremamente péssimo”, facto que, no seu ponto de vista, desfavorece a promoção de boa saúde humana.

Problemas com a carência de iodo “Tal como acontece com todas as salinas, o sal tem que ser iodizado”, disse, para quem o bócio é a doença decorrente do consumo de sal não iodizado. O iodo, sublinha, é uma substância bastante importante no organismo humano.

As declarações do técnico de saúde motivou a equipa do jornal OPAÍS a consultar as autoridades sanitárias para obter registos de casos de má nutrição em consequência do consumo daquele sal. No centro de nutrição, instituição afecta ao Hospital Geral de Benguela, recebemos garantias de que não havia nenhum caso que apontasse para aquela direcção.

Há dois anos que as autoridades deram por finda a exploração de sal naquela área, transferindo-a para a conhecida “Cidade do Sal” na comuna do Chamume, município da Baia-Farta. De lá para cá, tanto o Governo local quanto Ministério das Pescas e do Mar têm desincentivado a prática de exploração naquele sítio.

Totas Garrido, ligado à Associação dos Produtores de Sal, chama a atenção para nunca se perder de vista a história recente da cidade dos flamingos. Totas Garrido reprova a prática da exploração naquele local, por reconhecer que as condições de salubridade já não a permitem, “não há drenagem das águas, as águas são reaproveitadas e, a nível da produção de sal, isso torna-se perigoso, porque os componentes, o cloreto de sódio pelo essencial, não são expelidos”, justifica.

Por essa razão defende a necessidade que se deixe uma porção de terra no Cassai para posteridade, a fim de que se saiba que o Lobito foi uma potência neste domínio. Por outro lado, apela à Administração local, à Polícia e a outros órgãos afins que encerrem o mais rapidamente possível aquela zona e que se direccione um aproveitamento para aquela zona, sem se esquecer jamais que durante 50 anos o Lobito produziu sal de boa qualidade.

“E que se mantenha uma porção de terreno para então fazerse uma salina de experiências para que possamos preservar a imagem do Lobito como produtora de sal e mostrarmos às futuras gerações como é que se faz o sal”, sustenta, ligado à actividade do sal há anos.

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