Vaal Neto e a vida nos maquis de Angola

POR: João Papelo

Com a sua fuga para a República Democrática do Congo, em 1963, Vaal Neto retoma a sua actividade literária. Várias canções revolucionárias cantadas no maquis do Norte de Angola, foram compostas por ele. O livro Estigmas Sagrados de Hendrick Vaal Neto, em prosa e poesia, publicado em 2003 com a chancela da Fundação Eshiivo, é uma proposta a revisitar a história de Angola, traçando o retrato das lutas anticoloniais travadas em várias frentes de combate. São as recordações destes momentos, de guerra e aversão ao domínio colonial que o autor resolveu chamar de “estigmas”, expondo o horror da luta e da perseguição nas matas do Norte de Angola na década de 1960. É, pois, nessa linha de revisitação, um pouco introspectiva, que Vaal Neto escreve o seu livro de memórias, também em homenagem aos jovens angolanos estudantes que, na época, abandonaram as suas zonas de conforto para, voluntariamente, se juntarem aos combatentes da luta de libertação Nacional nos maquis de Angola. A escapatória dos tentáculos da polícia política colonial, em 1962, na fuga de Luanda para Caxito, com um grupo de amigos, serviu-lhe para fugir à prisão, que lhe parecia iminente, e, depois, para juntar- se ao movimento de libertação. Nessa época efervescente da nossa história, várias centenas de jovens estudantes sacrificaram a formação pela defesa da pátria. Outros ainda enfrentaram o degredo por se posicionarem aquém dos ideais de independência. Porém, mesmo na diáspora, esses combatentes batiam-se pela causa que acreditavam resolutamente. Com a sua fuga para a República Democrática do Congo, em 1963, Vaal Neto retoma a sua actividade literária. Várias canções revolucionárias cantadas no maquis do Norte de Angola, foram compostas por ele. Os caminhos do Norte de Angola eram na época, maioritariamente, trilhos da UPA, posteriormente transformada em FNLA. Foi nas vivências no seio da UPA/FNLA, no inverno da guerra e da clandestinidade que o autor escrevia várias peças de interesse literário. Os episódios relatados no livro Estigmas Sagrados, escritos de forma virtuosa, expõem a face mais literária de um homem conhecido e entendido como político, nos dias de hoje. A narração desses tempos conturbados e decisivos para o futuro de Angola é pretexto para nos apresentar um universo de situações que não se esgotam através de uma única leitura. A poesia e a prosa deste livro são mais abertas e menos fechadas, mais estilísticas e menos enfadonhas, mais afirmativas e menos panfletárias. Senão, vejamos: Deixem-me cantar Angola / a minha pátria querida / Que me sorve a alma. Deixem-me / cantar o negro / o ébano da minha raça / o templo que Deus criou / para esconder a pureza. Deixem-me / cantar os brancos / os mulatos / e os cafusos / fruto da simbiose / das raças / que deram / ao povo a beleza / dum jardim / maravilhoso. A memória desse tempo escreve-se com brio na prosa de Vaal Neto. Se na narrativa se condensam os episódios da guerrilha, da fuga e da matança, é na poesia que o leitor encontra o refrigério de uma escrita fértil de simbolismos, alegorias e metáforas, desenhando-nos um cenário de ocorrência plástico. Este processo de recriação da escrita em Estigmas Sagrados não é nada casual, uma vez que o autor, poeta desde os 11 anos de idade, revela estes toques pitorescos no seu livro de estreia, Vagueando (1999). Com seis obras publicadas actualmente, Vaal Neto é, sem margem de dúvidas, um dos escritores mais virtuosos que Angola tem.

error: Content is protected !!