Escritor congolês defende maior intercâmbio entre as associações culturais africanas

Com vista a uma maior aproximação da recolha e resgate de memórias de matriz africana, o escritor congolês defende uma maior aproximação entre as associações de escritores africanos

Kama Kamanda falava esta Segunda- feira, 17, numa tertúlia sobre literatura infantil, que juntou crianças do Lar Kuzola, do Centro Polivalente Nzoji, escritoras infantis, e demais interessados, na sede da União dos Escritores Angolanos (UEA), promotora da iniciativa. O escritor congolês, que regressa esta tarde à sede dos escritores nacionais para animar a tradicional “Maka à Quarta-feira”, lamentou o facto de o muito que se tem da história de África, não ser contada por africanos e que muitos até a desconhecem. Entretanto, apelou para uma maior aproximação entre os produtores de escritos de modo a dar a conhecer, sobretudo às crianças, pois é a partir da base, que começam a ser solidificados os conhecimentos e as crianças buscam modelos a partir desta fase.

A história da Rainha Njinga Mbande, uma guerreira angolana, que lutou contra a segregação colonial bem como de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, que com a sua liderança alcançou-se a independência, devem continuar a ser devidamente estudados. “Um dos problemas em África é o do impedimento do acesso à intelectualidade, de modos a que o conhecimento não seja passado de geração em geração. Daí a grande responsabilidade de as associações aproximarem-se e contar a verdadeira história de África”, apontou.

Circulação do livro

Kama Kamanda propôs, por outro lado, como desafio â União dos Escritores Angolanos, que estabeleça parcerias com outras instituições ao nível do continente nos mais variados sectores, para que possa haver circulação do livro e que as pessoas tenham possibilidade de ler e conhecer os escritores africanos. Ele, por exemplo, até à sua chegada a Angola era visivelmente desconhecido pela grande maioria dos leitores, mas tem estado a viajar por outros continentes onde é chamado a abordar sobre literatura africana e infantil, o que não acontece no seu próprio continente, salvo por iniciativas pessoais, o que de todo, lamenta.

União dos Escritores Angolanos

Por seu turno, o secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Carmo Neto, no mesmo diapasão, lamentou o facto de haver pouco conhecimento sobre o que se produz em países vizinhos como Congo, Zâmbia, Namíbia, África do Sul e dos países da África do Norte “A divulgação dos escritores africanos acontece com vulgaridade no Ocidente e com rareza no próprio continente. O egípcio Naguib Mahfouz, Prémio Nobel de Literatura (em 1988), está presente em colecções de bolso no Ocidente”, exemplificou o contista. Carmo Neto disse ainda, que Sundjta ou A Epopeia Mandinga, a incontornável narrativa do senegalês Djibril Tamsir Niane, só chegou às livrarias da África lusófona por intermédio da tradução brasileira, sem ter havido antes uma iniciativa africana. Todavia, garantiu que iniciativas similares deverão continuar a ser feitas, tanto dentro como fora de Angola, pois reconhece a importância que os escritores africanos desempenham, sendo a literatura infantil, a base para que tenham bons leitores e concomitantemente bons escritores. “Quem lê bem, escreve melhor ainda”, rematou.

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