Yuri Quixina: “Colocar o FMI como salvador é um suicídio brutal”

O professor de Macro-economia, Yuri Quixina, defende que o combate à corrupção deve privilegiar a promoção da ética e da moral nas famílias e colocar a lei em segundo plano. O especialista mantém-se céptico quanto ao acordo com o FMI.

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

A Bolsa da Dívida e Valores de Angola começou a emitir, há uma semana, obrigações corporativas do Standard Bank. O que é que isso representa para a economia?

A Bolsa é um local onde se transacionam papéis. Quem emite títulos significa que precisa de dinheiro para expandir o seu negócio. Neste caso, o Standard Bank Angola quer expandir a suas actividades bancárias e precisava de empréstimo, recorreu ao mercado de capitais. Essa emissão é histórica, é a primeira instituição a emitir títulos, porque a nossa bolsa era apenas do Estado.

Como considera essa acção do Standard Bank?

É um acto estratégico que entra para a história. Quem escrever sobre mercados de capitais de Angola daqui a 20 anos, terá de mencionar o Standard Bank como a primeira instituição a emitir ou financiar-se através da bolsa de valores.

Que valor acrescenta à economia?

Quem emite títulos quer dinheiro. Neste momento, o banco quer dinheiro para conceder crédito à economia. Se efectivamente financiar- se em 9,5 mil milhões previstos, o Standard Bank criará maior capacidade na concessão de crédito às empresas e às famílias, para desenvolver a actividade económica e ajudar na recuperação da economia nacional.

O OGE/2019 está aprovado, o preço médio do barril mantém-se em USD 68, apesar do voto da oposição. Gostou?

Achei interessante pelos debates acalorados, mas o mais importante é que o documento passou. O Governo tem o documento para desenvolver as suas actividades. O preço médio do barril do petróleo em 68 dólares irá influenciar uma estrondosa revisão, ainda que parcial, tendo em conta o acordo com o FMI. Sobre a fiscalização da execução do OGE pelos deputados, creio que o Tribunal Constitucional já se pronunciou e disse que depende da revisão constitucional. Se a oposição quiser fiscalizar as acções do Executivo tem de debater a revisão da Constituição.

A UNITA defende também que a luta efectiva contra a corrupção depende da revisão constitucional. Concorda?

Continuo a defender que a corrupção está muito ligada à ética e à moral. Podemos combater a corrupção através das leis, mas a causa, muitas vezes, é a ética. Penso que as famílias devem aprofundar esse aspecto. Fazer prestação de contas quando mandamos comprar alguma coisa. É necessário educar as gerações, estamos a colocar toda a solução nas leis, as leis derivam das sociedades. Se fores ao Japão e deixares uma pasta no metro, quando regressares vais encontrá-la. Não foram as leis que moldaram as pessoas assim, mas a educação, a cultura, a ética e a moral.

Olhando para o texto final do OGE, que economia esperamos ter em 2019?

Vamos ter uma economia incerta, dependendo muito do perfil das economias internacionais. Continuamos a fazer modelos de reformas dependente dos outros, com perspectivas de queda.

Aumenta a convicção de que o acordo com o FMI garante credibilidade junto da comunidade externa, você já disse que era arriscado pensar assim. Mantém a ideia?

Até em Portugal ouvi pessoas a defender isso, mas estamos a esquecer que o FMI é hospital. O FMI não pode ser visto como salvador. Portugal já recebeu três intervenções, melhoraram a credibilidade? Colocar o FMI como salvador é um suicídio brutal. Somos nós que temos de mudar de comportamento, ter juízo e parar com políticas do keynesianismo da procura, de aumentar salários sem produção.

A Moody’s também acredita na mesma visão!?

O FMI e a Moody’s reflectem o comportamento dos agentes internamente. A solução do país não está no petróleo nem nos diamantes, está nas pessoas.

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