“Não há milagres, Jesus Cristo já morreu há muito tempo”

Terminou a entrevista colectiva de João Lourenço, a segunda a jornalistas angolanos e estrangeiros

Com início às dez horas, nos jardins do Palácio Presidencial da Cidade Alta, João Lourenço respondeu às perguntas de vinte órgãos de comunicação social, sobre a política nacional, sobre economia, e sobre a situação social do país. Temas como o repatriamento de capitais exportados ilegalmente, a mobilidade nas cidades, os serviços de saúde, precários e a controvérsia em torno dos conceitos “vazio” ou “zerado”, como disse que encontrou os cofres públicos foram abordados.

Foi um João Lourenço descontraído e conciso nas respostas, em alguns momentos gracejando, que enfrentou a bateria de perguntas. Sobre a situação social dos angolanos, ligando ao seu curto tempo de mandato, por agora, disse que esperar por ,aos seria esperar por milagres.

Em Cuba no primeiro semestre de 2019

À pergunta da Prensa Latina, sobre as razões de não ter ido àquele continente até agora, Lourenço diz que há quem seja da opinião de que “passeei de mais, como se tivesse ido passeado, estive a trabalhar”. acrescentou que terá tempo para visitar a América Latina. para já, está acordada uma visita a Cuba no primeiro semestre de 2019. faltando apenas acertos diplomáticos.

Sobre a República democrática do Congo, João Lourenço diz não ter opinião. é assunto interno, que tem a ver com o Governo, partidos políticos, sociedade civil, etc.., mas acredito que terá havido razões válidas para o adiamento das eleições por uma semana. “O importante é que tenham lugar este ano, houve esta preocupação, de as eleições serem ainda este ano”. E acrescentou ser normal a agitação no Congo em período eleitoral, “desde que não haja mortos e feridos”.

 

Sem ricos não há riqueza

À pergunta da Rádio LAC, João Lourenço disse que não está a combater os ricos, porque estes criam empresas para empregar os mais pobres. Sobre as privatizações, disse que era melhor ir para casa se fosse entregar as empresas a um grupo específico de pessoas. “A privatização vai ser feita por via de concursos públicos e pela bolsa ou mercado de capitais, não será para entregar a um grupo de privilegiados”.

 

Ninguém é preso por ler livros

Tivemos muitos anos o dossier Rádio Ecclésia, está ultrapassado, mas sobre o islamismo, se por um lado a Constituição diz que somos um Estado laico, por outro lado há aspectos culturais a ponderar. a população angolana é maioritariamente cristã, há que ter em conta. O islamismo não é reconhecido, mas não é impedido, tal como as religiões que até põem em causa a ordem pública, como as que fecham ruas para rezar. O islão está no grupo de várias religiões que ainda não estão reconhecidas, são muitas”.

“Não é verdade que alguém, tenha sido detido só por ler o al corão, pode ter sido outra coisa, não por este motivo”. Há dias recebemos lideres da sociedade civil e foi-nos colocado este caso, prometi ver o que aconteceu, o Ministério da Justiça está a trabalhar, aguardemos pelo desfecho”. Lourenço referia-se a um grupo de muçulmanos condenados pelo Tribunal Provincial de Luanda. Resposta à France Press.

 

Falta vontade na UNITA para exumar Savimbi

“Nós agora não temos pressa”, diz a UNITA. Uma vez feita a exumação, Governo e Família farão o exame de ADN, isto está acordado pelo Governo e pela família, diz João Lourenço. “A UNITA pediu pressa no início, recebi o líder da UNITA, Isaías Samakuva, colocou esta questão, activamos os mecanismos, mas a UNITA está agora a pedir calma”.

“Muitas famílias angolanas gostariam de ter esta oportunidade de encontrar os seus entes mortos no tempo da guerra, quem a tem está a desperdiçar”. Resposta ao Jornal de Angola

 

“Acordo com FMI é vantajoso”

“Ninguém mais dá estas vantagens, com  o FMI a taxa de empréstimo dos 3.4 mil milhões de dólares é de 3.6%, a pagar em quatro anos, com início dos reembolsos apenas de pois do término do programa, que é de três anos”

 

“Temos de nos dar por satisfeitos, se não quisermos ser ingratos”

João Lourenço diz que a Agricultura tinha uma parcela vergonhosa no OGE, irrisória, passando agora, em 2019, para 1.6%.

A diferença cambial em relação ao Dólar era, em 2016, de 150%, sendo agora de 23%

A inflação era em 2016 de 41.9%, em 2017 foi de 23.7 e este ano é de 18%. Para 2019 prevê 15%.

o crescimento económico tem sido negativo desde 2016 e no próximo ano será de 2.8, Diz João Lourenço. Já sobre o déficit orçamental, foi de 3.8 em 2016, de 3.6 em 2017 e está agora em 0.4. sendo que em 2019 será de 0.5%.

 

Estado ainda não amortizou investimento nas centralidades

João Lourenço acaba de dizer que se as autoridades expulsarem as pessoas que não pagam as rendas nas centralidades os jornalistas serão os primeiros a queixar-se e acusar o Estado de violação de direitos humanos, quando as pessoas que ocuparam, ou acederam às casas nas centralidades não moravam ao relento. A pergunta, da revista EXAME, era sobre o que o Estado fará sobre as pessoas que há anos não pagam as rendas ao Estado e às que ocuparam ilegalmente casas. Aqui, referiu-se também às operações Resgate e Transparência, que visam moralizar a sociedade.

“Nós não temos medo”

Respondendo ao jornal Folha 8, João Lourenço disse que o combate à corrupção deve ser inclusivo e convida a sociedade a juntar-se a ele. “Se alguma força política se sente excluída desta luta só pode ser por o programa ter sido iniciado pelo MPLA. Mais tarde o João Lourenço diria, ao jornal Expresso, de Portugal, que como equipa, “nós não temos medo” referindo-se ao combate à corrupção.

 

“Não há milagres, Jesus Cristo já morreu há muito tempo”

João Lourenço respondia a uma questão da Rádio Despertar sobre a situação do país.

Disse também que A UNITA tem estado a pressionar para a inclusão de desmobilizados na Caixa Social das Forças Armadas Angolanas, direito que cabe apenas aos “aposentados”.

 

Transportes públicos dependem de investimento privado

Antes, João Lourenço, respondendo a uma colocada por OPAÍS, reconheceu não haver transportes públicos funcionais em Angola, mas acrescentou que existem propostas de investidores nesta área. Mencionou o projecto de monocarril para Luanda.

 

Repatriamento de capitais “pode levar vinte anos”

Sobre o repatriamento voluntário de capitais, disse que terminou o período de graça de seis meses e que o repatriamento coercivo poderá levar tempo, provavelmente até ao mandato do seu sucessor. “pode levar vinte anos”, disse, reforçando que não esperava que tudo se fizesse, neste aspecto, em seis meses, tempo de graça dado pelo Estado. “Quem não aproveita este período de graça está disposto a enfrentar os prejuízos e os tribunais”.

 

“Vazio não significa zerado”

Sobre a questão dos “cofres vazios” do Estado, colocada pela Rádio Mais, João Lourenço distingue a Conta Única do Tesouro das Reservas Internacionais Líquidas. Na conta do tesouro “havia dinheiro para pagar apenas cinco meses de salários para a função pública”. Na linguagem política, “vazios não quer dizer “zerados””.

Ainda à Rádio Mais, do grupo Media Nova, disse, sobre a sua relação com José Eduardo dos Santos, o antigo Presidente: “Considero-as normais, não há razão para não ser assim, para não ter. Não tenho razões para não ter boas relações pessoais com o ex—Presidente da República”.

 

Manuel Vicente não é membro do Executivo

João Lourenço disse que não protege Manuel Vicente, mas que exonerou Manuel Panzo, antigo assessor económico do Presidente da República, acusado de crimes de corrupção por ser membro do seu Executivo.

Ainda sobre Manuel Vicente, disse não ser da competência do Presidente solicitar o levantamento do deputado Manuel Vicente para o processo remetido por Portugal para ser continuado em Angola.