Augusto Baptista : “O meu irmão olhou-me e começou a chorar”

O treinador da Selecção nacional de futebol para amputados, Augusto Baptista (cheto), campeão do mundo, no méxico, em novembro passado, falou em entrevista a opAíS do apoio incondicional do comité paralímpico Angolano (cpA) ao desporto adaptado, bem como dos passos que algumas províncias vão dando para manter vivo o futebol com muletas e outras modalidades paralímpicas. cheto, 37 anos, formado em geografia, assegurou que entrou neste mundo por influência do irmão, “cadeirante”, mas beneficiou de vários cursos dentro e fora do país nesta área

Quando entrou para o mundo do desporto adaptado em 2003, por influência do seu irmão que praticava basquetebol em cadeiras de rodas, foi por curiosidade?

Tenho um irmão “cadeirante”, ele praticava basquetebol em cadeiras de rodas e eu era obrigado a levá-lo todos os dias ao campo de treinos e depois o fiz como voluntário. O projecto era da organização não-governamental (ONG) VVF Sport for Life. Passados seis meses, procuravam por um activista social e alguém disse: “Se o jovem (eu) está aqui há meses a trabalhar como voluntário e não ajuda somente o seu irmão, mas toda a equipa, é preferível dar-lhe a oportunidade do primeiro emprego”. Foi assim que comecei a trabalhar e criamos uma equipa de futebol com muletas e expandimos para as lundas Norte e Sul, Huambo, Malanje e daí foram aparecendo outras províncias como Luanda, Uíge e Cuando- Cubango.

O seu irmão, Manuel dos Santos, ajudou-o a que você chegasse ao Mundial de futebol para amputados no México (em Novembro), a um patamar tão inesperado?

Depois do Mundial do México, em que nos sagramos campeões em Novembro passado, quando cheguei a casa, no Moxico, o meu irmão olhou para mim e começou a lagrimar. Nos abraçamos e reconhecemos que na “brincadeira” eu tinha abraçado uma modalidade desportiva com humildade e dedicação, que me levou longe, a agir com responsabilidade em nome do nosso país numa competição internacional.

Quando é que surge o Comité Paralímpico Angolano (CPA) nesse processo?

O CPA é o órgão vocacionado para o desporto de pessoas com deficiência, logo, tínhamos que estar fi liados ao Comité. Assim, o CPA aparece com esta modalidade, futebol para amputados, isso em 2004. No ano seguinte realizou-se o primeiro Campeonato Nacional, na província do Moxico, em que participaram quatro equipas do Moxico, uma da Lunda-Sul e uma da Lunda-Norte. As quatro equipas do Moxico ocuparam os primeiros quatro lugares.

Como é que conseguiam patrocínios para continuarem “vivos” nas competições?

Perdemos o patrocínio em 2006, porque a ONG fechou. Os americanos partiram e ficamos de mãos atadas. Nesse período, o CPA interveio e não deixou o futebol para amputados morrer na província do Moxico, bem como nas outras províncias, e mostrou-se disponível para apoiar as equipas na Taça Lwini e noutros campeonatos. Até aqui o CPA nunca nos largou.

Trabalhar todos os dias com portadores de deficiência é um acto de amor?

Já está no sangue. Primeiro temos que ter amor pelo próximo, vontade e gosto, porque muitos treinadores pensam que ganhamos fundos e mundos. Trabalhamos por amor à camisola e pelo gosto que temos por esta modalidade, por isso, muitos, mesmo tendo formação, penduram o apito.

O desporto adaptado é mais uma diversão ou valoriza mais os portadores de deficiência?

Desde a criação do CPA, o desporto adaptado surgiu para integrar os portadores de deficiência na sociedade, porque, de um modo geral, o desporto é vida e psicologicamente é uma terapia.

Qual é o dia-a-dia dos atletas?

Muitos são funcionários públicos, estudantes e têm sempre capacidade de juntar o útil ao agradável, ou seja, o desporto, a escola e a formação.

Tem alguns trabalhadores no grupo dos campeões do mundo?

No Huambo, no Moxico e em Luanda temos vários que trabalham e estudam.

A formação nesta modalidade tem condições para andar?

No Moxico temos o projecto criança e é tutelado pelo CPA. Trabalhamos com atletas dos dez aos 16 anos para no futuro servirem as equipas seniores no futebol, atletismo e no goal ball. Mesmo com poucos apoios, trabalhamos a meio-gás, mas acredito que o futuro nos reserva dias melhores. Neste momento, a província do Huambo é a líder no atletismo, bem como no futebol para amputados. Este ano o futebol para amputados do Huambo conquistou a Taça de Angola, a Supertaça e o Campeonato Nacional. Enquanto treinador, fiz várias formações dentro e fora de Angola sobre desporto adaptado.

E como avalia as infra-estruturas para o desporto adaptado?

Eu sou da província do Moxico, mas, de um modo geral, as infraestruturas são precárias. No Moxico temos apenas um campo, o do Bravos do Maquis, no entanto, para treinar somos obrigados a procurar campos pelados na periferia da cidade do Luena. Neste aspecto, estamos mal servidos.

Os atletas, para irem aos treinos andam quilómetros a pé. Tem tido algumas dificuldades no transporte e para os recolher?

O Hélder Gomes, meu colega na província do Huambo, é a pessoa que podia responder a essa pergunta. Mas, no Moxico as difi culdades são semelhantes. No Huambo, que eu saiba, os atletas vivem a noventa quilómetros, uns são do Bié e do Namibe e o meu colega para lhes juntá-los tem tido algumas dificuldades.

Quantos atletas tem a província do Moxico?

Começamos com 84 atletas, mas neste momento ficamos com 16 jogadores de futebol para amputados, já nem são duas equipas. Reduzimos o grupo por várias razões: cresceram, são fundadores desta modalidade no país e outros foram desistindo por razões evidentes, outros por falta de incentivo dos membros do Governo da província. Ganhávamos os campeonatos e não se via nenhum membro só para dizer obrigado.

Como foi a preparação para o Mundial do México 2018?

Começamos a preparação em Maio e tivemos quatro etapas. Reconheço que tivemos muitas dificuldades, mas os nossos objectivos estavam bem definidos. Era chegar mais longe do que em 2014. Agradeço à direcção do CPA, nunca nos largou. Angola, por ser vice-campeã seria o alvo a abater pelas selecções fortes, uma vez que estas fazem do desporto adaptado seu emprego, por isso nos preparamos bem e conseguimos ganhar o Mundial.

Sabia que tinha um nome a defender na prova?

Tínhamos a certeza de que venceríamos, porque em 2014 conseguimos o segundo lugar e chegar à fi nal era o objectivo. Conseguimos com trabalho e humildade. Quando nos apuramos para a final, ao bater o Brasil, os atletas disseram à equipa técnica que a nossa missão tinha acabado e que no dia da final seria dia dos jogadores.

Que análise faz da Turquia?

A Turquia é uma grande selecção. Disputou a final de igual para igual com Angola, por isso decidimos a conquista do Mundial aos penaltis. Não foi fácil, mas estávamos fisicamente bem preparados.

Angola sentiu-se em casa no México?

Angola sentiu-se em casa porque foi tratada pelos mexicanos e por outras selecções com muito respeito. O trabalho vai aumentar, porque hoje Angola é encarada de outra forma por sermos campeões do mundo. O objectivo é reformar sempre a selecção e trabalhar para vencer o Campeonato Africano em 2019, portanto, devo dizer que a eleição do Elias como o melhor jogador do mundo justifica o trabalho que fizemos antes de chegarmos ao México.

Com a conquista do Mundial de futebol para amputados por parte de Angola, no México em Novembro, sentem que vão ter mais apoios?

Este é o nosso desejo. Sempre “choramos”. Em várias entrevistas já falamos dos apoios que precisamos, praticamente deixam tudo às mãos do Comité Paralímpico Angolano (CPA) e este tem que fazer várias manobras para que as equipas das outras províncias participem nos campeonatos nacionais, mas sabemos que esta luta não é só do CPA, mas também dos governos provinciais.

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