O jornalista, a ex-prostituta e um café

Ricardo J. rodrigues, jornalista do Diário de notícias, surpreendeu a sociedade portuguesa ao narrar a história de uma angolana, ex-prostituta, que, há sete anos, todos os natais oferece um almoço ao bairro que lhe salvou a vida. Revela, em exclusivo a opAíS, o que não foi contado na reportagem

Conheceram-se num café, localizado no Largo do Intendente, em Lisboa. Luísa, na condição de funcionária, e o jornalista como um dos clientes que há anos frequenta o estabelecimento. Como morador do Intendente há cinco anos, o gesto de Luísa, de servir refeições a centenas de pessoas em Dezembro não era novidade para si. No entanto, ao conhecer as razões que a levam a praticar tal acção, Ricardo J. Rodrigues mudou completamente de opinião. “Quando conheci a história dela achei que merecia ser contada. Seria uma história bonita de se contar, e relevante”, disse a OPAÍS. Até antes de conseguir este emprego, esta cidadã angolana, de 58 anos de idade, dos quais mais de 20 como prostituta, tinha nesta actividade a principal fonte de sustento para o seu filho.

A possibilidade de ganhar a vida vendendo o corpo no Intendente, porém, parou abruptamente quando um cancro lhe roubou uma mama. Naquele instante, o seu mundo entrou em queda livre e os vizinhos seguraram-na. “Ela não sabe nada dos pais. Saiu de Luanda [para Lisboa] aos sete anos de idade e não sabe nada da sua família”. Luísa já não consegue precisar em que musseque de Luanda nasceu em 1960, na época em que “Angola era a Joia da Coroa Portuguesa”. De acordo com Ricardo J. Rodrigues, Luísa teve outras relações amorosas, no entanto, descobriu, da pior maneira, que não seriam viáveis. “Ela se apercebeu que os homens eram a sua fragilidade. Ou lhe roubavam o dinheiro, ou lhe davam pancada, por causa de ciúmes”, frisou. No entanto, como precisava de garantir o sustento do seu único filho, feito muito antes de decidir vender o corpo, optou por continuar sozinha a lutar para que ele tivesse um futuro melhor.

A história de encantar

Ricardo J. Rodrigues narra que pouco passava da uma da tarde e uma multidão de gente começava a organizar-se em fila no Largo do Intendente, em Lisboa. “Encaminham- se todos para uma mesa comprida sobre a qual repousam quatro panelões fumegantes – três de feijoada, um de arroz branco”. E atrás deles está uma mulher baixinha, de pele negra, segurando uma concha em cada mão. “Estamos prontos? Vamos lá”. Este ano vieram mais de 400 pessoas ao almoço de Luísa. É o sétimo Natal consecutivo que a mulher cozinha uma feijoada para os vizinhos do bairro – e no Domingo passado parece ter vindo mais gente do que nunca. Algumas pessoas trouxeram bebidas, outras sobremesas.

“É como se os convidasse para irem lá a casa. Só que, como não cabem todos, faz-se a festa aqui na rua”. O almoço que Luísa prepara não é só uma refeição, é também a sua carta de gratidão ao bairro que lhe salvou a vida. “Foram estas pessoas que me deram a mão quando eu achei que já não tinha soluções. Se não fossem eles, ou estava na rua ou tinha morrido”. Não gosta de funfuns nem gaitinhas, conta a sua história sem paninhos quentes. “Nunca digo que fui prostituta ou trabalhadora sexual. Fui puta mesmo. É a minha vida, não tenho vergonha dela. Fiz o que precisava de fazer para alimentar o meu filho”. Luísa não foi sempre Luísa, até aos 30 anos chamava-se Luzia Martins. Aos sete anos os pais meteram- na no barco para Lisboa – vinha servir para casa dos padrinhos. “Eu gostava muito de cozinhar e não gostava nada da escola. Então nunca estudei, mas comecei a tratar da comida. E estava tudo bem”.

Gravida aos 30 anos

Aos 30 anos engravidou. “O meu padrinho expulsou-me de casa quando o bebé tinha seis meses. E não tinha por onde me virar”. Nunca esquecerá a primeira vez que alugou o corpo: “Fechei os olhos com muita força e só esperava que ele não me batesse ou fugisse sem pagar. Acontecia muito”. Esteve mais de duas décadas na rua. De dia atacava no Intendente, à noite no Cais do Sodré. “Tinha um quarto na rua do Benformoso mas esse era só para mim e para o meu fi lho. Se arranjasse homem, levava- o a uma pensão. Pagava-se à hora, não era caro”. O álcool ajudava a anestesiar os dramas, em drogas nunca se meteu. “Quando és puta nunca pensas no futuro, é um dia de cada vez.

Nunca me perguntei o que faria quando o corpo me falhasse”. Em 2012 falhou mesmo: foi-lhe diagnosticado cancro da mama e teve de retirar uma mama. A carreira chegou ao fim abruptamente, não estava nos planos. E agora, o que é que Luísa ia fazer? “O Intendente estava a mudar muito”, conta Luísa. Fizeram-se obras de requalificação, as ruas onde ninguém entrava viam-se agora de cara lavada. António Costa, então presidente da câmara de Lisboa, acabara de mudar o seu gabinete para o Largo. Depois abriu um café moderno, a seguir outro. Várias associações instalavam-se com projectos sociais que abriam possibilidades a quem nunca as tinha tido. Um dia, queixou-se a Marta da falta que um almoço de Natal da comunidade fazia.

“Antigamente, a Comunidade Vida e Paz oferecia aqui uma refeição e a Luísa lamentava que a modernização do bairro tivesse posto fim a isso”, conta Marta Silva, directora do Largo Residências, uma cooperativa de projectos artísticos e sociais que tentava estabelecer a ponte entre o novo mundo que chegava ao Intendente e a comunidade que já estava estabelecida. A ideia inicial era fazerem um almoço comunitário no bairro, cada um trazia o que podia e haviam de juntar-se todos à mesa. Mas então Luísa disse que sabia cozinhar – e isso muda a história toda. Em vez de trazerem comida feita, houve vizinhos que ofereceram feijão, outros carne, alguém trouxe umas couves. “Vou fazer uma feijoada”, anunciou Luísa. Pouco tempo antes tinha aberto a Cozinha Popular da Mouraria, um projecto comunitário de gastronomia liderado pela fotógrafa Adriana Freire. Fogão e tachos já havia – e ainda hoje é ali que Luísa cozinha o almoço de Natal para o seu bairro. Mas faltavam mesas e cadeiras para sentar tanta gente. Aos bares onde antigamente arranjava homens, Luísa foi pedir mesas e cadeiras. Marta divulgou o almoço pela vizinhança, que trouxessem as bebidas e os doces. E então, num Domingo de Dezembro de 2012, Luísa começou a servir o almoço que trocaria as voltas à sua vida.

O contrato de trabalho

Nos meses seguintes abriria portas o Café do Largo, propriedade do Largo Residências, e Marta disse-lhe que a associação precisava de não só de uma cozinheira, como também de alguém que tomasse conta do balcão. Ao mesmo tempo, começou a frequentar aulas de português nas Irmãs Oblatas, uma obra religiosa que apoia mulheres nesta zona da cidade. “Já tinha mais de 50 anos quando aprendi a ler e a escrever”, conta Luísa, que tem agora 58, e isso é alegria quase tão grande como o nascimento dos netos. “E passei a ganhar um ordenado, imagina eu, com um ordenado.” Com o contrato de trabalho, pôde finalmente legalizar-se. Saiu do quarto na rua do Benformoso, alugou casa em Almada, onde vive com o filho e os netos. “Mas venho para aqui todos os dias, trabalho no café e depois fico a conversar com as raparigas que ainda andam na vida. Dou-lhes conselhos”.

Às que querem sair da rua, Luísa apresenta-as às instituições. Às que querem ficar recorda técnicas para não correr riscos nem ficar dependente de qualquer homem. No café do largo, há uma caixa para gorjetas – e é com esse dinheiro que Luísa monta o seu almoço de Natal. Com os anos, vários comerciantes começaram a contribuir com dinheiro ou comida, a Junta de Freguesia providencia mesas, vieram mais mãos ajudá-la na confecção do repasto. Mas aquela refeição é toda dela. Há sete anos que devolve a generosidade com que os outros a trataram apurando o tempero. É que o chouriço tem de ir ao lume primeiro que tudo, as couves têm de entrar no tacho ao mesmo tempo que a carne e o feijão nem precisa de escaldar muito, há de cozinhar com o calor do caldo. Durante duas horas ficou ali a servir toda a gente, não largou a concha enquanto não estivesse toda a gente saciada. Depois, recebeu uma ovação dos vizinhos, 400 almas a aplaudirem- lhe a iniciativa. E ela ria-se, ria-se, ria-se. É um espectáculo bonito de se ver, a felicidade de Luísa.

 

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