RESEARCH Atlantico: feliz natal e um Próspero Preço do Petróleo

O ano de 2018 deverá encerrar com um preço do petróleo em queda, produção petrolífera aquém do nosso potencial, e com o sacrifício da quota de produção pelos países membros da organização dos países exportadores de petróleo (opep)

POR: Atlantico

O crescimento económico mundial para 2018 foi revisto em baixa pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório World Economic de Outlook, de 3,94% em Abril para 3,73% em Outubro, reflexo da performance da economia mundial abaixo das expectativas. Se analisarmos outros sectores, que não o petrolífero, será, também, um fi m de ano de ruptura nas relações bilaterais, como EUA e a China, e multilaterais, como o teste à estabilidade de algumas organizações vistas anteriormente como fortes e estáveis, como a União Europeia (saída do Reino Unido) ou a OPEP (saída do Catar). Em relação à Angola, exportador líquido de petróleo bruto, produto que representa mais de 90% das exportações do país.

O petróleo é, portanto, a maior fonte de receitas de moeda estrangeira. Angola se destaca não só pela particularidade das exportações, mas também das suas importações. As importações têm um peso relevante na economia, o país importa cerca de 80% do petróleo utilizado no consumo interno (ainda que refinado), e as importações de bens alimentares equiparam-se às importações de máquinas e outros meios-de- produção, factores que tornam as divisas em moeda estrangeira parte central da economia. O preço destas divisas e a facilidade de acesso às mesmas determinam, por si só, o nível de bem-estar social. Portanto, a elevada sensibilidade das reservas em DR moeda estrangeira ao preço do petróleo torna-nos vulneráveis a um único sector, o que adoece a nossa economia.

Esta doença é conhecida mundialmente como “Doença Holandesa”. A doença herdou o nome do país em que o fenómeno foi detectado pela primeira vez. Entretanto, a Holanda superou a doença, tal como outros países que a contraíram, o que demonstra que também o podemos fazer. A grande maioria dos países com elevado grau de concentração das suas exportações superou este obstáculo mediante um forte investimento em infra-estruturas e nos demais sectores produtivos, canalizando as receitas do principal produto de exportação e adoptando um regime cambial que beneficiasse os exportadores e penalizasse os importadores (subvalorizaram as suas moedas). No caso de Angola, o kwanza ajusta-se aos poucos, mas ainda vale mais do que deveria (mantém-se sobrevalorizado). O seu processo de equilíbrio ajudará na estratégia de atracção de investimento estrangeiro, deverá desincentivar as importações, tornar-nos mais competitivos, ou seja, muito benéfico a médio e longo prazo.

A curto prazo, os efeitos podem ser menos agradáveis, como encarecimento dos bens importados e inclusive da produção, porque parte relevante das matérias-primas são importadas. Em relação ao aumento do investimento em infra-estruturas e nos demais sectores, por agora, pouco se pode esperar, tanto o sector privado quanto o sector público têm, de momento, pouca capacidade de resposta. As poupanças privadas serviram para satisfazer as necessidades públicas de financiamento e o Estado ainda está a meio do processo de ajuste das suas despesas ao actual nível de receitas, esforços obstruídos pela volatilidade do preço do petróleo, que em algumas ocasiões desviou-se significativamente das expectativas do Governo, o que nos leva de volta ao ponto inicial: O Preço do Petróleo.

O preço transacciona perto de 55 USD/barril (Brent). Os países membros da OPEP juntaram-se à Rússia para uma segunda tentativa para melhorar os preços, a primeira gerou expectativas positivas de que o preço atingiria 100 USD/barril até ao final do ano, influenciou a expectativa do Governo para o OGE 2019, que colocou o preço em 68 USD/barril, e permitiu aos EUA aumentar a sua capacidade produtiva e retirar a quota de mercado à OPEP. Os acordos de corte da produção de petróleo têm um custo de oportunidade crescente, principalmente para os países membros de menor dimensão, que com menor poder de decisão com o fortalecer de relação dos gigantes energéticos Arábia Saudita e Rússia, passam a ter mais incentivos para abandonar a Organização e tirar proveito do sacrifício da mesma, aumentando a quota sem os limites do acordo e com o preço de venda melhorado.

Entretanto, salienta-se que o sucesso do acordo depende da estabilidade da OPEP. Se mais países seguirem o caminho do Catar, diluíra os incentivos dos países remanescentes para cumprir o acordo. Em relação ao nosso país, o preço do petróleo perderá relevância à medida que Angola materializar o processo de diversificação, mas, por enquanto, em 2019, o preço ditará as regras, determinará o processo de consolidação fiscal do Governo, o nosso poder de compra, o grau de investimento privado e público e até o nível de desemprego. É caso para desejar aos angolanos “um Feliz Natal e um próspero Preço do Petróleo”.

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