“O crescimento de Angola pode fi car abaixo de 1% em 2019”

Na última edição do programa economia real, o professor de macroeconomia Yuri Quixina apresenta a sua visão do desempenho económico de 2018 e acredita que 2019 será um ano desafi ante para o Governo, empresas e as famílias, porque o país continua refém do petróleo.

Mariano Quissola / Rádio Mais

O cenário macroeconómico do país é incerto, tal como as projecções de crescimento da economia global em 2019. As previsões para Angola rondam entre 2,2% e 2,%. O FMI entra em cena, o preço do petróleo está em queda e o Governo continua gordo.

Que país vamos ter em 2019, no seu entender?

O país que vamos ter, penso já ter sido apresentado pelo Presidente da República na última entrevista colectiva. É importante dizer que esta questão é muito complexa e leva-me a falar um pouco sobre a entrevista. Devo felicitar os jornalistas, que foram com o jogo estudado, na medida em que levaram pancada na primeira entrevista.

Nesta segunda entrevista ganharam, foram os vencedores, porque colocaram questões muito bem enquadradas e estruturadas. Lembra-me um jornalista da LAC que fez uma pergunta bem montada com alíneas e o Presidente confundiu que lhe tinha ajudado a responder. Não. O jornalista não o ajudou. Ele fez uma pergunta como a de um professor, com alíneas.

Foi extraordinário. Relativamente ao Presidente, penso que esperou que jornalistas tivessem o mesmo desempenhou da primeira entrevista. Pareceu-me que preparou pouco a entrevista, divagou muito nalgumas questões, devia ter aproveitado para fazer política e a algumas questões respondeu de forma arrogante, comparando com a primeira.

Quer citar as questões em que sentiu a ‘arrogância’ do Presidente?

Acho que na primeira entrevista foi mais humilde, se calhar porque não tinha ainda o poder consolidado. A questão sobre a Saúde e Educação penso que o Presidente viu-as na perspectiva de ataque pessoal. Penso que a entrevista seria bem conseguida pelo Presidente da República se estivesse com a mesma postura da primeira entrevista. Sobre o repatriamento de capitais foi um chek-mate.

O Presidente quase anunciou que o compromisso que tem com o povo, no seu mandato, vai falhar, quando diz que o repatriamento coercivo vai levar 10 ou 20 anos. Nesse período, o Presidente da República já não vai chamar-se João Lourenço e um outro candidato pode vir com outro programa de governo e esse assunto deixar de ser parte da sua estratégia,

E na eventualidade de vir a ser também do MPLA?

Mas não será a mesma pessoa…

Mas o programa de governação é do mesmo partido…

O programa de governação é sempre do candidato não é de partido nenhum, o partido ajuda a fazer o programa. Quem diz que o programa é do partido então o poder não está no Presidente, está no partido. O acordo com o FMI inicia em 2019… Penso que o Fundo Monetário Internacional, no primeiro encontro fez política. Christine Lagarde disse que por força do acordo não se vai reduzir os salários, não se vai reduzir os subsídios aos combustíveis, os ministérios não serão reduzidos. Isso é política, porque tecnicamente não faz sentido.

Como argumenta essa afirmação?

Reforma estrutural pressupõe redução de custos e um dos maiores custos da economia está ligado ao Estado, o Estado é gordo e ainda vão aumentar os salários no próximo ano. Num processo de reforma e consolidação orçamental não se aumentam os salários. É uma contradição com o anúncio da austeridade. A Lagarde fez política no primeiro dia e no segundo dia tentou falar como técnica, ao condicionar a segunda tranche ao cumprimento das exigências do acordo.

O crescimento económico está previsto para 2,8% em 2019…

É muito, o FMI fala em 3,1%. As economias vão enfrentar muitos problemas por força dos desequilíbrios da economia internacional. O petróleo vai viver momentos conturbados, há muitos eventos que podem infl uenciar o crescimento, na medida em que a nossa economia é de pernas de barro. O Brexit, a instabi l idade em França e a guerra comercial China /EUA. O crescimento pode fi car abaixo de 1% em 2019 ou em 1,5%.

Fez agora em Dezembro 40 anos desde que Deng Xiaoping desencadeou a chamada energia capitalista da China, fruto de uma reunião do Partido Comunista que durou mais de um mês. Quer comentar?

É o fenómeno chinês. Não há nenhuma outra nação estrondosa, extraordinária que era comunista, socialista ou com ideias soviéticas, que mudou radicalmente a sua economia para um sistema capitalista. Depois da revolução política de Mao Tsé-Tung, quem operou isso foi Deng Xiaoping, apesar de ter sido perseguido por Mao Tsé-Tung. Durante uma reunião do Partido Comunista defende uma teoria que se tornou célebre: “Precisamos de um grande número de quebracabeças que ousam pensar, explorar novas formas e gerar novas ideias… caso contrário, não seremos capazes de livrar o nosso país da pobreza e do atraso ou alcançar, e ainda menos superar, os países avançados.”

SUGESTÃO DE LEITURA:

  • Título: ‘A China de Deng Xiaoping: o homem que pôs a China na cena do século XXI’
  • Autor: Michael E. Marti
  • Ano de lançamento: 2007
  • Frase para pensar: “Ou Angola acaba com o keynesianismo ou o keynesianismo acaba com acaba com Angola, ou liberalismo chora por Angola’, Yuri Quixina
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