Perder a vida em véspera de Natal

O balanço provisório da “Operação Quadra Festiva 2018/2019”, de 15 a 25 de Dezembro, apresentado ontem pela Delegação Provincial de Luanda do Ministério do Interior, omite o número de indivíduos que perderam a vida neste período em consequência de acção delituosa. No entanto, OPAÍS contabiliza quatro só no dia 22

Passar a Quadra Festiva com saúde e sem óbito de um familiar, amigo, vizinho ou conhecido tornou-se um privilégio para os munícipes de Cazenga, Viana, Cacuaco, Kilamba Kiaxi e Belas. Estes municípios figuram entre as zonas da capital do país onde há níveis de delinquência que mais preocupam as autoridades policiais, em função da gravidade.

Quem não teve o “privilégio” acima mencionado são as pessoas próximas de Geovany Francisco Duarte Tavares, de 23 anos, morador do bairro da Boa Fé, em Viana, que foi baleado mortalmente às 6h00 do dia 22, por um agente da Polícia Nacional.

O incidente ocorreu quando o jovem tentava escapar de uma equipa de agentes da Polícia Nacional afectos ao Comando de Divisão de Viana que o deteve cerca de 20 minutos antes, isto é, por volta das 5h40, por, alegadamente, ter furtado uma motorizada. Informações preliminares avançadas pela Polícia apontam que após ter sido detido, o suposto criminoso pulara da viatura em que era levado sob custódia e colocouse em fuga, tendo sido perseguido.

“Tão logo foi recapturado, agrediu violentamente o agente que o perseguia. Tentou desarmá-lo e do confronto teria resultado a sua morte”, explica a delegação de Luanda do Ministério do Interior em comunicado de imprensa. A Polícia classifica o caso como homicídio preterintencional e garante que o seu autor já se encontra detido e entregue ao Serviço de Investigação Criminal (SIC) para determinação das causas da morte.

Contrariamente ao que tem acontecido, neste caso em particular a corporação faz menção ao histórico de Geovany Tavares, como estando registado na sua base de dados com cinco passagens por esquadras pela prática de diversos crimes, designadamente de posse ilegal de arma de fogo, roubo de telemóvel, furto em residência e roubo de motorizada.

No entanto, garante que foi aberto um inquérito policial e um processo-crime que correm os seus trâmites normais. Por volta das 22 horas do mesmo dia, um suposto marginal, cujo nome não foi revelado, morreu a caminho do hospital depois de ter sido alvejado por agentes destacados no bairro Maria Luísa, zona da Estalagem, junto às bombas da Pumangol.

A Polícia Nacional diz que a patrulha destacada nesse local foi surpreendida por disparos de uma arma de fogo do tipo AKM efectuados por dois suspeitos que seguiam a bordo de uma motorizada de marca LingKien. Em resposta, os polícias procederam do mesmo modo, tendo “atingido um dos suspeitos na região do abdómen e o outro colocou-se em fuga com a motorizada”. Garantiu de seguida que as “diligências prosseguem para o esclarecimento total das circunstâncias da ocorrência, bem como para a detenção do marginal em fuga e a apreensão da motorizada”. Uma hora e meia mais tarde, isto é, às 23h30, quatro marginais, empunhando uma arma de fogo e uma faca, semeavam a dor e luto na família de Ernesto Elias Vubo, de 43 anos. Os prevaricadores invadiram a sua residência, localizada na travessa Loulé, no bairro Palanca, com o propósito de subtrair os seus pertences. Ernesto terá resistido e os seus algozes não hesitaram em golpeá-lo com a arma branca na região da tórax, causando a sua morte imediata. Após denúncias de cidadãos que assistiram ao crime, uma equipa de efectivos da Brigada Moto surpreendeu os marginais. Estes, sem dó nem piedade, na tentativa de saírem impunes, dispararam contra os agentes da Ordem. “Em reacção proporcional por parte dos agentes da Polícia Nacional, um dos meliantes foi atingido na região do tórax, conhecendo a morte no local”. Com isso, somente um deles conseguiu escapar e dois acabaram por ser detidos e foram encaminhados ao Ministério Público. “Diligências estão em curso para a identificação e a detenção do suspeito em fuga”, diz a Polícia. Entretanto, nem estas quatro mortes, nem outras que terão ocorrido neste período como resultado de acções delituosas foram mencionadas no balanço provisório da “Operação Quadra Festiva 2018/2019”, de 15 a 25 de Dezembro, da Delegação Provincial de Luanda do Ministério do Interior tornado público ontem. Mateus Rodrigues, director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa dessa instituição, esclareceu na ocasião que a definição das áreas da capital do país que mais carecem de actuação da Polícia variam em função de dois indicadores: a gravidade dos crimes e da estatística criminal. Neste quesito, as estatísticas apontam o município de Luanda como o território de onde recebem mais denúncias.

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