“Entalados” em talatona com futuro incerto

Os moradores do bairro “Cu do boi”, no passado conhecido como Cambamba II, não sabem se permanecerão ou não nas suas moradias, por serem considerados invasores, rótulo que refutam, alegando que residem na zona desde muito antes da expansão dos condomínios

“Entaladas” entre os condomínios dos Astros, Diamante, Golden, Blue e o das Estrelas, este ainda em construção, cerca de três mil famílias vivem sem energia eléctrica, água canalizada e sem saneamento no “coração” de Talatona, um dos bairros mais luxuosos de Luanda.

Uma realidade retratada de forma ficcionada pelo escritor José Luandino Vieira, há anos, no conto “A Fronteira de Asfalto”, constante no livro de estórias “A cidade e a Infância” que, aparentemente, “tornou-se” realidade. Com algumas diferenças, entre as quais ainda não há relatos de amizades como Marina e Ricardo, personagens da referida estória.

A realidade é dura. O bairro, que recebeu o nome de “Cu do Boi”, passa despercebido para a maioria das pessoas que circulam pela rua do MAT pelo facto de a sua entrada, com menos de quatro metros de largura, mais parecer um beco do que uma ruela.

Depois do condomínio “Os Astros” há uma entrada ligeiramente maior, junto às margens da maior vala de drenagem de Luanda, a que alguns apelidaram de rio Cambamba. Há cerca de 20 anos que Santana Maguidi Manuel vive neste bairro, anteriormente era chamado por Cambamba II. Aos 40 anos, contou que augura um futuro melhor.

Em entrevista a OPAÍS, contou que quando chegou, a localidade era apenas um campo de cultivo, todavia, com a expansão do sector imobiliário a zona despertou a atenção de investidores.

Com isso, os camponeses, os seus descendentes e pessoas a quem cederam parcelas de terra para erguerem as suas moradias, vivem num ambiente de incerteza, temendo que a qualquer momento possam ser desalojados.

Na disputa por um pedaço de terra neste bairro, nem os restos mortais de algumas das pessoas que fundaram o bairro e tinham sido aí enterrados foram poupados.

Os sinais da presença deles em determinados espaços, como campa ou cruz, não agradaram aos indivíduos que se apresentaram como os “novos proprietários”, pelo que, de acordo com o nosso interlocutor, notificaram os seus parentes para os exumarem.

O outro sinal de que o “maior pesadelo” deles pode vir a tornar-se realidade, segundo contam os moradores, receberamno quando um grupo de moradores, do qual Santana Manuel fez parte, se deslocou à administração do Sector G do bairro para solicitar a instalação de energia eléctrica.

Foram informados que não vão desfrutar deste serviço público porque o bairro será demolido. “Por agora, vivemos deste tipo de propaganda: o bairro vai sair… Até hoje não sabemos como é que continuaremos a viver aqui.

Não sabemos se somos ou não reconhecidos pelo Estado”, frisou, apesar de terem sido contabilizados no Censo de 2014. Contrariamente aos moradores dos condomínios, que se sentem protegidos por viverem atrás de morros altos, reforçados com um sistema de segurança constituído por cerca eléctrica ou arrame farpado e guardas de empresas especializadas, os moradores do Cu do Boi, protegem-se como podem.

Esse sistema de segurança do condomínio torna quase nula a possibilidade de as crianças que vivem no mesmo perímetro se tornarem amigas ou, ao menos, se conhecerem, contrariamente ao aconteceu com Marina e Ricardo, as personagens criadas por José Luandino Vieira, numa época em que não existiam muros enormes a separar os vizinhos.

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