A elite e os muros

A reportagem da jornalista Stela Cambamba publicada neste jornal na ediçãoo desta Sextafeira, 28, é bem o espelho da transformação sofrida por este país nos últimos anos. Zonas de cultivo em torno das cidades foram urbanizadas, o que é normal, a população cresceu e com ela as cidades. Mas é também o espelho da falha nas nossas políticas sociais, em que o dinheiro impõe-se ao direito mais elementar de ter casa e actividade económica para o sustento familiar. Mas isto é nada, ante as demarcações sociais criadas.

A comparação é feita com os personagens Marina e Ricardo e com as relações entre classes no livro “A Fronteira de Asfalto”. Olhando para hoje, era mais fácil a interacção entre pessoas de diferentes classes e raças na época colonial do que hoje entre os pobres e os abastados, que ergueram em torno de si mesmos muros altos, com cercas eléctricas, guardas armados e circulam em redomas automóveis com vidros escuros.

Com a distância de quatro metros de largura de uma rua, crianças do mesmo bairro não se cruzarão nunca, não se conhecerão nunca, não brincarão, não se apaixonarão. Não há pontes entre os dois mundos.

A fronteira já não é o asfalto, é o dinheiro e uma consciência supremacista, o apartheid económico. Na verdade, os muros, as armas, a cerca eléctrica, o vidro fumado são trincheiras, bunkers para se manterem a salvo do inimigo. É o que estamos aconstruir, uma sociedade de inimigos.

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