Cuba celebrou 60 anos de revolução quando a América Latina volta à direita

Raúl Castro, primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba, denunciou o regresso dos Estados Unidos a uma política de hostilidade e confronto com a ilha, que festejou na Terça-feira (1) o 60º aniversário da sua revolução socialista

“Novamente, o G o – verno n o r – te-americano parece tomar o caminho do enfrentamento com Cuba e volta a apresentar o nosso país, pacífico e solidário, como uma ameaça para a região”, declarou o ex-Presidente cubano em frente ao túmulo de seu irmão Fidel Castro, morto em 2016.

“De maneira crescente, autoridades da actual administração, com a cumplicidade de alguns lacaios, difundem novas inverdades e tentam culpar Cuba por todos os males da região”, acrescentou ele, na presença do Presidente Miguel Díaz-Canel. Estados Unidos e Cuba aproximaram- se entre 2014 e 2016, durante o Governo de Barack Obama e Raúl Castro.

Com a chegada de Donald Trump ao poder, em 2017, a tensão voltou a prevalecer, porém, com um fortalecimento do bloqueio de Washington à ilha. Ao anunciar novas sanções em Novembro, os Estados Unidos acusaram Cuba de formar, com a Venezuela e a Nicarágua, uma “troika da tirania”.

Diante de mil convidados, Raúl destacou que, nos 60 anos da Revolução cubana, que inspirou movimentos de esquerda na América Latina, “não se teve um minuto de sossego durante os 12 governos americanos, que não deixaram de forçar um caminho ao regime em Cuba”.

Ele reiterou, contudo, a disposição do seu país para “conviver civilizadamente” com o vizinho, “numa relação de paz, respeito e benefício mútuo”. Por uma coincidência de calendário, esta histórica comemoração coincidiu com a posse do Presidente Jair Bolsonaro no Brasil, país que dá uma guinada à direita, como já fizeram Argentina, Chile e Peru.

As ruas de Santiago foram enfeitadas com bandeiras e cartazes para o aniversário. Num deles, que mostra um vigoroso Fidel alçando um fuzil junto com Raúl, pode-se ler: “60 anos de vitórias”. Vinte e um tiros de canhão na baía de Havana à meia-noite deram início à comemoração, com shows e festas por toda a ilha. Mas há razões para comemorar?

“O legado histórico da Revolução Cubana parece muito desgastado, tanto do ponto de vista político quanto económico”, aponta o director do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, Jorge Duany.

Novos desafios

Mais crítico, o opositor Vladimiro Roca assegura à AFP que a Revolução “vai-se extinguir pelo seu próprio peso”, porque “a juventude já está cansada, não acredita em nada disso” e “não tem apoio nenhum no exterior”.

Os seguidores de uma Revolução que inspirou movimentos de esquerda na América Latina destacam as conquistas em educação e saúde, mas os seus críticos lhe atribuem uma gestão desastrosa da economia, a existência de presos políticos e a falta de liberdades.

Após um 2018 marcado por dificuldades económicas, Díaz-Canel assegurou no Twitter que 2019 “será um ano de desafios, combates e vitórias”. Para o governante, “a batalha mais importante” é a economia, que cresceu apenas 1,2% em 2018, muito abaixo dos 5% necessários para impulsionar o desenvolvimento da ilha, segundo especialistas locais. Outrora primeiro produtor mundial de açúcar, a ilha teve de importá-lo recentemente da França.

A escassez de farinha e de ovos no final do ano acendeu o alerta dos cubanos. “A cada ano, o Governo importa cerca de dois bilhões em alimentos, e estes gastos não resolvem a segurança alimentar no país”, destaca Marlene Azor, ex-professora da Universidade de Havana, em um relatório do Centro para a Abertura e o Desenvolvimento da América Latina.

Para Azor, “o ‘modelo de bemestar’ que foi exportado durante décadas pelo Governo de Cuba como paradigma de desenvolvimento (…) demonstrou a sua estagnação e regressão a partir da perda dos subsídios soviéticos” e do bloco comunista da Europa Oriental. Nova Constituição Para “actualizar” o modelo económico, a 24 de Fevereiro, Cuba submeterá a referendo uma nova Constituição, que reconhece o papel do mercado, da propriedade privada e do investimento estrangeiro na sua economia.

O texto também assegura que Cuba “nunca” retornará ao capitalismo e ratifica o destino “comunista” e de partido “único” da sua sociedade. Enfrentando a política hostil de Donald Trump e o agravamento do embargo americano à ilha, vigente desde 1962, o panorama de seus aliados não é nada bom:

uma Venezuela em crise que luta para assegurar as suas entregas de petróleo à ilha. E, embora o Presidente russo, Vladimir Putin, tenha qualificado Cuba, no Domingo, como um “sócio estratégico e aliado de confiança”, não está disposto a subsidiá-la como a União Soviética fez.

A China também não. Finalmente, a Coreia do Norte, país que Díaz-Canel visitou em Novembro, planea assinar em Janeiro um acordo de comércio e colaboração com Havana, segundo a agência oficial de notícias Prensa Latina.

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