Yuri Quixina: “Governo gordo ocupa o espaço das famílias e das empresas na economia”

A presente análise é continuação da última edição do programa Economia Real, do ano passado, em que professor de macroeconomia Yuri Quixina fala, entre outros assuntos, sobre o FMI e o risco de um Governo gordo na economia

Um dos grandes desafios da economia em 2019 será a implementação do Programa de Financiamento Alargado do FMI. Continuo a defender que devíamos, primeiro, colocar à prova a nossa capacidade de resolver os problemas. Era possível.

Se o FMI falhar quem mais nos salva?

Essa legislatura do Presidente seria muto mais inteligente e profícua se colocássemos à prova a nossa capacidade de realização, uma dúzia de sábios e intelectuais. Se não resultasse, aí sim. Porque o fundamental não são os 3,7 mil milhões de dólares, mas a reduzida capacidade de implementar os planos. O Plano Intercalar não implementado na íntegra. O FMI condiciona as restantes tranches ao cumprimento da primeira fase do acordo.

Que garantias existem, uma vez que o Plano Intercalar, por exemplo, foi um fracasso?

Angola vai precisar das outras tranches e, por isso, deve cumprir. Não sei se haverá remodelação da equipa económica ou não, mas que está a fraquejar do ponto de vista de implementação de políticas de reforma estrutural, está. Com a afirmação de que a austeridade não é do FMI, é do Governo, é um erro do ponto de vista do jogo político. A Oposição poderá usar isso no debate político das próximas eleições.

O que o Governo de Angola deve fazer à luz do acordo?

É muito difícil para as autoridades, principalmente para aquela equipa que está lá, porque nos fez viver acima das nossas posses. É aquilo que Adam Smith chama de ‘autoridade moral’. É preciso ter autoridade moral quando pedes ao outro para cortar e viver dentro das suas posses. É muito difícil esta equipa implementar o plano de austeridade e de reforma. E mais: ainda prometem aumentar os salários. Não se percebe que tipo de consolidação será feita aumentando os salários.

 Mas…

Mas seria importante persuadir e informar o povo sobre o que se passa na economia, qual foi a equipa económica que implantou as políticas que nos levaram à crise, – que não tem nada a ver com o petróleo. Tirem o petróleo desta equação e agradeçam a Deus de joelhos por nos dar petróleo. Que fórmulas existem para tirar o país da crise e como ensinar o povo a viver dentro das suas posses, sabendo que a mesma equipa é que nos fez viver acima das nossas posses, com programas como PAPAGRO, Nosso Super, número de ministérios… Vamos ver o que vão tentar fazer agora com Fundo Monetário Internacional.

O Governo prevê crescimento de 2,8%, o FMI 3,1%, a Fitch 2,5, o Banco Mundial 2,2 e você à volta de 1%. Que factores determinam a previsão do crescimento económico?

As instituições utilizam pressupostos diferentes, essa diferença nas previsões é natural na economia. O economista Joseph Schumpeter não gostava de fazer previdaniel miguel /arqui vo são, mas defendia aquele que se aproximasse mais da realidade e o que faria a melhor previsão. A previsão económica serve apenas para orientar o país, a economia e os empresários. Quando se utilizam pressupostos diferentes, a tendência é que as previsões sejam diferentes. As previsões não podem ficar muito além da realidade.

Quais são os seus pressupostos para a economia crescer a volta de 1%?

Os meus pressupostos, primeiros, são externos. Quem influencia as commodities são economias que também estão na incerteza, como a economia britânica, americana, a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, a própria OPEP, que está a perder o norte no comando dos preços do petróleo. Esses são alguns factores que podem influenciar a que o crescimento fique muito abaixo do previsto. Será um ano de austeridade… E em período de austeridade as economias não crescem dois nem três por cento. O primeiro choque é contrair a economia, porque vão-se mudar hábitos.

Enquanto isso acontecer a nossa sorte vai continuar depositada no barril do petróleo, certo?

Gostaria que a nossa sorte estivesse depositada na nossa capacidade interna, no angolano. A riqueza de um país não é o petróleo, é o povo. São as pessoas. Se colocarmos o povo no centro da nossa estratégia de reforma estrutural e da consolidação orçamental, através do povo, para o povo e com o povo, sairemos da crise. Mas estamos a tentar fazer a reforma com o Estado, para o Estado e pelo Estado/ Governo.

Que influência tem o Governo na dinâmica da economia?

O cancro da economia está no tamanho do Estado. Quando o Estado é gordo ocupa os espaços das famílias e das empresas na economia. O Governo grande é menos eficiente, é mais burocrata, arrogante e ditador.

Governo grande esquece a sua actividade principal: aparece lixo na rua, escolas precárias, cultura geral baixa, as pessoas lêem pouco.

  • Título: ‘A China de Deng Xiaoping: o homem que pôs a China na cena do século XXI’
  • Autor: Michael E. Marti
  • Ano de lançamento: 2007
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