Francisco Vidal “É nos momentos mais difíceis da humanidade que surgem as obras de arte mais edificantes”

Francisco Vidal é um homem fascinado pelas artes visuais desde pequeno e foi reconhecido profissionalmente aos 27 anos. A Beleza construída e pensada fizeram dele um excelente artista. Nesta sua primeira entrevista a OPAÍS, Vidal fala da nova criação, desenvolvimento e composições de flores de algodão a óleo sobre catanas, cujo objectivo é continuar o estudo até conseguir leituras necessárias

Como é que Francisco Vidal se define socialmente?

Sou um artista visual que trabalha a pintura e o desenho.

Artisticamente?

Interessa-me o estudo de diferentes temas da cultura contemporânea. Através da disciplina do desenho desenvolvo questões e refino o meu sentido crítico.

O que mais o emociona em Belas Artes?

A Beleza construída e pensada.
Como está em termos de exposições e de residência artística? Não uso residências artísticas como espaço de trabalho. Prefiro o meu estúdio, onde tenho todas as ferramentas para me expressar, sobre todos os pontos de estudo que me tocam vindos do mundo e do universo. Luanda é a cidade onde mais gosto de expôr as minhas ideias com pinturas.

O país continua a viver momentos de crise. Até que ponto esta situação terá dificultado a sua actividade ou o surgimento de novas obras?

É nos momentos mais difíceis da humanidade que surgem as obras de arte mais edificantes. Porque elas servem mesmo para não nos desligarmos da imagem ideal daquilo que somos como humanos. E com o estudo dessas imagens e documentos, trabalhamos ideias que agora estão no espaço da utopia e do sonho, mas que no futuro voltarão a ser realidade. E teremos de novo tempos de paz e de progresso social e humano.

Que balanço faz do recém-terminado ano de 2018 e o que mais o marcou neste período?

2018 foi um ano muito trabalhoso e, por isso, penso que nos imprimiu uma necessidade de foco naquilo que é essencial.

Que acções e projectos gostaria de ver implementadas ou melhorados e não foram concretizados?

Tenho uma urgência em ver espaços e situações que vivemos e podiam ser melhoradas nas áreas da saúde, educação, justiça e nos valores básicos que elevam a nossa humanidade. O construir desses espaços elevados é um work in progress, não me parece que necessitem de alturas do ano para fazer balanços. Têm que ser e são sempre urgentes.

Quantas exposições realizou em 2018 no país e no estrangeiro?

Duas em Luanda, que são as mais importantes. Depois tive pinturas em Miami, Lisboa, Macau e Londres.

Dificuldades encontradas?

O meio artístico de Luanda pode ser muito competitivo e agressivo. Quando há cooperação entre os agentes, aparecem trabalhos mais interessantes e importantes.

Qual será o tema da sua próxima criação e onde será apresentada?

Estou a desenvolver composições de flores de algodão a óleo sobre catanas. Vou continuar este estudo até conseguir as leituras necessárias. Quero apresentar nos espaços mais pertinentes. Penso que a última apresentação no Memorial do Presidente Agostinho Neto, foi feliz e num espaço pertinente, para uma reflexão precisa e consciente.

Quando e onde iniciou a actividade artística e qual foi o título da sua primeira criação?

Sempre me conheci como desenhador, profissionalmente fui
reconhecido aos 27 anos. A última exposição teve como título e tema “Nova Angola”. A minha primeira obra-prima de pintura chama-se “A beautiful South”.

Onde a expôs e qual foi a reacção do público?

O público do Memorial respondeu muito bem às questões desta última exposição. A primeira exposição em que mostrei “Um Sul bonito” foi em Lisboa na galeria 111 e teve uma resposta da crítica bastante positiva.

Quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira artística?

Vejo o trabalho como um somatório de experiências anteriores. Trabalho sempre para que o trabalho mais recente tenha sempre o melhor do trabalho anterior.

Os menos relevantes?

Bienal de Veneza. Porque sempre que Angola trabalha esta bienal, insiste sempre em mostrar composições, pensamentos e trabalhos medíocres.

Uma palavra para o público apreciador das artes plásticas?

Eu também sou e faço parte do público das artes visuais e das composições finas. Espero que possamos ter todos acesso ao melhor que se faz nesta área.

Para os agentes culturais?

Que façam sempre o seu melhor trabalho e que consigam e tenham sempre sucesso nos seus melhores objectivos.

Perspectivas?

Continuar aquilo que fizemos melhor no passado. Observo com atenção a vida e a cor da cidade de Luanda. Que hoje é vibrante e vive com o pensamento de mudança. Essa mudança é bem-vinda e penso que os que habitam a cidade, ou outros pontos de Angola e do Mundo vivem este momento com a certeza que estamos a construir um espaço bem mais interessante.

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