Nomeação de “novos” governadores anima debate público no país

Começa animado o ano de 2019 nos bastidores da política angolana. João lourenço, que já ganhou vários apelidos, parece fazer jus ao de “Exonerador implacável”. Como sempre, reacende o debate em torno da assertividade das decisões do Pr e vaticinam-se cenários

Tomaram posse os governadores das províncias de Luanda e Cuanzas, Norte e Sul, nomeados no início da semana pelo Presidente da Republica, João Lourenço. Com os novos governadores foram igualmente empossados dois auxiliares do Titular do Poder Executivo, as responsáveis pelas pastas das Pescas e do Mar e da Assistência Social, Família e Promoção da Mulher. Entretanto, é sobre os novos inquilinos dos palácios da Mutamba, Ndalatando e Sumbe que os “comentadores do quotidiano” desfi lam todo o seu verbo e algumas vezes fel.

A começar por Sérgio Rescova, a quem alguns consideram como não tendo experiência para governar a complexa Luanda e vaticinam “um fi m de carreira política” precoce. Luanda é uma espécie de podium para início de fi m de carreira política.

Aliás, dizem que o Palácio da Mutamba é “o cemitério dos políticos”. “Luanda é uma cidade que tem grandes desafi os, veremos o que o novo governador irá fazer, não sei se ele terá experiência sufi ciente para estar à frente de uma estrutura tão importante como é Luanda, mas o tempo dirá”, disse esta Quinta-feira Alcides Sakala, porta-voz da UNITA, em declarações à agência Lusa.

Nas redes sociais, internautas questionaram o porta-voz do Galo Negro a fim de saber “em que escola se tira o curso de governador” para que isso seja exigido como pré-requisito para que um cidadão chegue a esta função. A última responsabilidade pública do novo inquilino do Palácio da Mutamba é de primeiro secretário da JMPLA, o braço juvenil do partido governante.

Por isso mesmo todos os receios que se apresentam têm a sua razão de ser, mas os mais optimistas dão o benefício da dúvida a Sérgio Rescova e acreditam que o facto de fazer parte da entourage política pode servir-lhe de “mais-valia” para as novas funções.

Luanda “o Cemitério”

A lista vai longa e começa no tempo em que Luanda era ainda gerido por administrador municipal, mais tarde por comissário municipal e provincial e, por último, governadores, tendo por meio em algumas ocasiões comissões de gestão. Num artigo publicado em 2011, quando José Maria Ferraz dos Santos chegava ao cadeirão do Palácio da Mutamba, OPAÍS referia que após a proclamação da Independência Nacional, a gestão da província de Luanda fora confiada a uma comissão chefi ada pelo nacionalista Agostinho Mendes de Carvalho.

O desenvolvimento do processo político angolano levou o Estado a decretar a existência de comissariados municipais. Luanda teve dois: Lourenço Vaz Contreiras, de 76 a 77, e Romão da Silva, de 1977 a 1980.

À medida que a organização político – administrativa avança, criam-se os comissariados provinciais. Luanda vê passar seis, entre eles Pedro Fortunato, Afonso Van Dúnem “Mbinda”, novamente Mendes de Carvalho e Romão da Silva, depois Evaristo Domingos “Kimba” e Mariano Garcia “Puku”.

Nenhum deles durou mais de 2 anos no cadeirão mais importante da província de Luanda, aliás média temporal que ainda hoje se mantém. Por razões que se perdem na História, Flávio Fernandes coordena mais uma Comissão de Gestão de pouca duração, sendo, de seguida, nomeados mais dois comissários provinciais: Cristóvão da Cunha e Luís Gonzaga Wawuty.

Na era dos “governadores províncias” é primeiro inquilino Kundy Payama (91/93). Seguiuse-lhe Rui de Carvalho (93/94). Depois coube a vez a Justino Fernandes, que é rendido por Aníbal Rocha, que bate o record de longevidade ao manter-se no cargo até 2002. Segue-se-lhe Simão Paulo. Higino Carneiro chega ao Palácio da Mutamba a frente de uma Comissão de Gestão integrada por António Van Dúnem e Job Capapinha.

O último viria a fi car com o cargo de governador no período de 2005 a 2008. Com a imagem desgastada e apupado em público num evento desportivo, Capapinha é substituído por Francisca do Espírito Santo, indicada primeiro interinamente e depois confi rmada no cargo onde se manteve até 2010.

Espirito Santo é rendida por José Maria Ferraz dos Santos, chamado às pressas do Cuando Cubango onde desempenhava as funções de vice-governador.

Depois coube a vez a Bento Bento, que já mostrava serviço à frente da estrutura do partido MPLA na província de Luanda e este rendido por Graciano Domingos que depois cedia lugar novamente a Higino Lopes Carneiro, que viria a ser rendido por Adriano Mandes de Carvalho.

Adriano de Carvalho, até há pouco menos visível nos holofontes dos media angolanos, saltou do recém-criado município do Icolo e Bengo para o mais alto cadeirão da província de Luanda, de onde foi apeado esta semana com menos “estrondo”, já que ao contrário de muitos predecessores, foi “contemplado” para iguais funções na menos problemática província do Cuanza-Norte.

Dizem alguns que Adriano Mendes de Carvalho “caiu de pé” e precisa de mostrar todo o seu saber e superar José Maria Ferraz dos Santos reinventando-se nas húmidas terras da então Ambaca.

Menos problema, nem por isso fácil Com uma lista menos “gorda” que a de Luanda, a governação do Cuanza-Norte, nem por isso é uma “pera doce”. Inaugurada por José Congo Sebastião (1975/1977), por Ndalatando já passaram alguns nomes, sendo uns menos sonantes que outros. Por essa ordem: Lourenço José Ferreira “Diandengue”, Evaristo Domingos Kimba, Noé da Silva Saúde, Paulo Teixeira Jorge e Francisco Vieira Dias.

Manuel Pedro Pacavira é, de longe (1991-2004), o que mais tempo se manteve no cadeirão e desde logo com uma colecção de factos registados, sendo a maior parte deles verdadeiros “amargos de boca” que à saída tinha a imagem completamente desgastada, ao ponto de o seu substituto, Henrique Andre Júnior, ter sido visto como o “salvador da pátria”.

Entretanto, o substituto de Manuel Pedro Pacavira terá feito uma verdadeira travessia no deserto, tal foi o rol de problemas que acompanharam a sua passagem pela província.

Factos surreais como o de até “intrusos” se terem intrometido na residência ofi cial do governador. Data do seu tempo o recrudescimento do fenómeno “mukuakuiza”, fomentado, diz-se, internamente por círculos locais do seu próprio partido que promoveram a rejeição do governador por não ser “nativo da província”.

À saída, Henrique Júnior era claramente um homem exausto em consequência de uma guerra em que teve de enfrentar até “fogo amigo”. Entra José Maria dos Santos, depois de ter passado com tristes lembranças pelo Palácio da Mutamba em Luanda.

Rapidamente os cuanzanortenhos “renovam a esperança”, crentes em que dias melhores estavam a vir.

O próprio governador arregaça as mangas e “coloca mão na massa”. Juntou-se às forças vivas e até em campanhas de limpeza participou, mas agora, na sua exoneração, alguns transeuntes referem como obra apenas “pequenos jardins e pouco ou quase nada mais”.

É esta terra e gente que Adriano Mendes de Carvalho vai governar e liderar nos próximos dias, esperando-se dele um volte-face de 360 graus em comparação com a obra e acções do seu antecessor, ainda que ambos tenham em comum o facto de terem antes sido governadores de Luanda.

“Sumbe: quem te viu e quem te vê” Um morador no Sumbe, ironicamente, quando solicitado a pronunciar-se em torno das “mexidas”, afirmou que o PR devia ter deixado o governador alcançar a proeza de “deixar o Sumbe sem asfalto”, que era a última obra que faltava, tal é a deterioração da capital do Cuanza-Sul.

Segundo registo, o cadeirão de chefe máximo daquela circunscrição administrativa entre as 18 que compõem o país foi inaugurado por Manuel da Cruz Gaspar. Pelo mesmo posto passaram Luís Doukui Paulo de Castro, Armando Fandano Dembo, Francisco José Ramos da Cruz, Aurélio Segundo e Serafi m do Prado.

Higino Carneiro é, na verdade, um dos mais “vistosos” governadores que passaram pela província, até perder o protagonismo para Eusébio de Brito Teixeira, que cessou funções esta semana. Na noite de Quarta-feira,3, quando tornada pública a sua exoneração, terá havido alguma comemoração espontânea na cidade do Sumbe.

Depois de alguns caírem na real, agora questionam-se : “que mais podemos esperar do novo timoneiro depois do fracasso na governação de Luanda?”. Job Capapinha, há já algum tempo aportado num projecto de “sociedade civil”, volta à governação e, para não variar, é mais um que também já passou pelo Palácio da Mutamba.

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