Bloco Democrático vai intentar uma acção judicial contra o SIC Cuanza Norte

Quatro meses depois de ter sido detido em Viana, arredores de Luanda, pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) do CuanzaNorte, como estando envolvido em acções de vandalismo de bens públicos e queima de viaturas na cidade de Ndalatando, mas solto depois de 26 dias de cadeia, por falta de provas, Joaquim da Costa Zangui (Lutambi), secretário nacional da Juventude do Bloco Democrático (BD), sai a terreiro, conta como tudo aconteceu e revela que o seu partido vai intentar uma acção judicial contra o SIC Cuanza-Norte, pelos danos físicos e morais causados a si, enquanto membro desta força política

Houve muita especulação à volta da sua detenção. Por que razão o senhor foi preso?

O calvário começou no dia 11 de Agosto do ano passado, após ter terminado uma partida de futebol no município de Viana, onde resido com a família. Por volta das 14 horas fui “raptado” por quatro senhores civis altamente robustos, que exibiam os coletes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e conduziam uma viatura de marca Suzuki Jimmy. Por volta das 18 horas fui entregue ao SIC da província do Cuanza Norte, em Ndalatando.

Tinha noção do que estava a acontecer?

Eu não sabia o que estava a acontecer e disse-lhes que se eu tivesse cometido algum crime que me exibissem um mandado de captura ou um outro documento qualquer passado por alguma autoridade competente, mas disseram-me que só devia fazer esta reclamação lá em Ndalatando, onde me tinham levado. E durante o percurso nem me foi permitido ligar para a minha família a fim de lhes dar a conhecer essa ocorrência.

O senhor tem alguma ligação com a província do Cuanza-Norte?

Nasci nesta província, mas saí de lá no ano de 2000 e tenho ido lá algumas vezes para tratar de assuntos políticos-partidários, mas nunca fui para lá passear, porque os meus familiares mais próximos também residem cá em Luanda.

Quando é que tomou conhecimento de que estava a ser acusado de ser o mentor do crime de vandalismo de bens públicos e queima de carros?

Depois de alguns dias na cadeia é que tomei conhecimento de que estava a ser acusado de ser o principal mandante de queimar carros em Ndalatando, num processo em que estavam implicados mais outros três jovens, entre os quais António Pereira Capache, militante do Bloco Democrático no Cuanza-Norte e outros dois jovens que não fazem parte do partido.

Mas quem é que o acusou?

Segundo as informações que obtive já lá na cadeia, o militante do Bloco Democrático António Capache foi apanhado pelo SIC como sendo o principal suspeito, porque na altura em queos carros estavam a ser queimados por desconhecidos ele aparecia nas tabernas supostamente a pagar bebidas aos seus amigos, e este foi o motivo que fez com que fosse detido.

Não foi acusado de um outro crime?

Não. O SIC pensou que ele estava a ser financiado para cometer o crime de que é acusado. Aliás, segundo me disseram, depois de oito dias de intensa tortura teve que aceitar para se livrar do castigo, e citou o meu nome infantilmente na tentativa de salválo pensando que o facto de eu ser político gozo de imunidades e que podia cometer qualquer crime e não ser levado à cadeia, segundo explicou à Procuradoria Geral da República do Cuanza-Norte.

Mas era preciso ele invocar o seu nome para se livrar da tortura?

Só ele devia explicar isso. Eu sou activista e responsável da juventude de 18 províncias a nível do meu partido. Pesa sobre mim muita responsabilidade. Eu não sou delinquente para cometer crimes. O que o SIC deve fazer é encontrar os verdadeiros culpados, levá-los ao Tribunal para responderem pelos crimes que cometeram.

Quanto tempo ficou preso?

Vinte e seis dias, ou seja, desde 11 de Agosto até 06 de Setembro, altura em que fui solto. Fui detido sem provas. Até ao momento o SIC da província do Cuanza- Norte não tem como provar o meu envolvimento nestes crimes. O processo continua em fase de instrução preparatória e ninguém foi levado a Tribunal como sendo acusado por estes crimes. Para além daquelas notas escritas que foram feitas e de algumas fotos que eu não vi e são os elementos materiais do crime.

Durante a sua estadia na Comarca do Cuanza-Norte as acções de vandalismo e a queima de carros continuaram?

Neste período em que eu estava preso na cadeia do município do Lucala e na comarca de Ndalatando as queimas de carros e outros actos de vandalismo continuaram. Até hoje ainda não se descobriu quem é o verdadeiro culpado.

Houve violação dos seus direitos durante os dias em que esteve preso?

Fiquei três dias sem comer, e estava numa cela muito fria, vestido apenas com o equipamento de treino até por altura em que os meus familiares se aperceberam da situação e me levaram outras vestimentas.

O SIC não mostrou nenhum documento oficial que oficializava a minha detenção. Os outros três jovens implicados no mesmo processo estavam com os corpos inflamados devido às torturas físicas.

Qual é a posição do seu partido depois de se provar que o senhor não estava implicado nestes crimes?

Este caso já se encontra no gabinete jurídico do Bloco Democrático e a seu tempo o partido vai pronunciar-se sobre isso. Posso adiantar que vai ser intentada uma acção judicial contra o SIC Cuanza-Norte para responder criminalmente pelos danos físicos e morais que me causaram.

O SIC pensou que eu, enquanto membro do BD é quem estava a financiar o colega do Cuanza-Norte, mas isso não ficou provado. Nesta altura a maior preocupação é a de trabalhar junto das autoridades competentes para a libertação do nosso membro António Capachi, que até ao momento está preso na comarca de Ndalatando.

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