Bloco Democrático vai intentar uma acção judicial contra o SIC Cuanza Norte

Bloco Democrático vai intentar uma acção judicial contra o SIC Cuanza Norte

Houve muita especulação à volta da sua detenção. Por que razão o senhor foi preso?

O calvário começou no dia 11 de Agosto do ano passado, após ter terminado uma partida de futebol no município de Viana, onde resido com a família. Por volta das 14 horas fui “raptado” por quatro senhores civis altamente robustos, que exibiam os coletes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e conduziam uma viatura de marca Suzuki Jimmy. Por volta das 18 horas fui entregue ao SIC da província do Cuanza Norte, em Ndalatando.

Tinha noção do que estava a acontecer?

Eu não sabia o que estava a acontecer e disse-lhes que se eu tivesse cometido algum crime que me exibissem um mandado de captura ou um outro documento qualquer passado por alguma autoridade competente, mas disseram-me que só devia fazer esta reclamação lá em Ndalatando, onde me tinham levado. E durante o percurso nem me foi permitido ligar para a minha família a fim de lhes dar a conhecer essa ocorrência.

O senhor tem alguma ligação com a província do Cuanza-Norte?

Nasci nesta província, mas saí de lá no ano de 2000 e tenho ido lá algumas vezes para tratar de assuntos políticos-partidários, mas nunca fui para lá passear, porque os meus familiares mais próximos também residem cá em Luanda.

Quando é que tomou conhecimento de que estava a ser acusado de ser o mentor do crime de vandalismo de bens públicos e queima de carros?

Depois de alguns dias na cadeia é que tomei conhecimento de que estava a ser acusado de ser o principal mandante de queimar carros em Ndalatando, num processo em que estavam implicados mais outros três jovens, entre os quais António Pereira Capache, militante do Bloco Democrático no Cuanza-Norte e outros dois jovens que não fazem parte do partido.

Mas quem é que o acusou?

Segundo as informações que obtive já lá na cadeia, o militante do Bloco Democrático António Capache foi apanhado pelo SIC como sendo o principal suspeito, porque na altura em queos carros estavam a ser queimados por desconhecidos ele aparecia nas tabernas supostamente a pagar bebidas aos seus amigos, e este foi o motivo que fez com que fosse detido.

Não foi acusado de um outro crime?

Não. O SIC pensou que ele estava a ser financiado para cometer o crime de que é acusado. Aliás, segundo me disseram, depois de oito dias de intensa tortura teve que aceitar para se livrar do castigo, e citou o meu nome infantilmente na tentativa de salválo pensando que o facto de eu ser político gozo de imunidades e que podia cometer qualquer crime e não ser levado à cadeia, segundo explicou à Procuradoria Geral da República do Cuanza-Norte.

Mas era preciso ele invocar o seu nome para se livrar da tortura?

Só ele devia explicar isso. Eu sou activista e responsável da juventude de 18 províncias a nível do meu partido. Pesa sobre mim muita responsabilidade. Eu não sou delinquente para cometer crimes. O que o SIC deve fazer é encontrar os verdadeiros culpados, levá-los ao Tribunal para responderem pelos crimes que cometeram.

Quanto tempo ficou preso?

Vinte e seis dias, ou seja, desde 11 de Agosto até 06 de Setembro, altura em que fui solto. Fui detido sem provas. Até ao momento o SIC da província do Cuanza- Norte não tem como provar o meu envolvimento nestes crimes. O processo continua em fase de instrução preparatória e ninguém foi levado a Tribunal como sendo acusado por estes crimes. Para além daquelas notas escritas que foram feitas e de algumas fotos que eu não vi e são os elementos materiais do crime.

Durante a sua estadia na Comarca do Cuanza-Norte as acções de vandalismo e a queima de carros continuaram?

Neste período em que eu estava preso na cadeia do município do Lucala e na comarca de Ndalatando as queimas de carros e outros actos de vandalismo continuaram. Até hoje ainda não se descobriu quem é o verdadeiro culpado.

Houve violação dos seus direitos durante os dias em que esteve preso?

Fiquei três dias sem comer, e estava numa cela muito fria, vestido apenas com o equipamento de treino até por altura em que os meus familiares se aperceberam da situação e me levaram outras vestimentas.

O SIC não mostrou nenhum documento oficial que oficializava a minha detenção. Os outros três jovens implicados no mesmo processo estavam com os corpos inflamados devido às torturas físicas.

Qual é a posição do seu partido depois de se provar que o senhor não estava implicado nestes crimes?

Este caso já se encontra no gabinete jurídico do Bloco Democrático e a seu tempo o partido vai pronunciar-se sobre isso. Posso adiantar que vai ser intentada uma acção judicial contra o SIC Cuanza-Norte para responder criminalmente pelos danos físicos e morais que me causaram.

O SIC pensou que eu, enquanto membro do BD é quem estava a financiar o colega do Cuanza-Norte, mas isso não ficou provado. Nesta altura a maior preocupação é a de trabalhar junto das autoridades competentes para a libertação do nosso membro António Capachi, que até ao momento está preso na comarca de Ndalatando.