Sobreviventes e descendentes da Baixa de Kasanje clamam pela construção da cidade Histórica

a revolta dos povos da baixa de Kasanje ficou marcada na história devido ao massacre perpetrado pelas autoridades coloniais contra os trabalhadores dos campos de cultivo de algodão que pararam a produção, em reivindicação contra o trabalho forçado a que estavam submetidos. Ora, passados 58 anos, os sobreviventes clamam por um reconhecimento capítulo social

Por: Miguel José, em Malanje

A Associação dos Sobreviventes e Descendentes do Massacre da Baixa de Kasanje continua a pedir ao Executivo que cumpra com as promessas feitas, em 1979, pelo primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, de construir uma cidade histórica na localidade de Tekadiá-Kinda, no município do Kela, aquando da sua visita a esta região.

Defende que a memória dos sobas Nzaje Longo Lilendende e Tekadiá-Kinda, assim como de todos os camponeses que morreram vítimas da repressão colonial, em defesa da justiça e da sua liberdade, deve ser honrada.

Em razão disso, a região deve merecer maior atenção, não só como forma de reconhecimento histórico, mas pela necessidade de se dar dignidade aos povos da Baixa de Kasanje que carecem de quase tudo.

Clamor de socorro

O secretário do Rei Kabombo (soberano do Reino do Ndongo), Moisés Nvula Ndala, implora às autoridades governativas a implementarem acções de desenvolvimento social, em socorro às populações da região da Baixa de Kasanje, no sentido proporcionar condições básicas que venham a minimizar o sofrimento a que estão submetidos.

Faltam escolas, hospitais, estradas e serviços que garantam o bem-estar dos povos dos municípios que conformam a região da Baixa de Kasanje. Moisés Nvula Ndala, também sobrevivente da repressão colonial, afirma que, dado o estado de carência das populações, nos municípios de Marimba e Massango impõe-se que as crianças tenham de transpor a fronteira entre as repúblicas de Angola e Democrática do Congo para frequentarem a escola, bem como em casos de saúde ecorrerem aos hospitais congoleses.

Por isso, em consequência da falta de quase tudo, os munícipes, principalmente os jovens, cada vez mais acorrem às cidades ao encontro das melhores condições de vida. “São localidades que urge o Governo pôr as mãos, porque a população passa mal (…) até mesmo as crianças não têm registo”, lamenta.

Importância de 4 de Janeiro

“O 4 de Janeiro continua a ser uma das mais importantes datas históricas de celebração da nação angolana, cujas páginas escritas com dor, suor, sangue e lágrimas, jamais se apagarão na memória colectiva dos angolanos”, referiu do governador da província de Malanje, Norberto dos Santos “Kwata Kanawa”.

Por assim ser, o secretário do soberano do Ndongo considera que. pelo facto da revolta da Baixa de Kasanje ter repercussão histórica nacional e não só, o justo seria que em memória dos cidadãos massacrados pelas forças repressivas coloniais a data voltasse a ser feriado nacional, como foi até há 7 anos.

O activista social Bartolomeu Paposseco, ao concordar que o 4 de Janeiro é das datas mais importantes do país, considera que o povo da Baixa de Kasanje, por ter sido o primeiro a manifestar-se contra a autoridade colonial, em reivindicação dos seus direitos, faz todo o sentido que a data continue a ser feriado nacional, como foi antes.

“Não sei realmente o que levou o legislador a subtrair o 4 de Janeiro do calendário dos feriados nacionais, o que nos deixa entristecidos (!)”, lamenta. Na mesma sequência de pensamento, o sociólogo Baião Lopes caracteriza os povos da Baixa de Kasanje exuberantes, por terem demonstrado que para se fazer uma reivindicação não é necessário ostentar diplomas académicos.

Porém, independentemente de serem camponeses iletrados, com base na realidade do contexto em que viviam, eles simplesmente, ao perceberem as condições subumanas a que estavam submetidos, foram peremptórios em defender a sua dignidade.

“Essas pessoas que se entregaram no momento de luta devem ser valorizadas, porque um povo só é rico quando está interessado em aceitar o seu passado”, afirmou. Entretanto, o presidente da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Lucas Ngonda, que recentemente visitou a província de Malanje, disse que é na Baixa de Kasanje que estão as raízes e os fundamentos da Independência de Angola, por isso, considerou ser injusto que o Executivo continue a esquecer o povo dessa região e defendeu a restituição do 4 de Janeiro como feriado nacional, já que o massacre, além de matar camponeses, matou missionários, pastores e catequistas da Igreja Católica.

“Por isso, nós fazemos um apelo ao Executivo que deverá ser inscrito na Constituição do nosso país como feriado nacional ”, reforçou o político. Este ano o município do Kela acolheu, na Sexta-feira, 4, o acto central nacional da efeméride que marcou o Dia dos Mártires da Repressão Colonial da Baixa de Kasanje, sob o lema: “Com o Espírito do 4 de Janeiro Construamos um País Estável”. Para memória, conformam a Região da Baixa de Kasanje os municípios de Kaombo, Marimba, Kunda-diá-Base, Kela, Kirima e XáMuteba (Lunda-Norte).

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