Familiares de jovem morto à pancada por militares temem impunidade

A família do malogrado afirma que vai recorrer até às últimas instâncias para que a justiça seja feita, ao contrário de casos de outros cidadãos mortos por militares cujo processo não chegou às barras do tribunal. A par disto, querem exigir que os envolvidos custeiem a formação da menina órfã, até completar 18 anos

A poucos dias de completar um mês do seu passamento físico, a família de Mário Tacanha Dinis Teixeira, de 25 anos, que veio a falecer dias depois de ter sido brutalmente espancado por sete supostos efectivos da Polícia Militar, no bairro Bela Vista, em Luanda, teme que o caso termine impune, devido ao andamento do processo. Em depoimento a OPAÍS, a irmã do malogrado, Josina Teixeira, disse que não estão a ser poupados esforços para que os sete agressores que espancaram o seu irmão, ao ponto de o deixarem com o rosto desfigurado, sejam colocados atrás das grades, independentemente das funções que exercem ou status social que tenham.

Até à data, sabe-se que cinco dos sete acusados, identificados apenas como supostos efectivos da Unidade Militar de Cabo-Ledo, estão a contas com a justiça, enquanto os outros dois encontram-se ainda foragidos. Deste grupo, existe também um cidadão civil que usava a farda da instituição, fazendo-se passar por militar, segundo a nossa entrevistada. Segundo Josina, foram os amigos da vítima, que por conta própria conseguiram deter quatro dos acusados, que, na altura em que decorria o óbito, estavam de malas arrumadas, preparando a fuga. “Os amigos do meu irmão capturaram- nos e levaram-nos forçadamente à esquadra móvel. De lá, o processo foi encaminhado ao Comando da Polícia Nacional na Centralidade do Kilamba”,explicou. “Se as pessoas indicadas para garantir a nossa segurança tiram a vida ao cidadão, com o tempo vamos ter medo de fazer denúncias às autoridades”, lamentou, acrescentando que a morosidade do processo e o “silêncio” das autoridades a deixa preocupada.

‘Devem ser responsabilizados pela formação da órfã até aos 18 anos’

Com os olhos molhados de lágrimas, a irmã da vítima relembrou a última conversa que teve com o malogrado (cassule de oito irmãos), horas antes de passar por uma cirurgia (na zona do abdómen) que poderia salvar-lhe a vida. O irmão lhe tinha pedido encarecidamente que cuidassem da sua filha de um ano e seis meses, reforçando esta solicitação ao médico que o atendia. Por esta razão, Josina Teixeira afirma que quando o caso chegar a tribunal, a família tudo fará para que os supostos agressores se responsabilizem pela formação da órfã até aos 18 anos. “O meu irmão amava muito a filha. Ele era responsável, trabalhava como secretário na Universidade Unibelas e perdeu a vida porque foi socorrer o vizinho”, sublinhou. A autopsia revelou que Mário morreu por traumatismo craniano.

Polícia confirma a detenção

O jornal OPAÍS procurou falar com a Polícia Nacional, para que esta instituição ao menos nos confirmasse a detenção dos cinco indivíduos envolvidos na morte de Mário Tacanha Dinis Teixeira. Contactada, Engrácia Costa, da Comunicação e Imagem do Comando Provincial, encaminhou o caso para Mateus Rodrigues, dado o facto de a Divisão do Kilamba estar sob a jurisdição deste último. Entretanto, Mateus Rodrigues, director do Gabinete de Comunicação e Imagem do MININT, ao ser confrontado com o caso, confirmou a detenção dos cinco militares, que neste momento encontram- se na Comarca de Viana.

Morto ao tentar acudir o vizinho

Segundo relatos contados à família por testemunhas, Mário Tacanha Dinis Teixeira, também conhecido por “ Man Poca” encontrava-se na sua residência, no bairro Bela Vista, a ver televisão, por volta das 19 horas do dia 12 de Dezembro, quando foi chamado por amigos para socorrer um vizinho que estava a ser agredido pelos supostos militares. “O vizinho estava a ralhar à irmã de 14 anos que namorava com um militar muito acima da sua idade. Um deles ouviu e foi chamar os outros seis para o espancarem”, explicou, acrescentando que por esta razão os vizinhos foram chamados a intervir. Na tentativa de apaziguar os ânimos, Mário foi atingido com um bloco de cimento na testa, pelo que não resistiu e caiu desmaiado.

Não satisfeitos, os agressores continuaram a espancá-lo, pisando-o e arrastando-o até às imediações de uma igreja próxima de sua casa. Lá foi reconhecido por dois jovens que o colocaram num carro de mão e transportaram-no a casa de sua mãe, que vive a poucos metros. Por ser tarde, e por terem tido dificuldades de transporte, Josina Teixeira afirma que o seu irmão só recebeu assistência médica na manhã do dia seguinte, no Hospital Maria Pia, após lhe ter sido negado o atendimento no Hospital Américo Boavida e no Hospital Geral de Luanda. Entretanto, os esforços envidados não foram suficientes para salvar a vida do jovem, que entrou em coma no dia 14 de Dezembro, após a intervenção cirúrgica e não mais acordou.