Médicos do Ebo reclamam por subsídio de isolamento

Os poucos médicos que asseguram o Hospital Municipal do Ebo, província do Cuanza-Sul, exigem ao Estado que lhes seja pago o subsídio de isolamento, uma vez que exercem as actividades em zonas recônditas e carenciadas

Um grupo de médicos entrevistados pelo jornal OPAÍS, destacados naquele município, reclama pela falta de subsídio de isolamento, uma vez que exercem as suas funções distantes da cidade e de seus familiares. A directora clínica do Hospital do Ebo, Claudeth Madeira, que trabalha neste município há mais de seis meses, naquela que diz ser a sua profissão de sonho, é um dos médicos que gostaria de ganhar o subsídio de isolamento. “Cheguei de Cuba e fiquei a fazer o estágio na província da Huíla, uma vez que sou natural desta mesma província, mas surgiu-me a oportunidade de trabalhar aqui no Cuanza-Sul , mais propriamente neste município e aceitei o desafio”, conta.

A médica de 25 anos concorreu no último concurso público do MINSA e espera a sua efectividade neste município. Quer permanecer ali, também porque aprendeu muito com os colegas e tem ganhado muita experiência com os trabalhos que desenvolve na região, mas é de opinião que se dê o referido subsídio. “Realmente, é complicado deixar a família, mas é necessário, se queremos salvar vidas. A profissão fala mais alto e estou a gostar de estar aqui, mas não ganhamos o subsídio de isolamento. Não me é dado esse subsídio e sei que os outros médicos também não têm e é algo que nos inquieta e gostaríamos que fosse resolvido, porque estar distante da família, sem nenhuma motivação, complica ainda mais a situação”, disse.

Médico que trabalha na cidade ganha o mesmo que o que está fora

A médica Joana Guiné, proveniente da província de Malanje, partilha a mesma opinião. Ela deixou marido e filhos, há três meses, para trabalhar nos confins do município do Ebo. Conta que não é fácil, mas por ser uma a profissão que escolheu por amor, tem sabido gerir. Com o apoio do marido vê as coisas mais fácies, pois este muitas vezes viaja para vê-la e matar a saudade. Embora seja bom trabalhar com a sua equipa médica, acha que seria melhor se tivessem pelo menos o subsídio de isolamento. “Não é justo que um médico que trabalha na cidade ganhe o mesmo salário que o que trabalha distante. Nesse momento temos duas casas, uma em que está a família e outra em vivemos. Para além disso, temos de pagar o transporte para vermos os nossos familiares e ganhamos o salário normal de todo o médico. Por isso temos médicos a desistir.

Gostaríamos mesmo que o nosso Governo revisse esta situação”, defende. Trabalhar neste município é ficar distante de tudo o que a ciência tem de novo e daquilo que tem a ver com aparelhos e meios de diagnóstico, segundo a médica Polónia Zau. Significa enfrentar os desafios e tentar superar os obstáculos com aquilo que se tem em mãos. A médica, que trabalha naquele município há três anos, vem da província de Benguela e já era funcionária do Ministério da Saúde naquela província havia 15 anos. Abraçou o desafio de trabalhar no Ebo à convite do administrador municipal e já foi chefe de Repartição da Saúde, cargo a que posteriormente veio a renunciar. “Temos no nosso sistema de saúde médicos que estão a ingressar agora e têm um salário melhor que o nosso. Todos exercemos as mesmas funções, mas temos a questão de trabalharmos distante das famílias e distante daquilo que muitos chamam de civilização, e nem por isso as pessoas têm em conta esse pormenor que faz grande diferença naquilo que são os salários dos funcionários”.

Disse ainda que, apesar de o município ser potencialmente agrícola, chegam a ter mais trabalho que os outros hospitais provinciais, que têm localidades com um nível de desenvolvimento maior. “Quando queremos comer em condições temos que nos deslocar até à sede provincial, porque o nosso município não oferece muita coisa, e com isso gastamos muito com o transporte. Quando precisamos do pão, carne, água potável, entre outros, a solução é sair”, reforçou. A entrevistada aponta ainda o facto de, por terem deixado as suas famílias, o salário ter de ser divido em duas casas, para suprir as necessidades dos familiares. Polónia Zau disse que nenhum médico trabalha por dinheiro e quando sai de sua casa para o trabalho não deve pensar no dinheiro, mas em salvar vidas.

Um incentivo para descongestionar as áreas urbanas

Em entrevista a OPAÍS, o jovem António Mateus disse que é da mesma opinião, que as médicas que todos os dias fazem um esforço para ajudar aquela população que parece esquecida no mapa tenham algum incentivo financeiro. Por essa razão, defende que o Governo deve criar incentivos à mobilidade para aliciar o trabalhador a mudar-se para um posto de trabalho de mais de 70 quilómetros de distância para descongestionar as áreas urbanas e evitar a falta de médicos. “Não sei se existe, mas deviam apostar na ajuda de custo, subsídio de deslocação, para compensar as despesas de mudança, subsídio de renda, garantias na transferência escolar dos filhos e preferência de colocação do cônjuge”, defende o munícipe. Também é de opinião que devia constar uma cláusula que diz que se este mesmo trabalhador desistir ou abandonar a colocação, sem ter completado cinco anos de serviço, deve reembolsar o Estado.

O Ebo é uma vila e município da província do Cuanza- Sul que tem uma superfície de 2.520 quilómetros quadrados e conta com uma população estimada em 182 mil 707 habitantes, distribuídos pela sede e 141 aldeias. É limitado a Norte pelo município da Quibala, a Este pelo município da Cela, a Sul pelo município da Conda e a Oeste pelos municípios do Amboim e Quilenda. Administrativamente, o município do Ebo divide- se em três comunas, nomeadamente a sede, o Conde e Cassanje e a povoação administrativa da Chôa.

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