Jovens Khoisan: “O Governo desviou os nossos sonhos”

A juventude é uma fase da vida em que cada indivíduo traça os caminhos para alcançar as metas desejadas. A formação profissional ou académica é, inequivocamente, a estrada para a concretização deste desiderato na vivência de todos os angolanos

POR: João Katombela, na Huíla

O Governo angolano tem levado a cabo uma série de projectos de inserção das várias comunidades San na vida produtiva um pouco por todo o país, na província da Huíla, estas comunidades encontram- se distribuídas nos municípios da Matala, Kuvango, Quipungo, Gambos e Cacula. No município de Quipungo, a 125 quilómetros da cidade do Lubango, concretamente na localidade da Derruba, na comuna de Chicungo, existe uma comunidade San de 250 membros, cuja maior parte é composta por jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 35 anos. No âmbito do programa de reinserção na vida produtiva, o Governo, com ajuda dos seus parceiros, construiu na localidade uma escola do Ensino Primário para garantir a formação das crianças desta comunidade.

Os jovens da comunidade Sandizem estar agastados com as promessas feitas pelo Governo e que até ao momento nenhuma delas foi cumprida para a sua alegria, eles que vêm o seu futuro ameaçado. Entre as várias promessas, segundo conta o jovem Máquina, de 22 anos de idade, constam a formação em cursos profissionais como a mecânica e a agricultura. “Eu só estudei até a 6ª Classe, mas o Governo disse que poderia nos colocar numa escola onde pudéssemos fazer cursos de mecânico e agricultura, mas até hoje não estamos a ver nada”, disse.

Falta de Bilhete de Identidade impede continuação dos estudos

Os jovens da comunidade San na localidade da Derruba enfrentam inúmeras dificuldades, como a falta de vestuário e de alimentação, mas o que mais preocupa é a falta de Bilhete de identidade. A falta deste documento de identificação pessoal faz com que muitos destes jovens interrompam a sua formação académica, já que nem mesmo cédula pessoal possuem. Para se alterar esta triste realidade que os coloca à margem da vida, os jovens da comunidade San pedem que se instalem na localidade postos móveis de emissão de cédulas pessoais e Bilhete de Identidade. “Eu estudava, mas agora não estudo, mas fiz a 6ª Classe e aprovei para a 7ª, como não tenho bilhete não posso estudar, mas se eu tivesse poderia continuar a estudar até um dia ser director da escola”, contou Matias Kavili, de 20 anos. Apesar das dificuldades que esta nova geração da comunidade San vive, existe no seio deles uma enorme vontade de lutar para a sua formação, muito embora afirmem que os apoios do Estado não vão ao encontro das suas reais necessidades.

Nos falam mal por sermos diferentes”

Aos inúmeros problemas associa-se o bullying a que muitos jovens são submetidos durante a convivência com os Bantu nas escolas e até mesmo no convívio social. Por esta razão, Evandro Joaquim, defende que se construa uma escola para albergar apenas os membros da comunidade San, já que um dos motivos da desistência tem sido a discriminação. “Nós queríamos que o Governo nos ajudasse com uma escola onde possamos estudar, porque nos falam mal, dizem que nós somos diferentes! E não só isso, o Governo mandou para aqui uma comissão que nos disse que cada jovem podia escolher o curso que quisesse fazer, eu queria ir para a Escola de Condução, mas até hoje nunca mais voltaram, só agora é que estão a vir a nos dar charrua, eu não queria charrua, o meu sonho era conduzir um carro”, detalhou. Tal atitude discriminatória de alguns Bantu para com os membros da comunidade San não abrange somente os jovens, como também crianças que andam em escolas do Ensino Primário. “Os nossos filhos, num total de 13, frequentam a escola, mas encontram pequenos problemas como a discriminação dos colegas Bantu, que os acham de diferentes”, contou uma mãe.