A maka não está no passaporte

Aqueles que são o que sobra da nossa classe média, que também nunca foi uma estrutura consolidada, estão agora a reclamar da subida do preço do passaporte. Num primeiro momento pode parecer uma reclamação injusta de uns quantos privilegiados, já que uma imensa maioria de angolanos nem sabe o que é um passaporte. Contudo, vendo bem as coisas, a reclamação nem é pelo preço apenas do passaporte, se fosse apenas isso, a mentalidade da nossa classe média e também a da alta até aplaudiria, tão ciosas dos seus privilégios e exclusividades. Mas não, o que está a começar a doer é a soma dos apertos. E a tudo isso se junta o secar de algumas torneiras de dinheiro. A subida do preço do passaporte soma-se à dos combustíveis, dos alimentos e de serviços como os colégios e as clínicas. E ainda vêm aí as subidas dos preços da electricidade e da água. Isso para não falar do preço do dólar. Se o preço da magoga subiu, o do hamburger num determinado centro comercial do Morro Bento chega a quase quatro mil kwanzas. Sim, começa mesmo a doer. E, embora se diga o contrário, com a vinda do FMI a coisa tenderá a apertar ainda mais. E se classe media começa a gritar de dor o que interessa isso? Aparentemente nada. O problema é que não se trata apenas da dor, é da morte. A nossa classe média nunca foi grande e muito menos sólida, porque foi sempre improdutiva. Com os apertos, começa a diminuir e começa a aumentar o número de pobres. Alguns disfarçarão durante algum tempo, mas a queda é inevitável, se se mantiver o rumo das coisas.