Estudantes da UAN reclamam de poucas aulas de línguas nacionais

No ano lectivo passado os estudantes do curso de Línguas e Literaturas Africanas, da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, tiveram apenas 42 aulas da disciplina de Práticas e Línguas Angolanas, dadas uma vez por semana, em 15 minutos

Os estudantes do curso de Línguas e Literaturas Africanas da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto queixam-se do pouco tempo das aulas administradas ao longo do ano lectivo 2018. Numa altura em que se defende as raízes e a valorização, bem como a divulgação das línguas nacionais, o pouco tempo de aprendizado que têm tido, segundo os estudantes, não permite que muitos deles consigam realmente comunicar falando ou escrevendo em alguma língua dos povos de Angola.

Acreditam que a língua nacional é um dos patrimónios do país, faz parte da cultura, pelo que quando não lhe é dada o devido espaço o indivíduo facilmente é aculturado, como tem acontecido com muito dos angolanos. “Um facto que ocorre no nosso curso e que é preocupante é que a disciplina da Língua Inglesa tem mais tempo que a de Línguas Nacionais, isto é, são seis tempos por semana, mas as línguas nacionais apenas uma vez por semana”, reclamam os estudantes, que no ano lectivo passado tiveram as línguas Kimbundu, Umbundo, Kikongo e Kocwe, com 15 minutos de aulas.

Embora os estudantes tenham reconhecido que a Faculdade de Letras tem poucas salas de aulas, não entendem esta política de terem poucas aulas em línguas nacionais, tendo em conta que se formam no curso de Línguas e Literaturas Africanas. “Os professores asfixiam-se com o tempo e consequentemente o curso em si. Pelo facto, apelamos à direcção da Faculdade e ao departamento do curso no sentido de se rever a carga horária da disciplina de Práticas de Línguas Angolanas”, exortam.

Reclamação considerada justa

Para o chefe do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, Afonso Teca, a reclamação dos estudantes é justa. Outrossim, lamenta o facto de muitos destes estudantes verem a entrada na faculdade como a oportunidade para aprender uma língua nacional ou estrangeira. Apesar de não ter conhecimento do tempo disponibilizado por cada professor de língua nacional, porque está no departamento como responsável apenas há dois meses, Afonso Teca garantiu que, se o tempo de 15 minutos for real, haverá necessidade de rever esta situação, no sentido de aumentar. No seu entender seria bom que as aulas práticas tivessem mais tempo. Mas, infelizmente, assim não acontece, e acredita que esta situação ocorre devido à falta de salas de aulas também. Sendo que no período nocturno a instituição foi obrigada a alugar salas anexas para colmatar as necessidades.

Professores partilham o tempo

O chefe de Departamento explicou ainda que os professores que leccionam línguas nacionais partilham o tempo. Por exemplo, “o professor de uma determinada disciplina tem 45, 90 ou 135 minutos, o mesmo tempo é dividido pelos que leccionam línguas nacionais, sendo que a turma é repartida em três ou quatro grupos”. Isto porque, na mesma turma, os estudantes têm diferentes escolhas da língua nacional que querem estudar, pelo que é repartida em função da língua e são administradas no mesmo período de tempo e nesta divisão. Apesar de estar apenas há dois meses como chefe de departamento, Afonso Teca disse conhecer bem a área, pois lecciona na UAN desde 2006 e considera o departamento que dirige como mãe, pelo facto de ser o local de vonde partiram vários cursos que constituem a Faculdade de Letras.

“A instituição lecciona línguas africanas na perpectiva linguística, requerendo o estudo científico das línguas e não como o estudo pedagógico. Todos os formados nesta área do saber podem trabalhar dentro e fora do país, sem obstáculos. Sou de opinião que os candidatos venham com o conhecimento ou falando fluentemente alguma língua nacional e nós vamos apenas ensinar a ciência”, defende, Afonso Teca. O grau de licenciatura que os estudantes atingem depois de terminar o curso é igual a todos e, nesta área, tem várias opções de trabalho, podendo-se ser intérprete, jornalista, tradutor, guia turístico, assessor de serviços culturais nacionais e internacionais, investigador, entre outros. Dadas as dificuldades que muitos estudantes apresentam, Afonso Teca é de opinião que voltassem ao sistema antigo, em que os alunos eram submetidos a teste oral de uma língua nacional que domina (Kimbundu, Kikongo, Umbundo, Kocwe, Nganguela), assim como para os cursos de Francês e Inglês.

Perto de 150 vagas estão disponíveis este ano

Quanto o número de vagas disponíveis para o presente ano lectivo, Afonso Teca disse estarem 135 vagas. Sendo que para cada turno 45 estudantes, perfazendo assim uma turma para manhã, tarde e noite. Sobre a aderência dos estudantes ao curso de línguas e literaturas africanas, houve uma baixa, comparando com o ano passado, e o entrevistado acredita que a situação deve-se ao facto de ser pouco publicitado ou divulgado, tanto o curso, quanto as diferentes áreas de trabalho que o licenciado pode actuar no meio social.

O chefe de departamento do curso de línguas e literaturas africanas apelou aos candidatos ao ensino superior a aderirem à área que dirige, pelo que, tal como os outros, o curso também é de prestígio e contribui para o desenvolvimento do país. “Convidamos os jovens a optarem pelo curso, não se vão desiludir”, garantiu. Para dar a conhecer as suas valências, o presente ano a direcção visitará diferentes instituições de ensino do IIº Ciclo. O curso de Línguas Literaturas Africanas da Faculdade de Letras também tem como objectivo resgatar, defender e difundir a entidade africana como Língua, literatura, dança, entre outros aspectos culturais. Pretendem ainda promover e preservar a identidade africana, em todas as suas formas, respeitando o pluralismo das expressões.