Um milhão de angolanos afectados pela seca no sul

A alteração climática tem afectado os meios de subsistência da população rural no país. Segundo um estudo do FRESAN, a situação de seca afecta pelo menos um milhão de angolanos

Mais de um milhão de angolanos estão a ser afectados gravemente pela seca que perdura há quase dois anos no Sul do país, alertou um responsável do Programa de Fortalecimento da Resiliência e da Segurança Alimentar e Nutricional em Angola (FRESAN). Segundo um estudo do FRESAN, a situação de seca nas províncias da Huíla, Namibe e Cunene afecta pelo menos 1.139.064 pessoas na região.

Os números representam 99% da população rural no Namibe, 97% no Cunene e 12% na Huíla. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) indicam que a província da Huíla é habitada por cerca de 2,7 milhões de pessoas, a do Cunene por um milhão e a do Namibe por 470 mil. Segundo o coordenador do FRESAN, Matteo Tonini, a alteração climática têm afectado, de forma negativa, os meios de subsistência da população rural no país, “aumentando, significativamente, os níveis de vulnerabilidade”. Matteo Tonini afirmou que a seca contribuiu para a redução da produção alimentar e dos rendimentos das famílias afectadas, que viram dificultado o acesso a alimentos e, por conseguinte, agravado o estado nutricional e a prevalência da subnutrição crónica em crianças menores de cinco anos.

“A situação é particularmente preocupante se atendermos aos modelos climáticos para os próximos anos, que preveem mudanças sazonais no regime de precipitação, maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, expansão das regiões áridas e semi-áridas e um aumento da temperatura do ar e do mar”, disse. Confirmando os alertas da FRESAN, a responsável pela área de Pediatria do Hospital Geral de Ondjiva (Cunene), Lúcia de Fátima, indicou que a unidade de saúde registou em 2018 a morte de 38 crianças menores de cinco anos por malnutrição severa entre as 243 assistidas, mais seis do que em 2017.

Lúcia de Fátima indicou que a maior parte das crianças com malnutrição severa é oriunda das zonas rurais e que muitas delas chegam já num estado avançado de malnutrição, uma vez que os pais optam em primeira instância por levar os menores ao tratamento tradicional, acabando assim por debilitar ainda mais o paciente. A pediatra angolana reprovou esta atitude e exigiu dos pais e encarregados de educação maior responsabilidade nos cuidados médicos a terem com os menores.

Lembrou que a malnutrição se caracteriza por emagrecimento progressivo da criança, provocado pelo desmame precoce, diarreia e fraca alimentação, associada a outras “doenças oportunistas”, como as respiratórias e infecções. No estudo, o FRESAN lembra que no ano passado assinou uma convenção de financiamento com a Comissão Europeia (CE), através do Instituto Camões, para mitigar os efeitos da estiagem no seio das populações assoladas pela crise alimentar, num valor de 65 milhões de euros. O financiamento contribuirá para a definição da estratégia para subvenções através de recolha de informação e opiniões sobre os melhores modelos a desenvolver.

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