Vicente Soares:”Quiçama precisa de alunos para preencher cerca de três mil vagas

No município da Quiçama não há registo de crianças fora do sistema de ensino. Pelo contrário, há vagas por preencher (2715), mesmo com alunos vindo de outros pontos de Luanda. Em entrevista exclusiva a OPAÍS, o administrador municipal, Vicente Soares, falou ainda das vias de acesso, que têm dificultado o desenvolvimento do município e do sector da Saúde que se debate com falta de técnicos, pois, apesar de terem nos hospitais os equipamentos que precisam, não há recursos humanos que os ponham a funcionar

Alguns dos municípios de Luanda debatem-se, nesta altura do ano, com falta de salas para receber mais alunos, bem como a carência de docentes que o MED tenciona colmatar com o concurso público. Qual tem sido a maior preocupação do sector da Educação no município da Quiçama?

A nossa maior preocupação não tem sido o número de salas de aulas, mas sim em manter os professores nestas localidades, porque muitos desistem de dar aulas ao longo do ano devido à distância e às condições que encontram nas comunas. Temos também dificuldades em manter os alunos nas salas de aulas porque muitos desistem pelos mesmos motivos. Para inverter o quadro, estamos a tentar concentrar as populações, mas não tem sido fácil porque elas estão divididas em sobados e cada soba quer manter a sua autoridade na sua localidade. Entretanto, fruto de muita sensibilização, muitos estão a decidir juntar-se. Para além desta solução, pensamos que devemos construir escolas com residências para professores.

Ainda há casos de crianças a estudar debaixo de árvores?

A nível do município não temos nenhuma criança que estuda por debaixo de árvores, muito menos fora do sistema de ensino. Temos 2715 vagas para serem preenchidas, o que temos registado é que as crianças da localidade não preenchem todas as vagas, pelo que temos recebido alunos vindos de outros municípios da cidade de Luanda. Por outra, o nível de desistência é alto, como disse, tanto por parte dos professores quanto por parte dos alunos, por causa das condições de acesso. Temos inclusive uma escola devidamente apetrechada mas com falta de alunos e de professores.

Quantas escolas tem o município e qual é a previsão para este ano?

A nível do município temos 24 escolas. Na Muxima temos sete, sendo cinco do Primário, uma do I Ciclo e uma do II Ciclo; no Cabo Ledo, cinco do Primário e uma do I Ciclo; no Mumbondo temos três escolas do Primário e uma do I Ciclo; Demba Chio tem duas escolas do Primário e uma do I Ciclo. Já no Quixingue temos três escolas do Primário e uma do I Ciclo. Por agora, a nossa preocupação prende-se em substituir as três escolas primárias de pau-a-pique que temos no município, o que não foi possível até ao momento porque temos encontrado constrangimentos em levar material de construção, devido ao mau estado das vias de acesso. No ano passado construímos uma, e este ano serão construídas mais cinco escolas.

A merenda escolar é uma realidade na Quiçama? E como está o processo de fornecimento de bens básico à população?

É sim. O programa da merenda escolar correu bem, ao longo do ano tivemos 14 escolas que beneficiaram do mesmo. Mas pensamos que podemos melhorar o programa utilizando produtos locais e envolvendo as comunidades locais no fornecimento. Quanto aos bens básicos, importa destacar o fornecimento de energia eléctrica na sede municipal, Vila da Muxima, com o acréscimo de mais um grupo de geradores na central térmica, perfazendo assim dois. Ainda na sede, demos início à construção de uma Estação de Tratamento de água cujo término das obras está previsto para o presente ano. A nível da comuna do Cabo Ledo, continuamos com o processo de instalação de geradores, mas encontramos constrangimentos ao fazer chegar luz eléctrica às residências, aresta que a ENDE procura solucionar. Ainda nesta senda, está em curso a construção de uma central térmica, mas depois de concluir a montagem dos equipamentos, acredito que vamos continuar com os mesmos problemas (o de fazer as ligações domiciliares).

O município já beneficia do fornecimento da água potável?

Quanto ao fornecimento de água potável, tem sido um dos grandes problemas a nível do município da Quiçama. A par da luz eléctrica, ou seja, o fornecimento dos serviços básicos tem sido um grande constrangimento, tendo em conta que o município é muito extenso. Sendo que é o maior município a nível da capital do país e quase o dobro da província de Cabinda, uma das preocupações que procuramos ver ultrapassada é a situação da população, que está dispersa em pequenos grupos e ocupando toda a extensão da municipalidade, tornando assim difícil a prestação de serviços básicos. A comuna de Cabo Ledo está localizada numa área que dista cerca de 40 quilómetros do Rio Kwanza, e 80 km do Rio Longa, apesar de ser possível o abastecimento de água potável nesta localidade, tem sido difícil devido à distância das fontes. Temos já projectos e empresa identificadas para transportar a água do Rio Kwanza para a comuna e um outro projecto de dessalinização, que só não será implementado por razões financeiras. Na sede da Muxima, está em construção uma nova estação de tratamento de água, sendo que a antiga funciona, mas com algumas dificuldades.

Como é feito o fornecimento de água potável às comunas?

Nas periferias, temos utilizado cisternas para a distribuição de água às populações, mas encontramos também dificuldades porque temos apenas duas e actualmente só uma funciona, tornando assim difícil o abastecimento do líquido precioso, principalmente na comuna do Cabo Ledo, que tem maior concentração populacional.

‘Falta de estrada separa o município do desenvolvimento’

Com a distância entre as comunas e o problema das vias como é que as preocupações dos munícipes chegam à Administração?

Todos os anos, com os responsáveis das diversas áreas e as suas respectivas equipas organizamos visitas a diferentes comunidades, mas somente em épocas secas, porque no período chuvoso há zonas em que o acesso terreste não é possível. Resolvendo a situação das vias de acesso que ligam as comunas até à vila sede, a Muxima, a Administração e os munícipes acreditam que as outras preocupações serão solucionadas, dentre elas a relacionada com a educação. Numa primeira fase precisamos de asfaltar 190 quilómetros para os considerarmos como via principal. Se tivermos o acesso Muxima – Demba Chio 55 km, Demba Chio – Mumbondo 45 km, Mumbondo – Quixinge 26 km, com estas vias em funcionamento as comunas ficam ligadas entre si, e tudo fica mais fácil, nas outras vias precisamos apenas de quites para nivelar os itinerários. Estas três comunas acima referidas, no período chuvoso apenas é possível a circulação se dermos a volta pela província do Cuanza-Sul ou Norte, caso contrário, só por via área ou de transporte marítimo. O município é constituído por cinco comunas, designadamente Muxima, Cabo Ledo, Demba Chio, Mumbondo e Quixinge.

Qual é a realidade do sector da Saúde?

Na Quiçama temos 21 unidades sanitárias, entre as quais um hospital municipal, dois centros de referência, um centro cirúrgico materno infantil, no Cabo Ledo, onde o bloco operatório não funciona por falta de técnicos. Para atender a população temos nove médicos. O maior constrangimento no sector da Saúde está nos recursos humanos, pelo que precisamos de mais nove médicos de diferentes especialidades, designadamente pediatria, genecologia e obstetrícia, medicina interna, cirurgião e 30 enfermeiros. Quanto às patologias mais frequentes na região são a malária, doenças respiratórias, diarreicas, febre tifoide e esquistossomose.

Que constrangimentos a crise económica tem trazido ao município?

O município da Quiçama é o menos desenvolvido da província de Luanda, e é o que recebeu até à presente data menos investimentos. Com a crise económica a situação piorou. Actualmente é o mais turístico, pelo facto de ter o Parque Nacional da Quiçama, o Polo Turístico do Cabo Ledo e o Santuário da Muxima. Os diferentes projectos turísticos que foram arquitetados não foram implementados devido à crise. O município também é potencialmente agrícola, mas as suas terras não são exploradas devido ao mau estado das vias de acesso. Não temos estradas que ligam as comunas à vila sede. Almejamos que este ano o quadro melhore, de modo a que executemos os projectos em carteira. Hoje, na Vila da Muxima, é possível ver o movimento de pessoas por conta dos autocarros da empresa AngoReal que começou a funcionar recentemente na localidade. Estamos a envidar esforços para termos também outras operadoras de transporte a circularem da vila para a comuna de Cabo Ledo.

Como avalia a situação da criminalidade no município?

Não temos registos de números elevados de crimes, pelo facto de termos pouca população. Temos cerca de 26 mil habitantes. As igrejas localizadas no município têm ajudado a sensibilizar a nossa juventude, assim como as diferentes associações da região que desenvolvem várias actividades, sobretudo culturais. Ainda se pode ver o respeito pelos pais e pelas autoridades tradicionais. Um facto que ocorre no município da Quiçama, os munícipes quando vêem o administrador, como sinal de respeito colocam-se em pé. O grande problema que temos é a invasão de terrenos da Cabala para a Muxima, pelo que temos a necessidade de evitar esta situação por ser uma zona que se encontra dentro do parque. A caça furtiva no Parque Nacional da Quiçama é o crime que merece mais atenção, e muitas vezes é cometido por indivíduos não residentes no município.

 

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