Yuri Quixina: “A economia de Angola nunca foi real, pois sempre foi artificial”

O professor de macroeconomia, Yuri Quixina concluiu que, doravante, a economia vai tomar um rumo real com o acordo com o FMI que vai pôr fim às subvenções. O Economia Real desta edição analisou vários temas que marcaram a semana económica

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O BNA promove uma conferência para analisar estratégias de financiamento à economia visando o crescimento económico sustentado, é esse o caminho, a seu ver?

Claro, não há crédito ao sector privado e o banco central está preocupado com a situação. Conta com experiências de outros bancos, como o de Portugal. O sistema financeiro angolano é quase um irmão siamês do sistema português. Os problemas do malparado de Portugal são idênticos aos de Angola. Em Portugal também se concede créditos aos amigos, há muita ligação entre a política e o sistema financeiro. Estamos a ir buscar ideias num país com problemas iguais aos nossos. Do ponto de vista de solução, Portugal tem muitos problemas: o dossier BES, o Banif…

Qual seria a melhor escola aconselhável?

Numa conferência todas as experiências são interessantes. Penso ser muito importante discutir os constrangimentos e soluções para financiar o sector privado. Existem países que criaram uma plataforma de recuperação de crédito, e nós uma figura como recredit, uma criação angolana que considero dos grandes erros que cometemos.

Como se devia resolver efectivamente o problema do acesso ao crédito para o sector privado?

Penso que Angola deve evoluir para a banca de investimento, para financiar as empresas e essas expandirem os seus investimentos. E a acção do Governo deve ser reduzida para não competir com as empresas na busca de financiamento no sector financeiro.

A China-Lusophone Brief, uma plataforma de consultoria, concluiu que o esforço do Governo angolano em atrair investimento, por via do acordo com o FMI pode resultar, mas as empresas e a população vão sentir o aumento de preços dos bens e serviços. Concorda?

Trata-se de uma agência chinesa que acompanha as economias lusófonas com as quais a China tem acordos, e enviou uma nota aos seus clientes sobre a situação macroeconómica angolana. A agência faz uma análise muito realista. Primeiro, alerta que, com o acordo do FMI as subvenções passam para a história e acertou, os preços serão reais e já o estamos a ver nas taxas para a emissão de passaportes. O segundo elemento referido pela agência é o de trazer a economia real, porque a economia de Angola nunca foi real, foi sempre artificial, muito nominal. O Estado é que fazia tudo na economia.

Se os cidadãos soubessem mais sobre o fim das subvenções teriam outra reacção?

A reacção seria outra. É o que venho defendendo aqui no programa, que as medidas devem ser apresentadas com persuasão, antes de serem implementadas. Por outra, deve-se melhorar a qualidade e se há serviços que o Estado não consegue fazer deve privatizar. Para o caso dos passaportes, por exemplo, se custa agora acima de 30 mil Kwanzas a sua emissão deve ser célere.

Os principais decisores da política e da economia mundial estão reunidos em Davos, com a guerra comercial entre as preocupações. Essa elite pensa o mundo, de facto?

A ideia é pensar o mundo, mas o importante não é a boa intenção, mas os resultados. As conferências de Davos perderam muito peso desde a crise de 2008, mas continuam a ter a sua importância. Trump e Th eresa May são os grandes ausentes devido a problemas internos nos seus países, um com o shutdown e a outra com o Brexit. Na minha perspectiva não se espera grandes impactos.

O Presidente da República, João Lourenço, discursou nos Emirado Árabes Unidos, na cimeira sobre crescimento de África, onde, entre os vários assuntos, realçou a necessidade de o continente identificar áreas onde falhou, sabe onde falhou?

Antes de tudo, a novidade no discurso do Presidente foi falar da demografia, tratando-se de um continente com taxa de fecundidade alta. O Presidente responde que uma das falhas do continente é o facto de não aproveitar bem os seus quadros… o individualismo e a falta de industrialização. Entretanto, a meu ver, África não falhou, continua a falhar.

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