“Se flávio errou, terá de pagar.” A ligação entre o Bolsogate e a execução de Marielle

Gabinete de flávio Bolsonaro, já sob investigação da Polícia por suposta lavagem de dinheiro, ainda abriga familiares de suspeitos de envolvimento na execução da vereadora. O pai, Jair, diz que ele deve pagar por eventuais erros

POR: João de Almeida monteiro,
em São Paulo/ Diário de Notícias

Filho de Bolsonaro diz que acusações de corrupção são ataque ao pai O gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde o hoje eleito senador desempenhou funções de deputado estadual nas últimas legislaturas, é uma caixa de surpresas diárias. Ao “Bolsogate”, ou “Coafgate”, como ficou conhecido o caso de suposta corrupção e lavagem de dinheiro cujo pivot é o seu assessor Fabrício Queiroz juntam-se agora os últimos desenvolvimentos da investigação sobre a execução da vereadora Marielle Franco, a 14 de Março do ano passado. Familiares de envolvidos directa ou indiretamente no crime, de acordo com a Polícia carioca, também pertenciam ao gabinete do filho mais velho do Presidente brasileiro. Flávio fala em difamação. Jair Bolsonaro diz em Davos que se ele errou terá de pagar. Eis as perguntas (muitas) e as respostas (insuficientes) que o caso suscita:

O que é que a Polícia do Rio de Janeiro descobriu nas últimas horas sobre o as mortes de Marielle e do motorista Anderson Gomes?

A pretexto de uma acção sobre negócios imobiliários ilegais, a Polícia prendeu membros de uma milícia que opera em bairros da zona Oeste do Rio de Janeiro provavelmente envolvidos na execução da vereadora e do seu motorista.

Quem são eles?

São cinco membros do braço armado da milícia, conhecido como “Escritório do Crime”, que assassinava por encomenda de políticos e de chefes do jogo ilegal, segundo a Polícia: Maurício Costa, conhecido como Coroa, Laerte Lima, Aurélio Carvalho, Manoel Batista, cujo nome de guerra é Cabelo, e Ronald Pereira, major da Polícia Militar chamado de Tartaruga.

Que ligação têm os detidos com Flávio Bolsonaro?

Flávio Bolsonaro propôs uma moção de louvor na Assembleia Legislativa do Rio ao major Ronald, ou Tartaruga, em 2004. A Polícia considera Ronald uma testemunha fundamental no caso de Marielle.

Além dos cinco detidos, a Polícia procura mais suspeitos de integrarem o “Escritório do Crime”?

Sim, há oito membros considerados foragidos, entre os quais Adriano Nóbrega, o Gordinho, considerado líder do grupo.

E qual a ligação de Nóbrega com o filho do Presidente?

A mulher dele, Danielle, e a mãe, Raimunda, foram funcionárias do gabinete de Flávio Bolsonaro. Segundo o próprio, foi o seu assessor Fabrício Queiroz quem tratou das contratações.

Quem é Fabrício Queiroz?

Amigo de longa data de Jair Bolsonaro e família, Fabrício causou suspeitas no órgão de controlo de operações financeiras brasileiro, o COAF, por ter lidado com verbas muito acima das suas posses de Janeiro de 2017 a Janeiro de 2018. Segundo a investigação, entre as transferências efectuadas estava uma de 24 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro, primeira-dama do Brasil, além de dezenas de depósitos de outros funcionários do gabinete de Flávio. A principal suspeita é que o então deputado estadual fizesse o que ficou conhecido por “mensalinho”, prática em que assessores fantasma devolvem os seus salários, ou parte deles, ao político que os contratou.

E havia assessores fantasma?

Ao que tudo indica sim: de familiares de Queiroz, como a sua filha Nathalia, conhecida por trabalhar como personal trainer de actrizes da TV Globo a tempo inteiro, a um funcionário, Wellington Servulo, que mesmo contratado pelo gabinete passou anos a morar em Portugal. Eles, assim como Raimunda, a mãe do chefe do “Escritório do Crime”, estão entre os assessores que transferiam os seus vencimentos para Queiroz.

O que diz Queiroz sobre isso?

Ao Ministério Público, nada. Não prestou esclarecimentos sempre que foi chamado, alegando doença. Numa televisão, o SBT, explicou que as elevadas quantias que movimentava se deviam a negócios de compra e venda de automóveis. Sobre a contratação da mãe e da mulher do chefe do “Escritório do Crime” afirmou que sugeriu a sua contratação para ajudar a família, uma vez que Gordinho, na altura, estava preso.

E Flávio?

Ao Ministério Público, nada. Faltou à audiência com as autoridades e depois solicitou que o assunto transitasse para o Supremo, uma vez que foi eleito senador – mas só toma posse a 1 de Fevereiro – e tem direito a foro privilegiado. Sobre os familiares de Gordinho, responsabiliza Queiroz pela contratação e sobre a homenagem a Tartaruga lembra que prestou centenas de outras a agentes de segurança.

E o presidente?

À margem do fórum de Davos disse em entrevista à Bloomberg que se o filho errou, tem de pagar pelos seus actos. “Se Flávio errou, ele terá de pagar e eu lamento como pai”, declarou o Presidente brasileiro, em declarações àquela agência noticiosa internacional.

A Polícia trabalha com a possibilidade de haver relação entre o gabinete de Bolsonaro e a morte de Marielle e do seu motorista?

Não, qualquer ilação nesse sentido não passa neste momento de especulação.

Mas o clã Bolsonaro tem relação com as milícias?

Apesar das milícias serem grupos paramilitares que, em troca da oferta de segurança às comunidades, cobram serviços, quase sempre ilegais, de luz, de gás, de água, de Internet, de TV por cabo e, no caso daquelas em causa neste caso, imobiliários, a família Bolsonaro sempre foi simpática à sua acção. Ao longo da carreira, Jair Bolsonaro elogiou não só as milícias como até grupos de extermínio.

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