Cinco pessoas suicidaram-de Julho a Dezembro no Ebo

Os suicídios foram registados no ii semestre de 2018 em jovens dos 18 aos 25 anos de idade, tendo a comuna da Sanga registado dois suicídios por envenenamento, Capuene, dois por enforcamento, sendo um do sexo feminino e Cassange, um com objecto cortante (lâmina), perfazendo um total de cinco casos

A forma como muitos jovens, desencantados com a vida, põem fim à sua presença no mundo, semeando dor e luto no seio das pessoas que lhes são próximas, “empurra” o município do Ebo, na província do Cuanza-Sul, para o grupo das localidades do país onde os níveis de suicídios afligem as autoridades. Em entrevista exclusiva a OPAÍS, Rui Feliciano Miguel, administrador municipal, mostrou- se preocupado com o fenómeno sociológico que atinge a sua jurisdição, onde alguns jovens têm o suicídio como uma prática normal.

As motivações para tal vão das mais simples às mais complexas, porém, nenhuma delas constitui motivo, aparentemente, que as justifique. Os crimes registados no ano transato foram motivados por desentendimentos entres os malogrados com os seus pais, namorada ou mulher. Rui Miguel explicou que alguns deles, por se desentenderem com a namorada, optaram por suicidar-se por envenenamento, usando uma substância chamada ‘POLYTRIN’, (inseticida- acaricida, indicado para o controlo de pragas nas agriculturas).

Outros, sem que as pessoas com quem residiam se apercebessem, enforcaram-se. A par desses, um dos que mais chocou as autoridades foi a forma como um deles optou por cortar o seu próprio pescoço com uma lâmina. “São crimes desta natureza que me preocupam. Por isso, gostaria de pedir aos sociólogos e psicólogos que façam investigações relativamente a este campo. Nós estamos abertos”, frisou. Este fenómeno ocorre numa localidade com baixo índice de criminalidade. Onde os munícipes sentem-se seguros e as acções dos polícias visam atender casos pontuais que têm ocorrendo nos 2 mil e 520 quilómetros quadrados que compõem o município do Ebo. A título de exemplo, Rui Miguel disse que num rácio de 0 a 10, os níveis de delinquência se enquadram no número dois. Nem as fronteiras a Norte, com o município da Quibala, Sul, com os municípios da Conda e Seles, a Leste, com o município da Cela, e a Oeste, com os municípios do Amboim e Quibala, constituem motivos de preocupação, pois, não há imigração de delinquentes.

Rico em recursos naturais

Com mais de 182 mil e 707 habitantes, Ebo é o quarto município mais populoso da província do Cuanza-Sul e encontra-se num campo estratégico, de acordo com o seu administrador. O município apresenta solos férteis para a agricultura, agropecuária e ricos em recursos hídricos. Nele se produz várias culturas como o café, milho, feijão, mandioca, batatas-doce e rena, ginguba, citrinos e variadíssimos tipos de frutas. Os recursos hídricos que possui, como os rios Queve, ou Cuvo, Nhia, Mugige, Kussoi, Tunga, entre outros, proporcionam potenciais capacidades de irrigação e fertilidade às áreas cultiváveis. A agricultura e a pecuária constituem os principais sectores produtivos do município do Ebo, no entanto, face às dificuldades financeiras que o país vive, têm atraído maioritariamente as mulheres. Voltando-se para potencialidades turistas, Rui Miguel descreve a sua circunscrição como uma zona com diversos locais e monumentos históricos e uma população bastante acolhedora. Os índices de natalidade e mortalidade infantil e de adultos, não estão identificados em pormenor, pelo facto de a maior parte dos partos e óbitos ocorreram ao nível domiciliar, por razões de ordem cultural e de desenvolvimento socioeconómico do município. Porém, esforços estão sendo envidados para se inverter este quadro, segundo Rui Feliciano Miguel.

Nem tudo são rosas…

À semelhança do que acontece em outras partes do país. No Ebo a insuficiência de escolas e de professores e de postos de saúde também é uma realidade. A falta de saneamento básico, energia eléctrica, transportes públicos e água potável figuram entre os problemas que os munícipes esperam ver resolvidos. Um dos maiores desafios que a população enfrenta tem sido percorrer as vias degradadas que ligam as 141 aldeias à Vila do Ebo, capital do município, bem como às sedes das comunas do Conde, Cassanje e do Chôa à procura de serviços básicos, como assistência médica e medicamentosa. “O Ebo tem muitos problemas como qualquer outra sociedade, tem muitas situações intrínsecas dentro dela e que precisam ser desvendadas, mas, para tal, é preciso trabalhar em equipa para que esse segredo possa ser espraiado e as pessoas conheçam a sua realidade”, disse. No seu ponto de vista, o Ebo é o recanto das bandeiras de Angola, alegadamente por ter sido o nome atribuído a um navio e, actualmente, a um avião. Pelo que o seu nome é levado a toda a parte do mundo. “Nós enfrentamos dificuldade conjuntural, mas tem solução, desde que haja diálogo e boa vontade das pessoas, bem como recursos financeiros para que possamos ultrapassar essas dificuldades”, explicou.

Projectos do município

Neste momento, a atenção das autoridades está voltada à promoção na agricultura de sustentabilidade da comunidade, uma actividade que faz parte da cultura do povo. A par disso, segundo Rui Miguel, auguram que haja uma maior aposta na indústria transformadora dos produtos do campo, de moda a que se possa melhorar as condições de vida a população. “Uma boa agricultura precisa de boa água e a boa água precisa de boa energia. Então, esses conjuntos de equipamentos é que nos poderão proporcionar um futuro sustentável, com os desafios actuais vencidos”, disse. Por essa razão, o governante garante que estão a aplicar esforços para que todas as comunidades tenham água, um sistema de saúde aceitável e desenvolvimento condigno. Advogou a necessidade de se realizarem campanhas preventivas, e não curativas, para que as doenças sejam ultrapassadas, por via da sensibilização e mobilização das comunidades.

O sector da saúde regista algumas melhorias, com a chegada de vários médicos. “Recebemos mais quatro médicos e três dos que já se encontravam a trabalhar aqui, por motivos familiares, tiveram de regressar à Luanda. Todavia, temos alguns médicos a assegurar o município”, frisou. Garantiu que os profissionais têm condições de habitabilidade e funcionais e que contam com o apoio da Administração. De acordo com o gestor público, apesar da falta de fármacos, que considera ser um problema conjuntural do país, implementaram uma dinâmica que tem possibilitado que os pacientes não sintam tanto a sua falta. Entretanto, encontram dificuldades no pagamento aos fornecedores.

Professores em falta

Quanto ao sector da educação, o município foi contemplado com apenas uma terça parte da quantidade de professores que precisa para atender a procura. Carecem, no total, de 360 professores. a chefe da repartição municipal da Educação, Domingas Nacamuasse, em entrevista exclusiva aoPaÍS, disse que o sector que dirige comporta 40 escolas, destas, 37 do ensino primário e três do i e ii Ciclo. No entanto, a quantidade de escolas não é suficiente para acolher a quantidade de crianças em idade escolar, sendo que no total 14 mil 438 alunos ficaram de fora do sistema no ano lectivo passado. Em relação a este assunto, o administrador apontou como uma das causas o défice da falta de professores.

Em seu entender, se tiverem um incremento na quantidade de professores, poderão reduzir a cifra de crianças fora sistema de ensino no município, “porque debaixo de uma árvore ou numa capela dá-se um bom ensino de base”. “Continuamos a pedir ao Ministério da Educação que aumente a quantidade de profissionais nesta especialidade porque não haverá médicos, administradores, jornalistas, sociólogos e psicólogos se não tivermos professores. E tudo começa na base”, clamou. Em termos demográficos, disse terem uma população muito grande a nível da província e em franco crescimento, com um rácio de partos de, no mínimo, 12 por dia, a nível das comunidades, e de seis partos no hospital municipal. “É um crescimento muito elevado”, disse.

História do município do Ebo

O próprio e verdadeiro nome é Hepo, que significa “barriga Côncava” ou apertar o sinto no momento da fome, até que se crie condições, mas por consequência da colonização foi aportuguesado para Ebo. Com a população estimada em 182 mil e 707 habitantes, Ebo é um dos 12 municípios do Cuanza-Sul. administrativamente, o município divide- se em três comunas, nomeadamente a sede, o Conde, Cassanje e a povoação administrativa da Chôa, e um total de 141 aldeias. a população do Ebo é de origem Bantu, proveniente de Pungo-a- Ndongo, província de Malanje, que, no quadro da procura de melhores condições de vida e conquista de terras por volta do século Xvii, chefiada pelo caçador Kichipo Kia Ndie, se fixou na localidade de Cunda. Tinha como principal actividade a agricultura, pesca artesanal, caça e o artesanato. a língua falada é uma das variantes do quimbundo, o Ngoia. o regime alimentar baseia-se no funje com feijão, quisaca e outros.

 

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