Manif no Seixal: “queremos a polícia fora das nossas vidas”

concentração em frente à Câmara do Seixal começa tranquila, com manifestantes e polícias em número semelhante

POR: Carlos Ferro, Diário de Notícias

Marcada para as 15.30 de ontem, Sexta-feira, a manifestação contra o racismo convocada para o Seixal, distrito de Setúbal, e Portugal, na sequência dos incidentes entre Polícia e moradores angolanos do Bairro da Jamaica sofreu um atraso de meia hora, mas a concentração de manifestantes começou de forma tranquila em frente ao edifício da Câmara local. Cerca de 50 manifestantes marcaram presença, perante um aparato de segurança quase com o mesmo número de agentes policiais, com destaque para a presença da Unidade Especial de Polícia.

Os acessos à zona da Câmara foram fechados e várias barreiras colocadas junto à entrada principado edifício, para o controlo de uma manifestação que suscitou o interesse internacional, com alguns media estrangeiros presentes. Entre os manifestantes contavam- se vários elementos ligados à associação SOS Racismo, como José Falcão e o assessor do Bloco de Esquerda (partido político com representação parlamentar) Mamadou Ba, e podiam ler-se cartazes com frases de ordem como “Queremos a polícia fora das nossas vidas”, “Contra o racismo de Estado, punição de crimes”, “Racismo mata” ou “Queremos justiça”.

A revolta de Vicente, morador no Jamaica há 23 anos

De megafone em punho, o primeiro manifestante a tomar a palavra justificou a manif com “a violência policial que nos últimos anos tem afectado os bairros da periferia” e que teve o mais recente episódio no Bairro da Jamaica, no Seixal, com uma família angolana a queixar-se de intervenção policial violenta. Depois, foi a vez de Vicente, morador no bairro há 23 anos, dar o seu testemunho: “Estão a passar a ideia de que os polícias são sempre bons, o que não é verdade. Os polícias não foram recebidos à pedrada, como têm dito”, começou por dizer, queixando-se de que “as intervenções policiais no Bairro da Jamaica nunca são iguais às que são feitas noutros bairros”.

A actuação das forças policiais é o grande foco de revolta dos manifestantes. “Se a Polícia chegasse e cumprimentasse as pessoas para as identificar, seria também cumprimentada. Mas não é o caso. Quando chegam lá vão logo para a violência”, continuou Vicente, pedindo que “os polícias que agrediram barbaramente aquela família sejam castigados”. No final da intervenção de Vicente, ouviram-se as palavras de ordem desta manifestação: “Racismo nunca mais”, “Fascismo e racismo no pasará [não passarão]”, “Nem menos, nem mais, direitos iguais”. E o megafone passou de manifestante em manifestante, entre os que se quiseram fazer ouvir. “Isto não foi um caso isolado. Um polícia que pisa um cidadão no chão é um polícia de bosta”, disse um dos intervenientes.

Em foco, no meio desta agitação social provocada pelos incidentes no Bairro da Jamaica, ficou o dirigente do SOS racismo e assessor parlamentar do Bloco de Esquerda Mamadou Ba, que publicou um texto na rede social Facebook referindose à polícia como “a bosta da bófia”, suscitando várias reações críticas e até ameaças. Presente nesta manifestação no Seixal, Mamadou Ba disse ao DN que sente estar a ser isolado. “É triste, mas é verdade. Continuo permanentemente a receber mensagens a insultar-me e ameaçar- me. Não percebo porquê. Nunca imaginei que isto pudesse ganhar esta dimensão”, queixa-se. “Há figuras públicas que agora me transformaram num saco de boxe. Há até generais na reserva a apelar à minha expulsão do país. Como seu eu não pudesse exercer a minha cidadania”, disse, em referência.

família agredida e associação de moradores demarcaram-se do protesto

Este foi um protesto marcado por várias associações que quiseram mostrar o descontentamento que dizem existirem em relação à actuação da Polícia e ao racismo que garantem sentir. Apesar de surgir na semana da operação policial no Bairro da Jamaica, nem a família agredida, nem a associação de moradores estiveram envolvidos e presentes no protesto. A manifestação desta Sexta-feira marca o fim de uma semana de protestos e vandalismos na Área Metropolitana de Lisboa que se iniciaram após ser conhecido no Domingo (20 de Janeiro) um vídeo onde se vê uma operação da PSP no Bairro da Jamaica (Seixal) em que os agentes agridem elementos de uma família. Os desacatos começaram com uma rixa entre duas mulheres e uma delas chamou a Polícia.

Na sequência desse incidente um agente da Polícia e cinco moradores tiveram de receber assistência médica e um jovem foi detido e acusado de resistência e coação a funcionário, crime que pode ser punido com pena de prisão até cinco anos. Depois de serem conhecidas as imagens surgiram várias reações – políticas e de associações de defesa de imigrantes – e actos de vandalismo como incendiar caixotes do lixo e um autocarro (em Setúbal) e o arremesso de três cocktail molotov contra a esquadra da PSP do Bairro da Bela Vista. E logo na Segunda-feira uma manifestação de apoio aos moradores do Bairro da Jamaica que começou no Terreiro do Paço terminou com vários incidentes entre um grupo que saiu do protesto e desfilou pela Avenida da Liberdade. Neste final de tarde foram atiradas pedras a carros (da Polícia e que passavam na avenida) e disparadas balas de borracha, com um dos jovens a ser atingido na cara. A PSP deteve quatro pessoas, tendo três já cadastro e ficha na Polícia. Já no caso do fogo posto em caixotes em Setúbal, a Polícia identificou três menores.

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