Senhora sem idade definida

Luanda acaba de comemorar mais um aniversário, quantos já lá vão não digo, mas são já alguns. De senhora vaidosa não se diz a idade, nem se pergunta, assim diz o povo. Mas desta senhora vaidosa, de facto, também ninguém acreditaria se revelasse aqui a sua idade. Luanda tem prédios novos, modernos, como uma meia-irmã de um Dubai perdido por aí, mas apenas na aparência das fachadas vidradas e no calor interior que obriga à permanência do ar condicionado. Pelos lados da Vila Alice, forçando um pouco, ainda se descobre parentes muito afastados de uma arquitectura Arte Nova, tal como um lupa pode descobrir um ou outro sobrado da época da escravatura. E casas de pau-a-pique, bem, talvez restem algumas, duas ou três, assim como as de adobe. O mesmo é dizer que esta cidade, de tão vaidosa, vai-se desfazendo da sua história como os répteis da sua pele. O mal está nas novas peles, Luanda não encontra uma que lhe caiba no seu papel de capital, de cidade que inspirou poemas e canções, amores, dramas e até o sonho da Independência. Não se pode dizer a idade de uma cidade vaidosa, mas esta que ainda não resolveu problemas básicos como o saneamento, a arborização, a mobilidade, os espaços para o lazer. Enfim, Luanda é uma cidade antiga em fuga da felicidade, uma mulher bonita, vaidosa, que ou se trata mal, ou se entrega a quem não a merece.

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