Mais de 600 novos casos de lepra no país

Organização mundial da Saúde (OMS) incluiu Angola num conjunto de 22 países mais endémicos do mundo, com alta carga de lepra, em conformidade com os indicadores da doença, numa altura em que a Associação para a Reintegração de Pessoas Atingidas Pela Lepra (ARPAL) se queixa da falta de apoio do Governo

Seiscentos e 18 novos casos de lepra foram detectados pelas autoridades sanitárias, revelou o secretário de Estado para Saúde Pública, José Viera Dias da Cunha, na Sexta-feira, em Benguela. O governante revelou que esse número correspondente a uma taxa de detecção de 2.17 por cento por 100 mil habitantes, com uma cifra de deformidade de 16.20 por cento em novos casos.

José Viera Dias da Cunha fez essas revelações ao intervir no acto comemorativo do Dia Mundial da Lepra, que hoje, 27, se assinala, segundo a Angop. As províncias de Luanda, Huambo, Malange, Cuando Cubango, Benguela, Bengo, Bié e Moxico foram as que registam maior incidência desta doença no país, onde os últimos dados apontam para o registo de pouco mais de mil casos, até 2018.

O gestor público garantiu que o Governo está comprometido em tudo fazer para melhorar e ampliar o acesso à informação, diagnóstico precoce, tratamento gratuito e disponível desta enfermidade, em cumprimento das recomendações da OMS, que têm como principal objectivo reduzir a carga da doença. José Cunha explicou que a distribuição de medicamentos para a lepra nas unidades sanitárias em todo país é gratuita.

“O grande trabalho de combate à lepra deve ser feito por todos nós. A lepra é uma doença crónica e infecto-contagiosa que atinge a pele em diferentes partes do corpo e os nervos, cuja magnitude e alto poder incapacitante mantém esta enfermidade como uma preocupação de saúde pública”, referiu.

Recordou que, em 2005, Angola declarou a erradicação da lepra como problema de saúde pública e que, naquela altura, a doença apresentava uma prevalência correspondente a 0,36 por cento por cada 10 mil habitantes.

José Cunha disse que a taxa de eliminação preconizada era de 01 caso em 10.000 habitantes, mas que a tarefa ficou difícil de cumprir, uma vez que o país ficou sem apoios para o controlo da doença. Referiu que nove anos depois da declaração desta eliminação, a OMS incluiu Angola num conjunto de 22 países mais endémicos do mundo, com alta carga de lepra em conformidade com os indicadores da doença.

Alertou a população a identificar os primeiros sinais da doença e da necessidade de se procurar a unidade sanitária mais próxima da sua residência, pois esta atitude reduz o risco de deformidade e incapacidade, o que garante que as pessoas afectadas possam levar vidas normais com dignidade. Até 2018, cerca de 20 mil pessoas haviam sido curadas da lepra em Angola.

Activistas sem apoio do estado

A Associação para a Reintegração de Pessoas Atingidas Pela Lepra (ARPAL),que trabalha há cerca de 15 anos em prol do bem-estar da população angolana, diz que o único o apoio que receberam do Ministério da Saúde é a cedência de uma sala onde realizam as consultas no dispensário de Luanda, conforme noticiou OPAÍS, recentemente.

Em declarações a este jornal, Inácio Pedro, o conselheiro da associação, contou que têm passado por dias difíceis para a execução dos seus programas, uma vez que deixaram de receber o financiamento da embaixada da Suíça. Dinheiro esse que servia, sobretudo, para as deslocações, às províncias, onde eram realizadas acções formativas para agentes comunitários, bem como eram preparadas palestras.

Inácio Pedro disse que distribuíam folhetos informativos em locais públicos, como escolas, com o objectivo de se combater a discriminação contra as pessoas que sofrem de filaríase linfática e não só. “O trabalho deveria ser realizado em parceria com o Governo para a obtenção de melhores resultados, não só no tratamento da doença mas também no combate ao estigma”, sublinhou.

Apesar disso, afirma que a organização não “cruzou os braços” e continua a desenvolver os seus projectos. Muitas das vezes, quando se deslocam às províncias, os técnicos dormem em tendas para que a população seja atendida.

A ARPAL diz que mais de 500 crianças, de diferentes faixas etárias, contraíram deformidades nas mãos em consequência da lepra em todo o país. De acordo com Inácio Pedro, só na província de Luanda foram registados mais de 200 casos o ano passado, perfazendo uma média de dois a três casos novos por semana.

Os danos da lepra

A lepra é uma doença infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae que afecta os nervos e a pele e que provoca danos severos. É uma enfermidade contagiosa, que passa de uma pessoa doente, que não esteja em tratamento, para outra. Transmite-se por gotículas de saliva. O bacilo Mycobacterium leprae é eliminado pelo aparelho respiratório da pessoa doente na forma de aerossol durante o acto de falar, espirrar ou tossir.

A contaminação se faz por via respiratória, pelas secreções nasais ou pela saliva. É no último Domingo de Janeiro que se comemora o Dia Mundial da Lepra. Este dia foi instituído em 1954 pela ONU, a pedido de Raoul Follereau, o apóstolo dos leprosos do século XX, que um dia afirmou que “não há sonhos grandes demais”.

Esta efeméride tem com objectivo sensibilizar as pessoas para a discriminação exercida sobre os doentes com lepra, assim como promover a ajuda dos leprosos e a sua reintegração social. Foi escolhido o último Domingo de janeiro para a celebração em honra de Gandhi, falecido neste dia, que afirmou que “eliminar a lepra é o único trabalho que não consegui completar na minha vida”. O objectivo mundial é continuar o seu trabalho.

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