“Pedaços da História” transmite experiência de idosos com infortúnio

“Pedaços da História” é mais recente obra literária da escritora Ketya Santos, a ser apresentada no dia 5 de Fevereiro, no Centro Cultural português

O livro, cujo lançamento enquadra-se na parceria do Camões – Centro Cultural Português, com a Editora Acácias, reúne 40 depoimentos de cidadãos anónimos, de idade avançada, provenientes de várias províncias, na maioria acolhidos no Beiral em Luanda. Para a autora Ketya Santos, a necessidade de vida nos olhos cansados e radiantes de quem já muito plantou e colheu junto com o pouco tempo que lhes resta e a extrema vontade de viver, é um contraste paradoxal e impactante diante daqueles que perdem o foco da urgência de existir simples e plenamente.

Acrescenta que somos maioritariamente tão exagerados na nossa insatisfação, orgulhosos e egoístas, que desfocamos a retina do essencialmente simples para focarmos nas fantásticas buscas ilusórias do dia-a-dia. “Foi ouvindo pedaços dessas histórias que mudei o ângulo da história da minha própria vida. No decorrer destes dias, petisquei o contraste do factor tempo e vida e saboreei da sinceridade inevitável no rosto envelhecido dessas pessoas vividas para assim consagrar a magia contida nestas páginas”, revelou.

Alguns excertos da obra

“As pessoas morriam mesmo como se fossem cães. A guerra aqui dentro choveu com muita força…mas isso era entre nós, porque os portugueses na independência não fizeram mais confusão”. Valentim Ribeiro – 73 anos, natural de Malanje. “O Kim só conheceu o pai na fotografia. Quando ele foi na tropa, deixou-me ficar no Lobito, houve muitas mortes. Nem quero saber da guerra, enfim… Aí ele pensou que eu havia morrido, eu também pensei que ele havia morrido”. Laurinda Almeida e Silva – 95 anos, natural do Lobito.

“Naquele tempo numa casa não poderiam sair muitas pessoas para estudar, então saiu só a minha irmã, eu ficava em casa a cuidar da casa” Maria Luís- idade indeterminada, natural de Luanda.“Também não sabia o que era o namoro, nunca me deixaram namorar, nunca me deixaram aprender essas coisas, era só casa, serviço, serviço, serviço. Sabia lá o que era o amor, de que cor era, como é que fi cava?” Elisa de Jesus do Nascimento – 85 anos, natural do Bié.

error: Content is protected !!