Suposto Bilionário Tailandês dizia ter 3,3 triliões de dólares

O tribunal viu-se obrigado a adiar o interrogatório ao arguido Th eera Buanpeng (29 anos), director Executivo da Centennial Energy (Th ailand), Company por este não falar nenhuma língua internacional, inglês ou francês, e não ter conseguido ainda um tradutor

3,3 triliões de dólares é o montante que o suposto bilionário tailandês Raveeroj Rithchoteanan garantiu ter, em três contas bancárias domiciliadas em três bancos nos EUA, para convencer os seus “potenciais parceiros” canadianos Andre Louis Roy e Pierre Rene Tchio Noukelan de que tinha capacidade financeira para investir em África. Essa fortuna é muito superior a de Jeff Bezos, o norte-americano considerado como o homem mais rico do mundo, cujo império está avaliado em 112 biliões de dólares, de acordo com a lista dos bilionários de 2018 da revista Forbes, embora Raveeroj Rithchoteanan nunca tenha constado entre os homens mais ricos do planeta nas listas tornadas públicas anualmente por diversas organismos internacionais.

A revelação foi de Andre Louis Roy, um dos dez arguidos do mediático caso Burla à Tailandesa, ao contar, em tribunal, as circunstâncias em que conheceu o tailandês que preside o Conselho de Administração da Centennial Energy (Th ailand), Company. Em declarações à instância do juiz da causa, Domingos Mesquita, o arguido afirmou que no dia 10 de Outubro de 2017 o alegado bilionário tailandês fez prova do seu status apresentando a si e ao prófugo Pierre René documentos das três contas bancárias onde alegadamente estão tais montantes, domiciliados em três bancos, cujos nomes não soube precisar. Apesar de não ter conhecido a sede da aludida empresa, disse que teve a impressão de que Raveeroj Rithchoteanan era uma pessoa honesta por ser um homem que se levanta cedo para ir trabalhar e que, por isso, não seria capaz de fazer algum mal.

Questionado pelo juiz conselheiro do Tribunal Supremo se a conta estava em nome de Raveeroj Rithchoteanan ou da empresa deste, a Centennial Energy (Thailand), Company não soube precisar no momento. Contou que tomou conhecimento, por via do seu conterrâneo Pierre Rene, que tais valores faziam parte da herança do ex-Presidente das Filipinas, Ferdinando Emmanuel Edralín Marcos, falecido a 28 de Setembro de 1989. Todavia, não tinha a certeza a 100 por cento. De realçar que essa tese já foi refutada por Raveeroj Rithchoteanan durante o seu interrogatório. Na ocasião, afirmou que reiterou que o dinheiro era seu e da sua empresa, tendo ironizado que o antigo líder das Filipinas morrera há bastante tempo. André Louis Roy disse que foi convidado a vir à Angola pelo prófugo Pierre René que considera ser um homem de negócios camaronês e canadiano, residente em Montereal, a maior cidade da província canadiana de Quebec.

Na ocasião, Pierre René manifestara que pretendia implementar alguns projectos no nosso país, em parceria com os tailandeses da Centennial Energy (Thailand), pelo que pretendia contar consigo, por ser um empresário do ramo de construção civil com créditos firmados. O arguido contou que na ocasião manifestou que preferia implementar projectos universitários nos Camarões. O juiz Domingos Mesquita questionou- o sobre se o convite era para vir a Angola e para fazer o quê, e ele esclareceu de forma pausada, para facilitar a compreensão da jovem de 25 anos que traduzia de francês para português as suas palavras, que foi para que a sua empresa se encarregasse da construção dos projectos.

Fundamentou que Pierre René lhe dissera que tinha uma licença para realizar projectos de construção em Angola e, como não tinha experiência no ramo, recorreu a si. Disse que veio em representação da sua empresa, Group André Roy Inc, como candidato a executar projectos de interesse público que seriam implementados por Pierre Rene com o financiamento da Centennial Energy (Chailand). Afirmou ter tomado conhecimento do cheque de 99 mil milhões dólares somente depois de terem sido presos e que viu o de 50 mil milhões em diversas ocasiões, porque Raveeroj Rithchoteanan o exibia nos encontros com entidades angolanas.

“15 mil dólares não, 7 mil…”

Indagado pelo juiz da causa sobre por que razão custeou as despesas dos quatro dias em que a delegação da qual fazia parte ficou hospedada no hotel Alvalade, respondeu que fê-lo devido a um desentendimento entre os tailandeses e a gerência do hotel. Como naquele momento era o único que tinha dinheiro, pagou os 7 mil dólares, após lhe ser prometido que na semana seguinte seria reembolsado. O que não aconteceu até ao dia em que foram detidos. Quanto à transferência de 30 mil dólares para a conta de uma funcionária do Banco Central das Filipinas, identificada apenas por Fátima, a pedido de Raveeroj Rithchoteanan, esclareceu que o fez porque este o havia informado que era para pagar os honorários dela pelo serviço que prestara para que o swift (código bancário) do cheque fosse enviado ao Banco de Negócios Internacional (BNI).

Face a essa questão, o juiz da causa, como se tivesse recuado ao princípio, questionou-o sobre a reacção que teve quando Raveeroj Rithchoteanan lhe apresentou as alegadas provas documentais da sua capacidade financeira, ao que ele respondeu ter ficado surpreendido. Era o enquadramento perfeito que precisava para a pergunta a seguir: “E não ficou surpreendido quando o bilionário lhe pediu para pagar as despesas de 30 mil dólares”? O arguido respondeu que anuiu ao pedido porque o seu único objectivo era conseguir um contrato de prestação de serviço. Insatisfeito com a resposta, Domingos Mesquita insistiu e quis saber por que razão não foi Raveeroj Rithchoteanan a fazer a transferência, ao que o Andre Roy respondeu ser um serviço que prestou, na esperança de obter um contrato de prestação de serviços para vários anos.

Ao juiz-assessor, Daniel Modesto, Roy esclareceu que não havia celebrado qualquer contrato por escrito ou verbal com Raveeroj Rithchoteanan para receber elevadas quantias monetárias no prazo de cinco anos em troca dos 30 mil dólares, como diz a acusação do Ministério Público. Esclareceu que foi uma proposta verbal que apresentou, no dia 17 de Dezembro de 2017, durante um dos encontros que tiveram no hotel Epic Sana, como os valores que lhe deveriam ser pagos no prazo de cinco anos se a sua empresa fosse contratada para executar os projectos que a Centennial Energy Thailand pretendia investir em Angola através de parcerias público- privadas. Para dissipar quaisquer dúvidas, exemplificou que foi como se alguém lhe tivesse perguntado o preço de um produto que estivesse à venda.

Negociações indevidas com o BNA

Andre Roy disse que participou no primeiro encontro que a delegação, encabeçada por Raveeroj Rithchoteanan, teve com os alguns dos responsáveis do Banco Nacional de Angola e que não ouviu serem apresentadas propostas de negócios em ouro. Afirmou que nesse encontro não o viu também a apresentar algum documento ou pedido verbal de garantia soberana ao Governo angolano. Por outro lado, disse que a reunião foi predominantemente numa língua que não domina, pois tem o inglês como segunda língua e fala fluentemente o francês. Instado a pronunciar-se se conhecia alguns dos angolanos arrolados no processo como arguidos, nomeadamente Norberto Garcia, ex-director da extinta Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP) em Angola, o general José Arsénio Manuel, presidente da cooperativa Ondjo Yetu, afecta às FAA, Celeste de Brito, empresária, e Christian Albano de Lemos, subchefe da Polícia Nacional, respondeu que os conheceu quando chegou ao nosso país, na companhia dos tailandeses e do seu conterrâneo canadiano, no dia 27 de Novembro de 2017. O mesmo não acontecia com o seu amigo Pierre Rene, que esteve em Angola em Maio do mesmo ano e por cá permaneceu três semanas, tendo mantido contacto permanente com a co-arguida Celeste de Brito.

Amizade abalada com a burla

Ambos já se conheciam desde 2015, ano em que Pierre Rene foi à empresa de Andre Roy convidá-lo, na qualidade de empresário do ramo da construção civil com créditos firmados no seu país, para ir visitar o continente africano, onde tinha alguns projectos. Foram ao Ghana, onde Rene pretendia construir três universidades, e aos Camarões, onde além de conhecer os seus projectos nesses países, teve a honra de interagir com o Presidente da República e o primeiro-ministro ganeses. Passados dois anos, o prófugo, que foi colega da empresária angolana Celeste Marcelino de Brito António, co-arguida nesse processo, voltou a procurá-lo com uma nova proposta que tinha a ver com o alegado bilionário tailandês que estava interessado em financiar projectos em África.

Disse ter sido nessas circunstâncias que surgiu o primeiro convite para ir à Tailândia, tendo declinado porque estava empenhado num grande projecto de construção de uma linha de comboio eléctrico em Montreal, no período de Novembro de 2016 a Outubro de 2017. Anuiu ao segundo convite e, a 9 de Outubro de 2017, aterrou no aeroporto de Banguecoque, na Tailândia, para conhecer o alegado bilionário Raveeroj Rithchoteanan. O que veio a acontecer no 23 andar do hotel Shangri la, ao qual pode apresentar a sua empresa, através de um folheto onde constava o seu historial e alguns dos projectos de construção civil que havia desenvolvido até então. Deste modo, acreditava ter provado a sua capacidade técnica e experiência, como se tivesse passado num teste de admissão. Na manhã seguinte, voltaram a reunir-se e foi aí que Raveeroj Rithchoteanan fez prova da capacidade financeira que diz possuir.

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