Estudantes do ensino superior apresentam reclamações na Assembleia Nacional

Reclamações, críticas e lamentações predominaram nas intervenções dos estudantes do ensino superior que foram auscultados pela 6ª comissão do Parlamento, ontem, Quarta-feira, 30, na Assembleia Nacional

O encontro entre os responsáveis da Comissão de Saúde, Educação, Ensino Superior, Ciência e Tecnologia (6ª Comissão) e a União dos Estudantes do Ensino Superior deveria servir, essencialmente, para que os parlamentares recolhessem contributos sobre o quadro legislativo do sector e a visão dos estudantes em relação à qualidade do serviço público prestado na referida área. “O principal objectivo deste encontro é conhecer melhor a visão dos estudantes universitários sobre o ensino superior, seus pontos fortes, seus pontos fracos e as perspectivas de desenvolvimento do Ensino Superior”, explicou Victor Kajibanga, presidente da referida comissão na abertura da reunião.

O encontro, que durou cerca de três horas, ficou marcado pela apresentação, por parte dos estudantes, de reclamações e lamentações. A má qualidade dos docentes, a falta de fiscalização às instituições de Ensino Superior por parte do Executivo, a falta de uniformização dos conteúdos leccionados, a falta de acessibilidade para as pessoas com deficiência física às infraestruturas, bem como a falta de laboratórios e estágios curriculares foram algumas das inúmeras preocupações apresentadas pelos estudantes de diferentes instituições do ensino superior. Aniceto Faustino, presidente da associação da Escola Superior Pedagógica do Bengo, afirmou haver jovens que, apesar de beneficiarem de bolsas de estudo, após a formação não têm enquadramento no mercado de trabalho.

André Kamba, estudante da mesma instituição considerou “precária” a qualidade do corpo docente que compõe as instituições de ensino superior, sejam elas públicas ou privadas. Segundo este finalista do curso de licenciatura em pedagogia, muitos professores não têm o perfil adequado para leccionar neste subsistema de ensino. “Não podemos ter uma boa qualidade de ensino se não tivermos professores altamente qualificados. A condução do processo de ensino-aprendizagem exige uma direcção cientificamente fundamentada”, referiu. Garrido Mendes, presidente da Associação dos Estudantes da Universidade Católica de Angola, sugeriu que a 6ª Comissão passe a fazer melhor acompanhamento junto do Ministério do Ensino Superior para o cumprimento do Decreto 9/90, que regula as instituições do ensino superior, quer sejam públicas ou privadas.

Sugeriu, também, que a mesma comissão realize encontros periódicos com os líderes estudantis no sentido de estarem actualizados em relação às preocupações dos estudantes. A título de exemplo, o estudante do 4º ano do curso de Direito, considerou “uma pouca-vergonha, em pleno século XXI, independentemente de ser uma instituição privada, um estudante do Ensino Superior ser retirado da sala no decorrer duma avaliação só porque não pagou uma mensalidade”. Sugeriu que esta situação seja resolvida rapidamente. Reclamou ainda da falta de agregação pedagógica por parte de alguns docentes. “O ensino não se improvisa, quando estamos a improvisar estamos a deixar de fazer ciência”, afirmou.

Leandra Nunes, do curso de engenharia civil do Instituto Superior Politécnico Tocoista, reclamou contra a falta de uma grelha curricular uniforme, tendo referido haver estudantes do mesmo curso, mesmo ano, mas de instituições diferentes a obterem conhecimentos diferentes. A estudante do 3º ano acusou a comissão de fiscalização do Ensino Superior de “não estar a trabalhar” como deveria ser. No decorrer do encontro, dezenas de jovens intervieram, alguns a título individual e outros representantes de organizações estudantis, como é o caso do Movimento Nacional dos Jovens Universitários de Angola.

Excesso de burocracia

Os estudantes reclamaram também contra o excesso de burocracia e demora no processo de reconhecimento dos certificados, solicitaram a criação de um hospital universitário, a revisão curricular, a falta de uma rede de transportes estudantis, bem como da falta de condições básicas, como é o caso da Faculdade de Medicina que, de acordo com os estudantes, tem apenas uma casa de banho para homens e mulheres. O deputado João Pinto, que também é professor universitário, “repreendeu” o modo como a maioria dos estudantes criticou os professores. “Não pode ter sucesso quem bate no seu pai.

Uma das coisas que me chocou é o modo como vocês banalizam e ridicularizam os professores”, reclamou. Reconheceu haver dificuldades a nível do Ensino Superior, contudo, referiu não acreditar que seja somente um “mar de lamentações” dado o número de raciocínios lógicos e sistematizados apresentados. No final do encontro , Victor Kajibanga anunciou para este ano a deslocação da comissão que dirige a determinadas instituições de Ensino Superior para constatar in loco o trabalho realizado. As preocupações apresentadas deverão, segundo o responsável, ser enquadradas em memorando próprio que deverá ser submetido ao Ministério do Ensino Superior.