Arroz de marcas nacionais é empacotado fora do país

O executivo angolano quer trabalhar para continuar a aumentar cada vez mais a produção nacional de arroz, por forma a reduzir a importação e abastecer o mercado nacional

O país está a importar arroz cujas marcas levam nomes típicos de Angola. No entanto, não se trata de um produto nacional, pois não é cultivado e nem embalado no país. A informação foi avançada ontem, em Luanda, pelo secretário de Estado para a Agricultura e Florestas, José Bettencourt. Ao falar em entrevista à imprensa no final do seminário sobre “Os desafios do agronegócio”, organizado pela Academia BAI, referiu ser necessário que os agricultores e empresários nacionais se dediquem à produção do arroz pelo facto de a produção nacional ser ainda insuficiente para abastecer o mercado.

Referiu que existem algumas províncias, como são os caso do Bié, Moxico e as Lundas Norte e Sul, onde já existe alguma produção, que ainda não responde às necessidades, uma vez que os camponeses necessitam de potencialização com meios mais industrializados. “Temos que dar um salto enorme em termos de produção camponesa para uma produção maior, assim como criar condições para o descasque do arroz”, esclareceu. “É por isso que consumimos marcas de arroz com nomes nacionais mas que não são produzidas localmente”. Reiterou que essas marcadas são importadas e não produzidas no país. Para o governante, o produto pode vir com a casca, para depois proceder-se no país ao processo de descasque, embalagem e posteriormente distribuição. “Assim criaríamos novos postos de empregos para nacionais”, deu exemplo.

Outros produtos a não importar

Existem produtos que não devem ser importados, como é o caso do óleo alimentar, dada a grande capacidade de produção de grãos e soja existente no país. No caso do feijão, por exemplo, avançou que já há produção suficiente, pois o nível de produção ronda as 350 mil toneladas por época de feijão interna, sendo por isso desnecessária a sua importação. Entre outros produtos, acrescentou também as frutas , nomeadamente a manga, a banana e o abacaxi . Pelo facto das mesmas serem produzidas em grande escala em território nacional, tendo referido que existem exemplos práticos, citando o caso da banana que já é exportada. O governante, que não avançou o valor, explicou que o país gasta muito com a importação de bens alimentares. Para ele, “essa verba seria aplicada em outros sectores, sobretudo na educação e na saúde”, exemplificou.

Autossuficiência na produção

Na sua comunicação, o Secretário de Estado da Agricultura referiu que o Decreto 23/19, publicado recentemente, define uma série de produtos prioritários para a substituição das importações, como a farinha de milho, farinha de bombó, as frutas e também alguns grãos existentes no país. Sublinha que com o referido decreto pretende- que antes de Angola olhar para o que existe nos outros países olhe para aquilo que tem. “Por exemplo, aqui tem milho para produzir fuba, uma vez que temos moageiras a funcionar. Vamos produzir fuba aqui dentro. Caso não seja suficiente, aí sim podemos recorrer à importação para suprir o défice. Outra solução pode ser adquirir matéria-prima para que essa seja transformada localmente”, apontou.

Alertou para o facto da existência de alguns casos em que a produção de feijão feita no país passava pelas fronteiras e regressava novamente para o país. “Temos que criar uma rede que vai à busca deste feijão. Temos que reduzir a importação”, disse. Por isso, realçou que o Ministério da Agricultura e Florestas está a trabalhar com os empresários e camponeses por forma a criar melhores condições, tais como facilitar o acesso aos insumos agrícolas, para a aumentar o nível da produção nacional no curto prazo. “Há necessidade de termos os nossos produtos ao serviço da população nacional. Ainda se gasta muito dinheiro com as importações”, lembrou.

Criação de infra-estruturas, comércio e a capacidade empresarial entre as prioridades

Por sua vez, o engenheiro agrónomo Fernando Pacheco disse que o desenvolvimento do agronegócio no país será possível se essas três prioridades forem alcançadas. Segundo o consultor, é necessários que se faça um estudo profundo para definir as principais prioridades com diagnósticos profundos e demorados. No caso das infra-estruturas deve ser a reabilitação das estradas primárias, secundarias e também terciarias. “Para o caso do comércio, é inaceitável, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista político, que há mais de 40 anos após a Independia nacional não haja um comércio nas zonas rurais”, lamentou. Fernando Pacheco acrescenta ainda a questão do reforço das capacidades a nível empresarial e institucional, já que os serviços nacionais ainda são fracos, sem prestígios e com pouca capacidade. Mas avança que, apesar de fazer menção às três prioridades, estas não esgotam os problemas que afectam o desenvolvimento da agricultura.

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