Yuri Quixina: “A reforma estrutural não deve estar sob o comando do petróleo”

A revisão orçamental, a previsão de uma nova recessão na economia angolana são dos temas que marcaram a semana e analisadas no economia real. o economista Yuri Quixina afirma que se o executivo tivesse sido prudente teria revisto o oGe antes da aprovação

Por: Mariano Quissola / rádio Mais

O 4 de Fevereiro foi crucial para hoje pensarmos a macroeconomia, certo?

Seguramente. Devo homenagear os nossos antepassados que lutaram pela liberdade. O pilar que criou os Estados Unidos foi a liberdade e os nossos antepassados também lutaram para isso, mas a grande diferença entre Angola e os Estados Unidos é que o americano soube sustentar esse pilar até hoje e desenvolveram- se consideravelmente. Mas nós não soubemos sustentar essa variável liberdade, para o desenvolvimento sustentável do país, porque a nossa economia tinha características comunistas e socialistas.

Mas ainda vamos a tempo, não acha?

Os Estados Unidos estão com mais de 200 anos de democracia… Sim, estamos a tentar corrigir os erros do passado. O caminho é para aí, melhorarmos o ambiente de liberdade económica, liberdade de imprensa. Liberdade social. Esse é o segredo para o desenvolvimento do país. Já nascemos com o liberalismo, o 4 de Fevereiro é um exemplo de liberalismo puro.

Que avaliação faz da liberdade económica no país?

Há tentativa da liberdade económica, vivemos quase 43 anos sem liberdade económica. Ser empresário era escolher a dedo, nem todo o mundo tinha de ser empresário. Se analisarmos as leis do passado, todas tinham pendor de uma economia fechada.

Espero que esta tentativa da liberdade económica seja efectiva. Os principais bancos internacionais previam um preço médio do barril de petróleo a 63,30 dólares e ainda assim não chega à previsão do OGE angolano. Mais de 40 instituições fazem previsões do preço do barril de petróleo até 2023.

Os pessimistas e optimistas variam entre 57 e 81 dólares. Entretanto, na previsão média ninguém diz que passaria dos 68 dólares. Continuo a defender que sendo o petróleo um produto extraordinariamente volátil, que o país não controla, não seria a base de elaboração do Orçamento Geral do Estado.

Devemos partir do princípio que a oportunidade do petróleo acabou e que a reforma estrutural não deve estar sob o comando do petróleo. Mesmo em cenário de optimismo, se o petróleo vai chegar a 80 dólares, por exemplo, o orçamento deve ser elaborado a 40, para relançar a economia, mediante a poupança adquirida nessa base. O Governo admite fazer revisão orçamental em Março. Já estava previsto. Antes tarde…

Antes do orçamento ter dado entrada no Parlamento dissemos que iria morrer na praia, com base na informação preliminar avançada na altura e porque a trajectória do preço era de queda, em função dos acontecimentos internacionais nomeadamente o Brexit, o shutdown nos Estados Unidos e a incerteza nas relações entre a China e os Estados Unidos. São as economias que mais procuram o petróleo.

Penso ter faltado três perspectivas: manter o preço a 68 dólares foi teimosia, faltou tacto de persuasão aos parceiros como o FMI e deu-se um sinal de falta de visão de longo prazo. O foco de um orçamento deve ser sempre de longo prazo. Mas acreditava-se também nos dois cenários fundamentais: previsão do FMI e o corte da OPEP. Mas o petróleo não pode mandar em nós até na reforma estrutural.

É um produto que determina 90% do PIB da economia?!

Podia determinar 100%, é fundamental procurar-se outras fontes. O povo é o único instrumento fundamental que nos deve tirar da dependência do petróleo. Temos de alterar a psicologia económica das pessoas, que pressupõe as pessoas serem empreendedoras, donas de si mesmas, do ponto de vista económico.

A secretária de Estado das Finanças e Tesouro, Vera Daves, admitiu a possibilidade de ocorrência de tensão social, decorrente da retirada das subvenções. Será essa a consequência?

O caminho será de ajustamento, a discussão será em que doze. Não há cultura de pagamento das contas, fruto do modelo imposto há mais de 40 anos de ser dependentista do Estado. A consultora Fitch Solutions prevê queda de metade na concessão de crédito na banca angolana.

O que estará na base disso? Provavelmente o Estado vai financiar- se pouco no sistema financeiro, na mediada em que o OGE previa o superavit de 1,5%. Significa que o Estado vai arrefecer a busca de dinheiro no mercado. Segundo, é o facto de o país vai viver uma austeridade e as empresas não terão condições de responder às exigências de garantia dos bancos. E por último, alguns bancos vão apresentar, este ano, problemas de liquidez.

SUGESTÃO DE LEITURA

  • Título da obra: Mudar o Mundo
  • Autor: Noam chomsky
  • Ano de reimpressão: 02- 2014
  • frase para pensar: “os intervencionistas acreditam que é possível fazer o bem com o dinheiro dos outros”, Milton Friedman, economista
error: Content is protected !!