Eastwood ou como fazer arte sobre a Velhice

Eastwood está, perto dos 90 anos, de volta com um filme notável, baseado no facto improvável, mas real, de um velho transportar droga

Clint Eastwood consegue mesmo nos seus momentos menos altos aprofundar os traços do retrato que faz do homem envelhecido e desencantado, mas atento aos pequenos encantos da vida e ainda intransigente, duro, consigo próprio e os outros, incapaz de negar um imperativo moral. Olha para a América do Norte e o seu cinema pela lente de um grande clássico. Após ter criado, com actor, personagens carismáticas no papel de polícia ou de cowboy, Eastwood impõe-se como realizador com a aura dos grandes clássicos de Hollywood, na linha de um épico Jonh Ford. Surpreende-nos pelas composições que dá ao seu personagem que é, afinal de contas, o mesmo e conduz-nos a uma reflexão singular sobre a velhice.

Uma idade que, na sociedade contemporânea, parece interessar apenas, e cada vez mais, como mercado para os cosméticos que garantem adiá-la ou atenuá-la ou então para vender, quando ela, velhice, acaba mesmo por chegar, toda a sorte de aparelhos ortopédicos. Clint, próximo dos 90 anos (e ainda dirige e protagoniza, hélas!), desenvolve, na verdade, uma imensa reflexão sobre a velhice, que é terna, mas sobretudo pejada de contradições. Correio de Droga é uma história formidável publicada pelo New York Times sobre um idoso que se torna correio de droga e obtém excelentes resultados e a confiança do cartel de latino-americanos que lhe paga as tarefas, as quais executa descontraidamente, tirando partido da inverosimilhança de desempenhá-las em idade tão avançada.

Um velho a transportar droga numa carripana não é propriamente o foco da atenção das autoridades. A interpretação de Clint é novamente impecável. Alguns dos diálogos, tirados de um argumento bem construído, são preciosos. No meio da trama está afinal um velho com problemas com a família, que o acusa de sobrepor o trabalho a todo o resto, cometendo faltas imperdoáveis. O idoso sai das dificuldades económicas com o dinheiro da droga e assim torna-se mais popular junto da família, de que se consegue reaproximar. É sobre esta teia de contradições que se move, com muito talento, este grande filme de Eastwood, o primeiro que protagoniza depois do espantoso ‘Gran Torino’. Clint Eastwood apresenta-nos uma visão desassombrada e atenta sobre a velhice e os labirintos de memórias, experiências e legados que o desenham. Filma com rigor, dando ao argumento uma dinâmica cinematográfica que encanta, mesmo nas partes menos mexidas da história. É, de facto, um grande cineasta.

error: Content is protected !!