Jaime Lerner: “Viana tem muito a contribuir para a metrópole de Luanda’

Brasileiro descendente de polacos, jaime lerner, de 82 anos, é um dos maiores nomes do urbanismo mundial. como grande referencia traz o facto ter chegado à função de consultor das Nações Unidas para assuntos de urbanismo, com a assinatura de projectos implantados em diversos países. o sistema de mobilidade urbana que ele instalou em curitiba, hoje já é copiado por mais de 200 cidades

POR: entrevista de N. Talapaxi S.
São Paulo (Brasil)

Em Angola, Lerner, desembarcou em 2007 e, desde então, vários projectos com a sua marca têm sido materializados. Ele é o autor do Projecto Vias de Luanda, levado a cabo pela empreiteira Odebrecht. E elaborou as plantas arquitectonicas de centralidades construídas pela Kora Angola, uma empresa público-privada que actua no mercado imobiliário nacional. Nesta breve entrevista que nos concedeu, o urbanista passa em revista o seu olhar sobre a cidade capital angolana.

E, traçando uma linha entre Luanda e São Paulo – duas urbes que segundo a história, foram fundadas na mesma data, mas em anos diferentes – opina sobre o que uma tem a aprender com a outra. Embora tenha sedo perguntado, Lerner só não revelou sobre os custos do Projecto Vias de Luanda. Também não respondeu se o facto de a empreiteira Odebrecht estar envolvida em vários processos de corrupção no Brasil e no exterior teria impacto sobre o trabalho dele em Angola; se isso comprometeria a materialização dos seus projectos em Luanda.

Data de 2007 que Jaime Lerner produz projectos para Luanda, a serviço da Odebrecht. Quantos projectos fez, quantos foram implementados?

Fomos procurados para elaborar projectos de paisagismo visando a requalificação urbana de alguns espaços públicos de Luanda, ruas, praças e largos. Alguns dos projectos implantados: trecho da Av. Deolinda Rodrigues, pequeno trecho da Orla da Ilha, praça da Radio Nacional, Alameda Van Dunen, largo Rio de Janeiro… são alguns exemplos.

Hoje, mais de 10 anos depois, considera- se satisfeito com o resultado do seu trabalho em Luanda? Ou existe alguma coisa que não tenha sido feita (ou ainda não foi feita) como o senhor traçou?

As cidades têm necessidades constantes de melhoria, o planeamento deve acontecer todos os dias, sempre há trabalho a fazer, em especial uma cidade que está se reconstruindo. As cidades mudam todos os dias, Luanda tem feito muito, mas tem muito a ser feito nas áreas de mobilidade, macrodrenagem, saneamento e estruturação urbana.

Não sei quando foi a última fez que esteve em Luanda, mas sei que em 2009 esteve lá e até elogiou o desenvolvimento da cidade. Quais as principais diferenças que vê entre a Luanda de 2007 e a Luanda de hoje, depois de materializados os seus projectos?

Quando estive em Luanda, vi um movimento de mudança, vi as coisas começarem a acontecer, que é o início de um caminho de inovação. Sempre acreditei que inovar é começar. Nesses últimos anos, contudo, tenho poucas informações.

E quais os principais problemas que observou?

Pude ver que Luanda apresentava os problemas urbanos mais recorrentes nas cidades em desenvolvimento, vi problemas nas áreas de mobilidade, saneamento, habitação.

O senhor tem afirmado que os três grandes problemas das cidades ainda são os mesmos: mobilidade, sustentabilidade e a coexistência. Como é que Luanda – assim como qualquer cidade actualmente – pode conjugar esses factores?

Costumo dizer que todo o problema pode ser resolvido a partir de equações de corresponsabilidade. Devemos apresentar cenários à população para que ela possa contribuir e avaliar, e se ela entende como um caminho desejável, todos se empenharão para que aquilo que foi apresentado se torne uma realidade. O sector público e a sociedade podem, juntos, trabalhar para as soluções de diferentes problemas.

As grandes cidades do mundo são cada vez mais tecnológicas, em busca de uma urbanidade mais inteligente. A realidade angolana e africana, em geral, está longe disso. As soluções de urbanidade passam necessariamente pelo uso de tecnologias modernas?

Tecnologia é importante, mas deve ser um acessório. Fundamental é o Conceito de Ocupação, é o Desenho da Cidade. Um desenho de crescimento que vise integrar a população, criar um sentido de pertença, um desenho que busque garantir qualidade de vida nas cidades, menos necessidade de deslocamentos, mais acesso às demandas diárias da população, Vida e Trabalho juntos.

Conhecendo Luanda (em Angola) e São Paulo (no Brasil), o que é que uma poderia aprender com a outra? Que troca de experiências o senhor faria entre as duas?

As duas cidades ainda têm muito a fazer mesmo nas questões básicas – moradia, transporte, saneamento. Mas, também, são polos económicos muito dinâmicos que podem oferecer muito às suas populações. Tendo trabalhado com a cidade de São Paulo, diria que ela tem muito a ensinar sobre o papel da iniciativa privada, que é muito dinâmica e actuante no papel que lhe cabe. E Luanda tem muito a ensinar sobre a actuação do poder público na requalificação urbana, na rapidez das decisões e na velocidade das intervenções; ao contrário do Brasil, onde a burocracia e as indecisões travam o desenvolvimento urbano.

Além de Luanda, o senhor foi chamado também a intervir na urbanidade do município de Viana. O que é que está previsto?

Viana tem muito a contribuir para a metrópole de Luanda. Viana é parte de um território que se dinamiza todos os dias e para lá estão reservados alguns elementos fundamentais para a qualidade de vida da metrópole, logística, abastecimento de água, polos industriais, entre outros.

Por outras cidades de Angola há os projectos da Kora, que levam a assinatura de Jaime Lerner. Podese dizer que esses trabalhos são o mais próximo possível do que socialmente se espera de um espaço urbano?

Os trabalhos que fizemos na elaboração das Comunidades Urbanas foram carregados de diversos conceitos que desenvolvemos ao longo das nossas experiências. As localidades foram implantadas a partir de uma leitura particular do território para dali buscar referências que pudessem contribuir para o desenho do lugar. Foram inseridas diferentes tipologias de arquitectura, espaços de comércio, de serviços como educação e saúde; foram previstos e reservados terrenos para outras actividades comerciais e de serviços geradoras de renda, actividades culturais e de lazer, sempre visando – trabalho e moradia juntos.

Tem-se mostrado não ser a favor do separatismo urbano por renda ou por classe. Então como é que vê a implantação de bairros para pessoas de renda baixa e a construção de condomínios fechados que servem para pessoas mais abastadas?

Continuo sendo contra a criação de guetos, tanto para ricos como para pobres. Isso é a anti-cidade. A cidade é o lugar da troca, é o lugar do conviver dos diferentes, é nesse encontro que ocorrem as maiores sinergias. Defendo a cidade dos serviços e espaços públicos de qualidade, do convívio pleno e da cultura como “pertencimento” de um lugar. Uma cidade mais diversa socialmente e integrada é certamente mais humana.

Um dos grandes problemas que os países em desenvolvimento enfrentam está ligado à capacitação e valorização dos seus quadros. Além de dar corpo aos seus projectos de urbanismo e arquitectura, o senhor tem acções no sentido da qualificação de profissionais locais?

O fazer acontecer já é criar uma oportunidade de qualificação dos profissionais locais, é um começo, mesmo sabendo que isso não baste, aprender é sempre necessário.

Quais foram as dificuldades e facilidades, sejam das instâncias públicas ou das privadas, que encontrou em Angola para a implementação dos seus projectos?

Encontramos profissionais qualificados por todas as instâncias que passamos, sempre pessoas engajadas nas causas urbanas.

Qual dever ser o papel dos governos e das políticas públicas para promover mais urbanidade entre os moradores?

Sempre que os gestores urbanos contribuírem para a qualidade de vida nas cidades, promoverem o encontro das pessoas de forma que as diferentes trocas possam ocorrer com naturalidade, a cidadania estará presente. Usufruir da colectividade é parte da vida urbana.

Além dos conceitos propriamente ditos da condição de ser urbano, a urbanidade é entendida como civilidade, pressupondo uma convivência saudável entre os habitantes do espaço urbano. Mas o facto é que a urbanização tem sido acompanhada de muitos actos selvagens. Isso não deixa subentendido um preconceito de que ruralidade seja sinônimo de falta de civilidade?

Seja no campo ou na cidade, o que posso dizer sobre isso, a partir da minha experiência como gestor, é que sempre que oferecemos equipamentos e serviços urbanos de qualidade, a população reconhece, valoriza e respeita.

Acompanhou o caso da Build Brasil que depois virou Build Angola – em que o Pelé foi o garoto propaganda, que acabou se consumando como uma grande burla de empresários brasileiros. Que repercussão teve esse caso no seio da vossa classe de profissionais?

Creio que, se podemos tirar uma lição de tudo isso, é a necessidade de um aperfeiçoamento constante e transparente nas relações entre o poder público e grandes agentes económicos, avançando em práticas de compliance que no médio prazo beneficiarão a sociedade no seu todo.

Para terminar, há uma palavra a dizer aos luandenses?

No pouco convívio que tive com os luandenses, vi uma sociedade gentil, alegre, esperançosa. Que esses atributos humanos acompanhem essa cidade por toda a vida.

Perfil

Jaime lerner é arquitecto, urbanista e político. tem sido intitulado também como humanista, dado que os seus projectos buscam facilitar a urbanidade. Nasceu em curitiba, no estado brasileiro do Paraná, a 17 de dezembro de 1937; é formado em engenharia civil (UFPR-1960) e arquitectura e Urbanismo (UFPR-1964). Foi Prefeito/ administrador de curitiba (1971/79/89) e governador do Paraná (1994 e 1998). exerceu o cargo de presidente da União Internacional dos arquitectos –UIa (2002 a 2005), é membro honorário do Instituto americano de arquitectos (aIa) e do Instituto Real de arquitectos Britânicos (RIBa). autor do livro acupuntura Urbana, no qual conceitua o seu trabalho, tem sido palestrante sobre urbanismo. o modelo de urbanização de curitiba levou-o a dar aulas de urbanismo na Universidade Berkeley (califórnia, estados Unidos). ele também tem em projecto um mini-carro eléctrico, o dock dock.

 

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