A bomba silenciosa

À uma amiga minha foi proposta a criação e direcção de um curso de farmácia numa universidade privada. Ela olhou para a proposta e verificou que não havia laboratórios, questionou e obteve a resposta de que os laboratórios não eram necessários. Como ela não morria de fome e é das pessoas que sabem que o dinheiro não pode justificar tudo, recusou. O Ministério do Ensino Superior decretou que a nota mínima para se ter acesso a uma faculdade ou instituto superior é a de dez valores, a partir deste ano lectivo, o resultado, felizmente, é o que acaba de ser revelado no Huambo. Na Faculdade de Ciências Agrárias nem um só candidato conseguiu obter a nota mínima. Antigamente entrava-se para preencher as vagas e isso permitia todo o tipo de corrupção. Vi na TPA, no intervalo do noticiário da tarde de Quarta-feira, o anúncio de um instituto superior de Luanda, no Benfica, com uma voz de fundo de uma senhora e inscrições promocionais sobre a oferta. E li: “Ciências Farmacêutica”, “Gestão Administrativo”, entre outros cursos da instituição. Havia mais erros. E, imagine-se, há também um curso de Comunicação Social, obviamente com “ilustres” professores e directores que até devem ter elaborado a dita comunicação. Com esta qualidade exemplar de técnicos e doutores, com os jovens a entrar com notas de três ou quatro valores, o resultado é o país que temos. É para se ficar estarrecido. Já se percebe porquê que os médicos chumbaram no concurso público de admissão ao sistema público? Caiu aqui uma bomba atómica e nem nos apercebemos dos estragos. Vão ser necessárias gerações para dar a volta a isto.