Imagem da falsa figura do ‘Rei Mandume’ continua a provocar debate público

Um desses debates aconteceu recentemente, durante uma palestra que destacou a figura de Mandume Ya Ndemufayo, enquanto “Símbolo de Resistência do Século XX”, decorrida em Luanda

O colóquio marcou a celebração do 102º aniversário da morte, por suicídio (6 de Fevereiro de 1917), do último soberano Kwanyama, Mandume Ya Ndemufayo, insigne figura histórica de Angola, pela sua história e pelos seus feitos, e Símbolo da resistência do Sul de Angola à penetração e ocupação colonial. Durante a abordagem o discurso concentrou-se igualmente na discussão em torno da figura falsa do soberano, exibida em 1974, e a verdadeira localizada actualmente no Arquivo Nacional de Angola e na Namíbia, que muitas curiosidades despertou.

Uma outra questão que também mereceu a atenção dos participantes foi, sem dúvidas, a honestidade demonstrada por Mandume Ya Ndemufayo, a preocupação e responsabilidade na defesa do seu povo, o suicídio em combate, entre outras. O colóquio, organizado pelo Ministério da Cultura, por via da Direcção do Arquivo Nacional de Angola, contou com a prelecção do historiador Tiago Caungo e moderação de João Lourenço, director da Biblioteca Nacional de Angola.

Origem

Pertencente ao reino mais poderoso da tribo Ambós, Mandume – ya – Ndemufayo, comandou os destinos do povo Kwanhama num dos períodos mais difíceis da história da região Sul, de 1911 a 1917. Desde então, o seu nome e feitos ficaram marcados para sempre na tradição dos Ambós, que o apelidaram de “O Cavaleiro Incomparável”. A sua determinação dificultou o projecto de implantação da administração colonial, impondo duras derrotas às tentativas de ocupação do seu território, o que levou os europeus a aliarem-se contra o seu reino.

Durante o reinado de Mandume, as guerrilhas entre os povos africanos acabaram e passaram a ser apenas contra os portugueses que, a todo o custo, tentavam ocupar a parte Sul de Angola. Antes da ocupação colonial, os Ambós estavam divididos em cinco reinos: Kwanhama (o mais importante), os Kuamatuis (pequeno e grande), os dois estados do Evale, Dombala e Kafima. Estados que viviam entre si, salvo alguns conflitos por causa das guerrilhas no Sul de Angola. Além de Portugal, a Alemanha também queria dominar aquela parte de Angola, rica em recursos minerais e gado.

Conferência de Berlim

Conta-se que após a realização da Conferência de Berlim, em 1885, os dois adversários (Portugal e Alemanha) firmaram um acordo sobre a fronteira Sul de Angola, assente na delimitação actual. Apesar do acordo, os alemães ainda alimentavam esperanças de vir a apoderar-se do Sul do país, o que fez com que Portugal ocupasse efectivamente o território. De 1886 a 1915 os colonizadores não tiveram a possibilidade de conquistar o Ambó, devido à resistência no reino vizinho do Humbe. Já os alemães, concentrados no comércio, aproveitavam a oportunidade para vender armas ao reino, esperando por uma oportunidade para o ocuparem.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Portugal apressou-se a ocupar o Reino dos Ambós para evitar que outras potências europeias o fizessem. No ano seguinte, 1915, os portugueses ocupam o Reino do Humbe, lançando de seguida um ataque surpresa a Ondjiva, capital do Reino Kwanhama, do qual Mandume, na altura Soba, foi forçado a fugir. Esta situação, segundo historiadores, aliada ao flagelo da fome que assolava a região, agravou o sofrimento do povo Kwanhama. Em resposta, Mandume uniu as tribos de todo o Ambós e falou-lhes da necessidade da luta contra os colonos. A par destas actividades e tirando partido da rivalidade entre os alemães e os portugueses, Mandume dialogou com os primeiros, de quem recebeu armas e outros apoios para a luta e, se possível, a expulsão dos portugueses da região, planos que agradaram então aos germânicos, também com interesses no Sul.

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