Ou é ou não é

POR: Kâmia Madeira

Damásio estava agastado, cansado dos desaguisados da vida, tinha abandonado a sua terra natal deixando-se levar pela boa sorte do vizinho Magalhães que contava maravilhas da vida na capital. Cansado das chimpacas e de percorrer quilómetros para capinar e ter tão pouco que mal dava para sustentar a família resolveu arriscar. Os primeiros tempos foram difíceis, vendeu água e depois mudou para limões, foi juntando e passou para os cabos USB. Como era um negócio sazonal, fazia curtas pausas e ia tendo formações na oficina de um conterra até que a sorte sorriu e conseguiu uma vaga no CINFOTEC, esforçou-se e ganhou um estágio na oficina de uma marca de carros conceituada. Trabalhador humilde e dedicado foi granjeando a confiança dos patrões e subiu na hierarquia, como pouco gastava, amealhou o suficiente e comprou um terreno numa zona afastada mas com promessas de acessibilidades. Mandou vir a mulher e os filhos e iniciaram a nova vida. Já se passara um ano e as ditas cujas das acessibilidades nem vê-las, o bairro crescia a olhos vistos ocupado pelos despojados do centro da cidade, que viviam em prédios obsoletos e que iriam dar lugar a arranha-céus, e esses vizinhos afastados das suas referências criavam ondas de grande instabilidade pois os seus filhos não iam à escola e os pais pouca ocupação tinham. Todos já sabiam que o anoitecer era altura de recolher obrigatório forçado, pois a escuridão dá azo ao ladrão e com poucos postos electrificados ou na ausência dos mesmos era mais seguro estar em casa. Após um dia cansativo, Damásio deparou-se com mudanças no troço de regresso ao bairro, que complicaram o trânsito e consequentemente as corridas de candongueiro e viu-se às aranhas para chegar. Já era alta a noite, receoso encetou a caminhada e cada estalido que ouvia mais estremecia, estucou o passo quase corria até que para seu azar encontrou um grupo de meninos com não mais de 15 a 16 anos, no meio uma menina suplicava para que a deixassem passar, Damásio pensou para os seus botões : “Só me faltava esta…” Com a pouca coragem que tinha tossiu e com uma voz grave retorquiu: Jovens deixem a moça ir para casa. Waaaa! Mo kota estás a ver qual filme? Quem te mandou falar? Em segundos garrafas partidas gargalos empunhados e o pobre Damásio esfaqueado, uivos de dor, vizinhos assustados… um mais corajoso e com uma arma que não entregou na dita campanha de desarmamento, faz uns tiritos. A squad do leitinho (nome do grupo de meliantes mirins) desmobiliza e sem esquadra de Polícia ou centro de saúde foi mesmo a sua mulher a fazer os primeiros socorros. Nos dias seguintes tentou dar queixa, quis um apoio institucional e, como em todo o lado, deparou-se com ouvidos de mercador, resolveu ir ao único sítio que sabia que seria ouvido… Rumou a uma famosa estação de TV e encontrou uma fila enorme de gente na mesma situação, a quem ninguém queria ouvir e que sabia que se o seu caso fosse exposto em cadeia nacional mais hipóteses teria de ver o seu problema resolvido. Ora, quando o programa começou vozes de protesto ergueram-se enfurecidas, diziam que seria uma réplica mal parida de programas idênticos feitos em terras canarinhas, com o intuito de especular. A verdade é que a fila dos casos todos os dias aumenta, o próprio programa até já diz quantos cidadãos conseguiu ajudar e a população pegou o chavão, se queres impor respeito dizes: “Comigo ou é ou não é”…. E a pergunta que não quer calar, caro leitor é : E por que assim é? Por que tem um programa de televisão mais força que instituições estatais?