O favoritismo de A Favorita

em breve se saberá quantos óscares vai arrebatar. A Favorita, do grego Yorgos Lanthimos, dá-nos uma narrativa brilhante e burlesca sobre o poder, a intriga e o sexo no palácio de Ana, rainha da Grã-Bretanha e Irlanda

Favorita, um dos filmes favoritos aos óscares deste ano, suscita uma reflexão sobre a ‘qualidade’ civilizacional de um Ocidente que prega ao resto do mundo o avanço da sua sociedade, da sua política e da sua economia. A Favorita passa-se numa Inglaterra em ascensão e que, com Ana, se tornaria o Reino da Grã-Bretanha e da Irlanda. Bem vista na tradição oficial britânica, a rainha Ana é retratada em A Favorita como uma espécie de mentecapta a quem a política interessa apenas para satisfazer as suas compulsivas paixões homossexuais.

Um vício a que se dedica praticamente a 100%, sempre que as maleitas que a afectam o permitem, entre os coelhos (sim, coelhos em carne e osso que até surpreenderiam o doutor Freud), símbolos de uma fertilidade desgraçada (a dela, rainha, não a dos coelhinhos…), que coabitam os seus aposentos. O cenário é de putrefacção encastrada nos ouros e cetins da corte e povoada pela faces patéticas de homens afeminados num reino governado por mulheres, que resgatam o orgulho na intriga e se lambem em devaneios lascivos. Solidão do poder? Qual! Decomposição do poder. É lama que cheira mal. E, no entanto, não se tratou de um período decadente, mas de uma etapa na rota rumo à hegemonia sobre o planeta.

Esta aparente dissolução moral passa-se numa Inglaterra que é o berço da democracia, onde a rainha ainda tem a última palavra, mas as duas forças parlamentares,’ toris’ e ‘whigs’, exercem uma vasta influência nas decisões. A Inglaterra, doravante unida à Escócia e Irlanda, estava prestes a tornar-se a verdadeira primeira potência global, importando matérias-primas das suas possessões noutros continentes para transformá-las nas suas indústrias do Lancashire. Uma história inglesa contada por outro ocidental, um grego, que leva a sofisticação da narrativa ao cume do burlesco, oferecendo-nos uma fotografia notável, na definição da cor e da iluminação, e um guarda-roupa, uma composição dos personagens e uma coreografia de luxo.

Hollywood, sempre virada para o rigor das reconstituições histórica ao estilo da BBC (tipo O Discurso do Rei), verga-se perante este filme sobre a pornografia política e social que reinou numa época marcante para a história do Ocidente. Yorgos Lanthimos (Canino), o realizador de A Favorita, é o ponta de lança da nova vaga do cinema grego. Já conhecíamos o seu talento de Amor em Tempos de Cólera. Agora, apetrechado de outros recursos, como a presença das actrizes Olivia Colman, no papel de rainha Anne, Rachel Weisz, na de Sara Churchill, Duquesa de Marlborough – confidente, conselheira (e amante em segredo) da monarca -, e Emma Stone, no de Abigail, a recém-chegada prima de Sara, vértices vistosos de um triângulo amoroso em que as mulheres utilizam o poder como arma de sedução. Três soberbas interpretações. E o espectador não deixará de notar que os ‘bons’ não ganham necessariamente no final da fita, pois, no caso, quem fica com a ‘mocinha’, perdão, com a rainha, nem é a criatura que mais sentido de Estado revela. Um excelente filme, a não perder.