Yuri Quixina: “A solução do crédito malparado é a retoma do crescimento económico”

Professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, diz que enquanto a recessão persistir, o crédito malparado vai conviver com a economia e defende que a inversão deste quadro depende da correcção da política orçamental. Acompanhe a análise dos temas que marcaram a semana económica

POR: texto Mariano Quissola / Rádio Mais, foto de Daniel Miguel

O crédito à economia caiu cerca de 50% e os investimentos em títulos públicos aumentaram em 100%, segundo o governador do BNA. Quais foram as reais causas?

O governador apontou duas causas, eu tenho a terceira causa.

Cite-as, por favor.

Uma das causas é a inflação, mas é importante dizer que quem causa a inflação é o Governo, não é o mercado. O mercado prospera com a estabilidade. A inflação decorre da expansão monetária e não é alta de preços. Há um aspecto importante que o governador aponta, que a inflação está a influenciar o aumento das taxas de juros, porque as taxas de juros reais que o banco quer têm de ser vantajosas. A maior parte do crédito concedido pela banca cresceu mais no sector público, enquanto o sector privado ficou em 50%. Ou seja, quando o Estado vai cada vez mais ao mercado, concorre com as famílias e as empresas e leva todo o crédito. É isso que influencia o aumento das taxas de juros.

Como inverter este quadro, no qual o Governo/Estado é o campeão do crédito?

A inversão deste quadro depende da política orçamental e não monetária. Se não educarmos a política orçamental, os bancos vão continuar a estar com o Estado, as taxas de juros vão continuar altas e as famílias e as empresas não terão acesso ao crédito nem para habitação, nem para investimento. E a economia vai continuar no buraco. O défice é resultado do descontrolo dos gastos públicos, o Governo gastou muito e não sabe onde gastou. É necessário estancar a sangria, através de persuasão e informação eficaz para que os cidadãos sejam o centro da reforma.

Espera-se que a avaliação da qualidade dos activos de crédito dos bancos comerciais, em Abril, venha a estabilizar o sistema financeiro. É o caminho?

A qualidade dos activos da banca depende do crescimento económico, porque permite ao bancos aumentar o capital. O nosso sistema financeiro foi criado pelo crescimento económico e não o inverso.

O crédito malparado desceu 0,5 pontos percentuais, mas aumenta o número de cidadãos com incapacidade para honrar regularmente o crédito. Qual é a consequência?

Apesar de ter caído 0,5 pontos percentuais, Angola continua a ser o país com o crédito malparado mais elevado na África Subsahariana. É cíclico: se a economia crescer o crédito malparado reduz, porque as pessoas conseguem pagar o crédito. Se a economia está em recessão o desemprego aumenta, as empresas fecham, o crédito malparado aumenta. Um país que concede crédito até para casar é normal que haja esse nível de malparado. A solução do malparado é a criação de condições para a retoma do crescimento economia crescer o crédito malparado reduz, porque as pessoas conseguem pagar o crédito. Se a economia está em recessão o desemprego aumenta, as empresas fecham, o crédito malparado aumenta. Um país que concede crédito até para casar é normal que haja esse nível de malparado. A solução do malparado é a criação de condições para a retoma do crescimento económico.

Podia-se esperar outro cenário num país onde não há banca de investimento?

Não, a questão que se coloca é a de orientar a política económica. O país precisa, depois de ter saído da guerra, de política virada para a produção e não para o consumo e vendeu-se a ideia de que Angola era um grande país, porque o dinheiro era fácil e barato.

Trump propõe um crítico do Banco Mundial para liderar a instituição e definiu já três focos: salários altos, China e países pobres. Isso é política?!

É um individuo muito competitivo, estamos a falar de David Malpass, um banqueiro do Wall Street. Conhece muito bem a economia mundial e é alguém muito desenvolvimentista. Ele defende a redução de empréstimos a países que já estão a desenvolver- se, em favor dos que estão em vias de desenvolvimento. Ele critica a China porque continua a ir buscar crédito do Banco Mundial e acha que não se justifica, pela pujança já alcançada e ainda estar no mesmo nível dos países pobres.

Mas essa estratégia não tem laivos da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China? Acredita que aos países pobres venha a ser dada maior atenção no seu mandato?

Mas essa é a filosofia dos políticos, falam muito dos pobres, mas não fazem nada para os pobres. O receio que tenho é exactamente essa teoria trumpista, em vir colocar a política no centro dos financiamentos do Banco Mundial.

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