‘Mimi’, uma voz que dá voz às empregadas domésticas e donas de casa

elizabeth Júlia Kallei é a cidadã que interpreta a personagem ‘Mimi Sabalo’, empregada doméstica do programa Sexto Sentido, emitido de Segunda a Sexta-feira, das 09 às 12 horas na Tv Zimbo

Elizabeth Kallei, que também integra a equipa de produção, incarnou a personagem desde o dia 28 de Julho de 2017, aquando da reestruturação do programa Sexto Sentido, ao qual se pretendia imprimir um maior dinamismo. A personagem escolhida, além de proporcionar audiência e animar o programa com as conversas com a apresentadora Dina Simão (Patroa) sobre vários assuntos, como o comportamento das donas de casa e das empregadas domésticas, tem ainda o objectivo de as reeducar, com base nas estórias que lhes são contadas. Pela sua ousadia e talento, ‘Mimi Sabalo’, que se tornou na empregada mais ‘famosa e folgada’ do país, tem servido de veículo para transmitir mensagens de donas de casa e de empregadas domésticas, que a interpelam na rua.

Segundo conta, quando com elas se depara, incentivam-na a falar dos seus problemas. Referiu que as donas de casa queixam-se da ousadia das empregadas, que acabam por mexer nos pertences pessoais. Já as empregadas domésticas solicitam para que fale sobre o desrespeito de que são alvo por parte das suas patroas. “As empregadas queixam-se dos maus-tratos das patroas. Dizem que elas pedem para levarem comida ao trabalho, proíbem-nas de comer na cozinha ou na sala. As patroas, por sua vez, pedem para falar sobre o mau comportamento das empregadas, que muitas vezes chegam atrasadas, ou fazem mal o seu trabalho por distracção”, explicou.

Humanização

Elizabeth Kallei disse que se compromete a falar sobre o assunto durante o programa, com o objectivo de apelar para a questão da humanização, tanto das patroas, como das trabalhadoras domésticas. Para ela, é possível existir boas relações entre ambas as partes, por se tratar de seres humanos racionais. Por esta razão, aconselha a partirem sempre para o diálogo, de modo a mostrar e, consequentemente, sanar as insatisfações. A interlocutora de “OPAÍS” disse ainda que, pelo facto de as empregadas tratarem das suas casas e lidarem com a família, devem ser tratadas com mais respeito pelas patroas. Por isso, entende que sem as ‘domésticas’, as ‘patroas’ teriam de se duplicar para fazerem os trabalhos de casa e atender questões profissionais em simultâneo. “Há muitas patroas que, mesmo sabendo que a empregada é o seu suporte, não as respeitam. Tratam- nas pior do que aos animais. Tento mostrar a realidade e insatisfação das duas figuras. O personagem ficou tão conhecido que sou parada na rua porque as pessoas gostam e simpatizam com o meu trabalho”, observou.

O trabalho

Sobre a ousadia da ‘Mimi Sabalo’ com a ‘patroa’ no programa, referiu que a intenção é mostrar que existem empregadas ‘espaçosas’, apesar disso, reconhece que devem existir limites. Quanto à demonstração de actos negativos durante o trabalho na TV, refere que o faz com o intuito de levar as empregadas a reflectirem para uma mudança de comportamento. Em relação à personagem, disse ser fácil de interpretar, por se tratar de algo natural, que o faz com muito amor. “Sou muito espaçosa, simpática e animada. É algo natural. Por esse motivo, o meu trabalho fica facilitado. Da mesma forma que me comporto no programa, assim sou fora dele. Muito espontânea”, confessou.

A personagem

A sugestão para a inclusão da empregada doméstica no programa foi do actual coordenador de conteúdos da área de programas da TV Zimbo, Erick Costa, durante a inuma terrupção, em 2017, para a mudança de cenário. Além da dinâmica pretendida, queriam também voltar em grande, com uma “diarista”, que se comportasse e falasse tal e qual a grande maioria das empregadas angolanas. Para o efeito, realizaram-se ensaios com o pessoal da área de produção, a que Elizabeth Kallei pertencia. Entretanto, a sua performance foi tão assertiva que de imediato o aludido coordenador não teve dúvidas e a escolheu, por ser a pessoa que procurava. “Queriam uma empregada que se comportasse como angolana de raiz, e não com imitações do estrangeiro.

Pensei que não conseguisse fazer, mas depositaram confiança em mim. Viram o potencial que tinha, que eu não acreditava. Comecei a fazer aqueles gestos, de empregada desinformada, com aquele português do bairro e foi a cereja no topo do bolo”, recorda. Apesar de ter tido dúvidas inicialmente, por achar que não fosse capaz de fazer a personagem, não sabia ao certo o que diria durante o programa, embora a tivessem confortado dizendo que tinha um talento escondido que precisava de ser explorado. Os resultados são hoje reconhecidos. Quanto ao nome adoptado, ‘Mimi Sabalo’, deu a conhecer que foi sugerido por si, pois pretendia que fosse um nome vulgar. Deste modo, descreveu a doméstica como Domingas Maria Sabalo, esposa de Manuel Sabalo, mãe de oito filhos, residente na Camama, mas a directora do programa opinou que fosse apenas ‘Mimi’.

Inspiração

Apesar do seu talento, da capacidade de criação, Elisabeth Kallei tem várias fontes de inspiração, como o trabalho da actriz brasileira Cláudia Rodrigues, ‘Marineth’, personagem da série “A Diarista”. “Vejo todos os dias essa série. Inspiro-me muito na Marineth, bebo muito do seu trabalho. Ela consegue jogar várias personagens num único momento e trabalha em quatro cinco casas e saise bem”, avaliou. Em Angola admira o trabalho de Josefina dos Santos, ‘Lembinha’, da série Conversas no Quintal, da televisão concorrente, bem como as demais actrizes do grupo Julu, por considerá-las portadoras da cultura angolana. Gosta ainda do trabalho das actrizes Tânia Burity e Vanda Pedro.

Artes cénicas

Elizabeth Kallei fez parte do grupo teatral ‘Desejados da Kianda’, em 2008, durante seis meses, por via de um convite feito pelo seu professor de sociologia, Jonas Mazwela. A intenção do professor era de estimular a veia artística de Elizabeth, de modo a despertar o seu talento. “Ele dizia que tinha o talento para ser actriz, mas eu achava que não. Agradeço muito a ele, porque despertou esse talento em mim. Gosto muito de criar no momento. É muito mais fácil para mim”, disse. Já em 2017, foi convidada para participar na peça teatral “O império do mal”, em que interpretou duas personagens: uma enfermeira corrupta e uma senhora da alta sociedade, ambas muito aplaudidas.

Vantagens e consequências da fama

Além de a personagem lhe proporcionar algumas vantagens, como a aproximação das pessoas, referiu que algumas vezes causa momentos constrangedores, como ‘bullying’, por partes de pessoas que acompanham o programa. “Uns chamam-me empregada mais folgada de Angola, outras questionam por que motivo ainda não tenho carro e criticam, dizendo que famosos não andam de táxi. Como sou uma pessoa animada, consigo lidar com esses momentos”, asseverou. No seu bairro, vezes sem conta é procurada por diversas pessoas a solicitar por emprego e dinheiro, pois acham que pelo facto de trabalhar numa estação televisiva possua capacidades para tal. Contou ainda que já foi assaltada várias vezes e teve mesmo de mudar de casa, por chantagem.

“Encontrei um bilhete debaixo da porta com a mensagem de que queriam todo o dinheiro que ganho na TV Zimbo. E caso não o fizesse, matavam-me. Assustada com a situação, mudei de casa. Aí fiquei a saber sobre o preço da fama”, deplorou. Quando ocorreu o facto, Elizabeth pediu apoio à TV Zimbo, que na altura respondeu positivamente. Por isso, Elisabeth considera necessária a protecção dos cidadãos que dão o rosto na TV, a fim de se evitar situações do género. Referiu ainda ser difícil lidar com a fama, embora converse com todos. Disse que nunca sonhou tornar- se numa figura pública, pois ela surge como consequência do seu trabalho. “A minha naturalidade deixa as pessoas confusas. Por isso tenho bagagem para dar continuidade à personagem. Tudo que o falo crio no momento. Quando começo a falar, se a Dina Simão não interromper, quase que não paro”, manifestou a actriz de forma sorridente.

Televisão

Elizabeth Kallei realçou que é a primeira vez que trabalha numa estação televisiva, um emprego que sempre almejou. Apesar disso, antes trabalhou na emissora Católica de Angola (Rádio Eclésia) como realizadora do programa “Ser criança”, por um período não superior a quarto anos. É licenciada em Língua e Literatura Portuguesas pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Desde sempre nutriu paixão pela Comunicação Social, razão por que fez os cursos de Jornalismo Radiofónico e Técnicas de Oratória, de modo a complementar e conseguir trabalhar nesta área apaixonante e desafiadora. O seu maior sonho é o de ser apresentadora de televisão. Como novidade, segredou que brevemente será estreado um novo conteúdo na TV Zimbo, que contará com a participação da personagem ‘Mimi Sabalo’. Por isso, convida os telespectadores a estarem ligados, de modos a não perderem as novidades.

Projectos

Elisabeth Kallei mostra-se disponível para aceder a convites para participar em projectos cinematográficos, em que possa explorar ainda mais o seu talento. Recordou que no ano passado recebeu um convite do realizador Henrique narciso “dito” para participar num projecto cinematográfico. “Ele participou num dos programas e disse-me que estava a escrever um filme, com um personagem para mim… que gostaria muito que participasse no projecto. Garantiu que no momento certo vai contactar-me para o trabalho”, contou. Além deste, têm estado a surgir outros convites ao nível das artes cénicas, mas devido ao seu trabalho na Tv Zimbo, com a personagem ‘Mimi’ e na produção do programa, as solicitações não têm sido correspondidas. Apesar dos contratempos, continua a manifestar disponibilidade para trabalhar principalmente em projectos culturais.

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