Quando o ‘melhor amigo’ morre num país sem cemitérios

A forma como muitos angolanos tratam dos cadáveres dos animais de estimação constitui perigo para a saúde pública, bem como para o meio ambiente. Quando se perde ‘o melhor amigo do homem’, por exemplo, por falta de cemitérios e incineradoras para animais, muitos optam por depositar o corpo no lixo ou por enterrar no quintal de casa, expondo-se assim à contaminação por necrochorume

Embora a nossa reportagem venha cingir-se mais no comumente conhecido como o “melhor amigo do homem” (o cão), a problemática da falta de cemitérios estende-se para os outros animais de estimação, como gatos, macacos e cágados, entre outros. Animais com os quais sustentamos uma relação profunda e que a dado tempo são tidos como membros da família. Tyson, um cão da raça Serra da Estrela, fazia parte da família de Magdala Borja, até ter apanha do uma doença, aos dois anos e meio, que culminou com a sua morte.

Por ser um cão de grande porte, adquiriu a mania de alimentar- se muito rápido, o que contribuiu para que contraísse uma torção gástrica. Para além de ter de encarar o triste facto que é a perda do cachorro, a tutora teve de lidar com a falta de sensibilidade de muitos para este tipo de morte. Pediu um dia livre no trabalho, inventando uma história, para o último adeus ao amiguinho. “Disse que era um amigo humano, que estava longe de cá. Tinha um bom chefe, não cobrou o boletim de óbito pra justificar a falta. A minha com os meus animais de estimação sempre foi muito afectiva, de um apego emocional, com a partida dele nasce um vazio difícil de ser superado.

Sempre ficam as memórias mais felizes. Por isso, essas memórias devem ser honradas com uma última morada (condigna) para que descansem em paz”, conta. Até para os animais, a paz no seu descanso também é dada com um enterro condigno ou tratamento adequado ao seu corpo. É uma situação que para muitos não é de extrema importância e que chega a ser engraçada, ainda mais numa sociedade onde não se regista com alguma frequência casos de afeição aos animais domésticos. Um lugar específico para enterrar os animais de estimação está em falta no nosso país – isto é um ponto prévio e “num país com imensos problemas como o nosso”, de acordo com Magdala, um lugar como esses pode parecer luxo na miséria, o que não é, pois será um contributo para a saúde pública e responsabilidade social.

“A cobrança de taxas pra o enterro, por exemplo, irá contribuir nos serviços veterinários do país, que são escassos e de alto valor financeiro”, defende, tendo acrescentado que para ela é difícil despedir-se do seu “amigo de estimação” deitando- o numa lixeira (muitas vezes a céu aberto), por isso, o Tyson foi enterrado perto de casa, num terreno baldio. Entretanto, é fundamental também, para a nossa interlocutora, que seja revista a lei que protege estes animais, para que sejam chamadas aqui medidas como a castração e penalização ao abandono animal, bem como os maus-tratos. Por agora, parece desnecessário, mas medidas coercitivas e disciplinares podem e vão fazer a diferença.

Prevenir possíveis contaminações dos solos e águas

O tratamento adequado de cadáveres de animais não é uma atitude amiga do meio ambiente. Segundo o ambientalista Marcelino Francisco, pelo facto de o nosso ordenamento jurídico não ter ainda legislação específica para a protecção dos animais (excepto para alguns, em particular, como é o caso da palanca Negra, e actualmente os elefantes e o leões) pouco ou nada se diz relactivamente aos outros. “Neste contexto, pensar na possibilidade da construção de um cemitério para os mesmos seria pular etapas. Outrossim, é possível, caso o proprietário do animal assim entender, levar o cadáver do seu animal a uma incineradora, a exemplo do que se faz com os resíduos hospitalares e outros de características particulares ou sensíveis”, disse.

Ambientalmente é das práticas mais acertadas ou sugeridas para este assunto, que ajuda a prevenir possíveis contaminações dos solos e águas, pela libertação do necrochorume, líquido liberado na decomposição do corpo por microorganismos como vírus e bactérias. Quando o necrochorume alcança o aquífero subterrâneo ele contamina a água que pode estar a ser usada como fonte de água potável. Se pessoas desinformadas beberem a água contaminada podem apanhar patogenias graves como a febre tifoide, hepatite A, tétano, tuberculose, gangrena gasosa, toxi-infecção alimentar e outras doenças, como atestam os especialistas.

‘A Lei não fala do destino a dar aos cadáveres dos animais’

Antes mesmo de ter começado a falar do vazio que há na Lei angolana que fala sobre a sanidade animal, o jurista Joaquim veloso fez questão de realçar a declaração universal dos direitos do Animal, que, embora não saiba se Angola a ela aderiu, diz que todos os amimais devem ser respeitados pelos homens, têm direito a existência e não devem ser submetidos a maustratos. Joaquim Veloso convida os juristas a fazerem um melhoramento na Lei 4/4 de 3 de Agosto, Lei da Sanidade Animal, por existir um vazio, uma vez que no artigo 9º é levantada a proibição de deitar cadáveres ou vísceras de animais em lagos ou cursos de água ou outros sítios suscetíveis de provocar uma contaminação ao homem ou outros animais e ao meio ambiente, mas não diz onde devem ser depositados.

“Não há nenhum conselho, na lei, sobre o que se deve fazer com os animais mortos. É este vazio que me leva a convidar os juristas a fazer um melhoramento. O que mais se vê no nosso país é o depósito do cadáver no lixo, na rua, ou são enterrados no quintal de casa, o que é perigoso”, disse. O jurista aproveitou para levantar um estudo de uma médica veterinária brasileira que fala da existência de sacos plásticos próprios para o enterro de cadáveres de animais, de forma a que a sua decomposição não contamine o solo e as águas subterrâneas.

“Em Luanda, por exemplo, as pessoas vivem de tanques subterrâneos, pelo que é preocupante enterrar o animal dentro do quintal de casa. Algumas pessoas podem achar que é prematuro falar sobre cemitérios para cachorros, mas os animais têm direitos e devem ser defendidos tal como se defende a dignidade humana”, realçou. Outra recomendação deste especialista é, tal como nos outros países, dada a falta de cemitérios, que os tutores de cachorros contactassem as clínicas veterinárias no sentido de fornecerem, caso tenham, sacos apropriados para o enterro de cadáveres, já que não têm também incineradoras. Estes sacos poderiam ser vendidos a um preço simbólico.

‘Orientamos que se criem crematórios’

Para o bastonário da ordem dos Médicos veterinários de Angola (oMvA), Kussonga Jordão, a par dos cemitérios que chegam a custar mais na sua construção e manutenção, poder-se-ia adoptar a prática de cremação de cadáveres de animais. É quase a mesma ideia do ambientalista, porque os dois acham ser uma atitude mais amiga do ambiente. o especialista que trabalha com os animais mostrou-se inicialmente preocupado, quando chamado a intervir neste assunto pela nossa equipa de reportagem, com o número de animais que são atropelados e abandonados na via pública, tendo como referência a via Expressa. Esta situação leva-o a defender também que devemos mudar o modo como tratamos os cadáveres de animais, não apenas por questões ambientais, mas também de saúde pública.

Para corrigir isso, “nós orientamos que se crie um crematório para os animais, e, como vamos entrar nas autarquias, uma vez tratar-se de uma área administrativa de gestão facilitada, este serviço pode ser incorporado em cada município”, defende, Kussonga Jordão. Com a cremação, previne-se o risco de provocação de enfermidades por contaminação hídrica e outros elementos que ameaçam o meio ambiente. Cremar é mais higiénico, é um processo amigo do ambiente e não exigirá muitos custos, comparando com a criação de cemitérios. Embora seja um investimento pequeno, o impacto ambiental é grande, mas uma das questões que o responsável dos veterinários angolanos levantou é também a do costume da nossa sociedade. Acha que há a necessidade de se sensibilizar as pessoas neste sentido, de adoptarem um tratamento mais digno dos animais, e pode- se começar através dos clubes ou grupos de criadores e amantes de animais.

“na Europa, esta questão de cemitérios para animais, principalmente para cachorros, é uma realidade, porque o animal é visto como parte da família e a sua morte tem um impacto muito grande na vida dos outros membros. Se este hábito e costume estiver entre nós, poderemos ter também levantada a criação de cemitérios para animais com mais frequência”, disse. Reconhece que existam pessoas que têm a sensibilidade de dar um tratamento digno ao cachorro, mas que ainda há muito que fazer, sobretudo nas zonas suburbanas, onde muitos dependem das campanhas nacionais de vacinação contra a raiva, por exemplo, para vacinarem o cão de casa. A raiva e outras doenças caninas devem ser uma preocupação de todo e qualquer criador de cão e, por isso, deve este levar à clínica veterinária para o imunizar. “Então, quando começarmos a nos preocupar mais com a saúde animal, com ele ter de apanhar todas as vacinas para a sua protecção, começaremos a ter mais afecto ao cão e, evidentemente, questões como cemitérios ou crematório não serão coisas banais como alguns pensam. É um processo”, rematou.

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