Moradores do Bita-Cacati sobrevivem de “desmatação” de terrenos

moradores do bairro Bita-Cacati, distrito do Quenguela, município de Belas, em luanda, revelaram a O PAÍS que, por causa da falta de emprego, sobrevivem de biscastes temporários, sobretudo na desmatação de terrenos recém-adquiridos.

De acordo com Gizela Juliana Vanussi é o trabalho que mais aparece e exige capinar, limpar os terrenos, e esperar que o dono pague 3 ou 4 mil Kwanzas. “Se tiveres alguma sorte, o proprietário ainda te pede para controlares a parcela e, semanalmente, vai-te trazendo um pouco de comida que já diminui as necessidades diárias”, disse Gizela. Acrescentou que, aparecendo um terreno para limpar por dia, marido e mulher podem conseguir sustentar a família, por pelo menos duas semanas ou um pouco mais. Enquanto era entrevistada, Gizela apontou com o dedo em riste para um terreno adjacente ao da sua casa, para mostrar o último biscate que ela e o marido tiveram, acrescentando que estavam à espera do proprietário para proceder ao pagamento com o qual contavam para lhes garantir a única refeição do dia.

A senhora referiu que é nesse tipo de actividade em que se encontram quase todos os residentes do Bita-Cacati, exceptuando-se os poucos que desenvolvem vendas nas ruas e nos mercados dos bairros mais próximos. Aliás, as chefes de família aí residentes desejam ter um mercado no seu subúrbio, para atenuar algumas situações, começando por atrair os serviços de táxi no Bita- Cacati. Outra ocupação muito referenciada pela entrevistada que, segundo ela, foi conseguida pelas vizinhas mais sortudas é o de prestadora de serviços nas centralidades do KK 5000 e do Kilamba, bem com os intermediários da venda de terrenos.

Garcia, há mais de seis anos no bairro, mostrou-se preocupado com os gastos que o transporte exige nos dias que tem de ir procurar trabalho noutras municipalidades. “Porque há dias em que nem terreno para limpar aparece aqui e nós, como homens, não podemos ficar de braços cruzados”, informou o morador, referenciando as vezes sem conta em que se viu obrigado a caminhar da Avenida Fidel Castro, popularmente conhecida por Via Expressa.

Abandono temporário dos habitantes

Para Margarida Domingos, as dificuldades decorrentes da falta de energia eléctrica e água potável está a provocar transtornos na vida diária dos moradores, ao ponto de estar a motivar fugas temporárias de muitos vizinhos seus. “Também por causa da escuridão, eu, às vezes, fujo daqui, vou para a minha antiga área de origem, no Cazenga, concretamente no Calawenda, desabafou Margarida Gaspar, como é tratada entre familiares e vizinhos, tendo adiantado que, preocupante ainda é a falta de água, escolas e transporte público. Reconheceu a luta que a coordenadora tem feito em relação à resolução desses problemas, mas sublinhou que todos têm de cooperar com a líder. Queixou-se, igualmente, de roubos praticados por alguns jovens, em plena luz do dia. Aplaudiu a construção de um centro médico no bairro, adiantando que o funcionamento do mesmo vai encurtar o esforço dos residentes do Bita-Cacati, que tinham de recorrer às unidades hospitalares situadas na centralidade do Kilamba ou no Hospital Geral de Luanda.

Água uma vez por mês

Um dos apoios invocados por quase todos os moradores que foram entrevistados por este Jornal tem a ver com a distribuição de água. Mas para infelicidade do pessoal, a oferta só aconteceu por duas ocasiões, segundo os residentes. “É um projecto recente que foi engendrado no ano passado, vimos passar por aqui um camiãocisterna que nos deixou água, por duas vezes, cada uma num mês diferente, mas, desde Dezembro que já não aparece, porque a coordenadora do bairro Tânia tem de ligar antes. Garcia informou que, na falta dessa benesse, ele e seus vizinhos vêem-se a braços com a carência e são obrigados a comprar o precioso líquido nas imediações da centralidade, onde adquirem cada bidão de 20 litros a 100 Kwanzas e têm de levá-los por via dos poucos táxis que escalam para o Bita Tanque, a quem têm de pagar 250 ou 300 Kwanzas. Outros habitantes do Bita-Cacati lamentaram o facto de a maior parte dos miúdos da área dependerem única e simplesmente do Colégio Omega, onde os encarregados tem de pagar propinas. Declarou que as mensalidades para as classes entre a Iniciação e 2ª Classe custam 1500 Kwanzas, sendo que para as outras são supostamente mais caras: Não chegou a precisar, por não ter ainda nenhum filho a estudar em tais classes.

A coordenadora Tânia Panzo informou que os bairros novos e em progressão têm sempre confusões motivadas pela disputa de terrenos e o Bita-Cacuti, Sector 3, não foge à regra. “Houve um caso que mereceu a nossa intervenção e, a seguir, o encaminhamento à administração do distrito. Tratou-se de um terreno que foi vendido a duas pessoas”, contou a coordenadora, tendo realçado que o dono da parcela em nenhum momento deu a cara. No bairro Bita-Cacati, está em curso a construção de uma esquadra policial, com objectivo de encaminhar casos do género e assegurar o bairro da delinquência e outros crimes. Tânia Panzo avançou ainda que o clamor dos moradores sobre a necessidade de um mercado já está a ser atendido pela administração do distrito do Quenguela, a quem já foi recomendado encontrar um espaço intermédio, de modo a facilitar todos os moradores do bairro. Ela prevê que a efectivação desse projecto pode atrair a frequência dos taxistas e, a consequente redução de preços, no caso de haver possibilidades de se melhorar a qualidade da estrada que liga a Centralidade do Kilamba ao Bita Tanque.

Projectos em curso

A coordenadora do bairro Bita- Cacati, Sector 3, Tânia Panzo gaspar, anunciou que, tratando-se de um bairro novo, os projectos sociais estão em curso. Disse que, apesar da tranquilidade que os moradores encontraram nessas paragens de luanda, ainda enfrentam muitas dificuldades, principalmente na aquisição de água canalizada e potável e o usufruto da energia eléctrica, duas necessidades básicas que ainda não existe no bairro. As pessoas com mais capacidade financeira, que não são muitas, dependiam de um Posto de Transformação (PT), para ter luz em casa, mas infelizmente esse dispositivo teve algum problema grave, soube O PAÍS da coordenadora, que falou da contribuição de 20 mil Kwanzas que esses habitantes tiveram de fazer para beneficiarem da luz eléctrica. “Mas, mesmo assim, a energia não foi religada, disse a coordenadora, tendo avançado que o apagão já durava há mais de dois meses, razão pela qual a coordenação foi chamada a intervir para questionar ao gestor do PT sobre as reais razões da paralização no fornecimento deste bem”, assegurou.

Durante o ano passado, os clientes do referido PT usufruíram da energia eléctrica por três meses. No mês de Novembro, ficaram às escurar até a energia se restabelecer em Dezembro, tendo-se mantido em toda fase da Quadra Festiva. Depois disso, houve novamente restrição até à data desta reportagem. Relativamente aos projectos do Estado, Tânia Panzo gaspar informou que, há duas semanas, o seu administrador distrital trabalhou com os técnicos da Empresa Nacional de Distribuição de Energia (ENDE), a fim de formalizarem o programa de ligação eléctrica no bairro. “Resta esperar, até porque alguns serviços como a segurança no bairro e a assistência medicamentosa exigiram ao Governo a construir já, no bairro, uma esquadra policial e um centro de Saúde”, avançou. Quanto à distribuição de água, esclareceu que o programa foi conseguido no segundo semestre de 2018, mas só houve distribuição em Dezembro e agora em Janeiro, portanto, duas vezes, só em Fevereiro é que não tivemos. Reconheceu que a oferta não é suficiente para a demanda, sobretudo nos sectores 1 e 2.

No Sector 3, actualmente o menos populoso, segundo ela, a distribuição da água pode beneficiar mais de metade dos habitantes. Nos outros sectores, três ou quatro camiões cisternas. No que toca à escola, assegurou ser uma das áreas onde se esperam grandes investimentos, pelo facto de existirem muitas crianças fora do sistema de ensino. Adiantou, entretanto, que, com a escola em construção nas proximidades da sede do distrito do Quenguela, tal problema vai ser minimizado. O transporte é quase inexistente, não fossem os poucos taxistas oportunos que, às vezes, passam pelo Bita-Cacati em direcção ao Bita Tanque. Por se tratar de carros pequenos, o preço praticado por tais negociantes varia entre 200 e 250 Kwanzas. “A opção dos moradores do nosso bairro, passa mesmo por percorrer, a pé, uma distância de cerca de três a quatro quilómetros até às imediações da centralidade do KK 5 000”, admitiu a responsável. A caminhada não poupa algumas crianças e adolescentes, que estudam nas escolas das centralidades próximas e outras nos arredores desses dois centros habitacionais, por haver dias em que os táxis ficam bastante difíceis.

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